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06/02/2009 - 06:04

“Zefa – Uma biografia da miséria”

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Do baú de textos antigos, aqui vai um do jornalista Armando Antenore, publicado em 1998 num caderno especial da Folha sobre a crise financeira mundial. Como a crise está de volta — e a exclusão social continua — a reportagem não perdeu a validade. Leia.

Zefa — Uma biografia da miséria

Josefa Maria de Jesus, baiana de Ibicaraí, vive em São Paulo com renda familiar inferior a R$ 35 per capita

“No mundo parcimonioso que Josefa Maria de Jesus habita, há escassez até de nomes.
– Como se chama o seu pai?
– Meu pai? Lembro não.
– Mas você não o conheceu?
– Conheci sim. Só que o nome sempre me escapa… Se minha cabeça ajuda, creio que era Expedito.
Não era. Chamava-se Esperidião Alves de Sousa, como indica a carteira de identidade que Josefa tira do bolso. “O documento diz o nome certo, é?”, desculpa-se, explicando que não sabe ler.
– E seus três irmãos, Zefa, como se chamam?
– Também não me recordo. São todos homens. Brincávamos juntos, mas os nomes… difícil. O caçula atendia por Raimundo, estou quase certa. O mais velho talvez fosse Francisco. E o do meio, não há jeito de lembrar.
Por outro lado, no mundo sem equilíbrio de Josefa, sobram nomes: “Sou mãe de 11 boquinhas”. Ricardo tem hoje 30 anos. João Carlos, 20. Márcia, 19. Elaine, 17. Eduardo, 16. Paulo Rogério, 15. André, 14. Antonio Luiz, 13. Bruno, 11. Diogo, 9. Jeferson, 7.
Dos 11 filhos, nove vivem com a mãe, solteira, em uma casa de aproximadamente 50 m2, construída pela prefeitura no Itaim Paulista, zona leste de São Paulo.
Lá também mora Gabriel, de apenas cinco meses. Filho de Márcia, é o primeiro neto de Josefa. A família divide uma renda mensal que raramente ultrapassa os R$ 340 (menos de R$ 31 por cabeça).
Números, como as letras, atrapalham Josefa.
– Quantos anos você tem?
– Nasci em 15 de março de 1952. Tenho 48 anos.
Mostra de novo o documento. A data do aniversário confere.
– Não, Zefa. Se você nasceu em 1952, tem 46 anos.
– Mesmo? Nunca soube.
Retoma rapidamente o assunto dos nomes.
“O senhor veja que engraçado. Lembro bem o nome de minha mãe. Ela morreu um ano depois do meu nascimento. Não posso dizer que a conheci, mas sei como se chamava. Vai ver é porque, um dia, minha filha pegou meu documento, leu o nome da avó, comentou “que boniteza!’ e ficou repetindo: Claudemira, Claudemira.”

Homens

Josefa só esquece nomes masculinos. Nada tão espantoso para quem atravessou a vida rodeada de homens ausentes.
O pai, muito pobre, possuía um roçado de café em Ibicaraí, sul da Bahia, onde Zefa nasceu. Assim que enviuvou, distribuiu os filhos entre os parentes.
A menina ficou com a avó materna, Francisca, também viúva. “Meu pai aparecia pouco. Era alto, o cabelo crespo, a pele morena. Caladão, só respondia se a gente perguntasse. Do contrário, levava dias sem abrir a boca.”
Os irmãos se viam com mais frequência. “Certa vez, ganhei uma caixa muito grande de um deles. Abri a caixa e, dentro, tinha outra. Abri de novo, e encontrei mais uma, depois outra, e outra. Da última, pulou um sapo horrível, os olhões arregalados. Foi o único presente que meu irmão me deu.”
Quando Zefa fez 12 anos, a avó “fraquejou”, não aguentou cuidar da neta, e a entregou para “a tia Isidora”, outra viúva, mãe de oito filhos. Meses depois, a menina trocou Ibicaraí por Osasco (SP). Viajou de ônibus, dois dias, com a tia e os primos. Foram todos morar na casa de um parente.
Josefa não teve mais notícias do pai nem dos irmãos. “Perderam-se.” Também acabou se distanciando da tia quando, ainda com 12 anos, se tornou empregada doméstica em São Paulo e passou a dormir no emprego.
Vieram, então, os namorados. O primeiro, conheceu com 16 anos. Ele tinha 46. Era porteiro. O nome? “Não me lembro.”
A relação durou uns seis meses. Josefa decidiu terminá-la por julgar “o companheiro” velho demais. Do romance, nasceu Ricardo, mas o porteiro nunca soube.
O segundo, o terceiro, o quarto e o quinto filhos, sim, dispõem de um pai com nome e sobrenome: João Bosco. Cearense, trabalhava como vendedor ambulante. “Bebia muito, atrasava o aluguel e às vezes me dava uns trompaços. Para não viver em tumulto, peguei as crianças e o deixei. Tempos depois, me contaram que morreu.”
De um certo Nê (“nunca me disse o nome todo, mas sei que tomava conta de um barzinho”), teve o sexto filho. Namoraram por oito meses. “Quando contei que estava grávida, o cabra desapareceu.”
Os outros cinco filhos nasceram do relacionamento com o pedreiro Jonas. O casal morava em um barraco numa favela de Guaianases (zona leste de São Paulo).
“Foi o homem que mais me ajudou. Nunca suspendeu a mão contra mim. Só que a bebida estragou tudo.” Alcoólatra, Jonas começou a tossir muito e emagreceu.
“Pedi: procure o médico. Ele se negou. Um dia, nosso filho menor, bebezinho ainda, também desandou a tossir. No hospital, me disseram que tinha tuberculose. Logo desconfiei do Jonas. Chamei a polícia, que o levou à força para o posto de saúde. Não deu outra -estava tuberculoso. Quando vi, o Diogo, o Bruno, o André, o Antonio Luiz e o Paulo Rogério também pegaram a doença.”
Zefa se sentiu “tão agastada” que rompeu com Jonas. “Faz sete anos. Dali em diante, não tive homem nenhum. Chega.”
O pedreiro, às vezes, reaparece. Quer ver “as crianças”. “Eu permito. Ele se curou, e os meninos precisam de pai.” Mesmo que o pai esteja desempregado e não possa colocar dinheiro em casa.

Fome

Hoje quem sustenta a família são três filhos de Zefa. João Carlos trabalha como office-boy, “com carteira assinada”. A mãe não sabe exatamente quanto o rapaz ganha.
“Ele paga as contas de água e luz -o que dá uns R$ 90, porque o consumo aqui é alto.” O resto João reserva para gastos pessoais. Eduardo, também office-boy, “mas sem registro”, recebe R$ 130 por mês. Deixa metade com Josefa e embolsa o que sobra.
Nos fins-de-semana, Márcia distribui panfletos de lançamentos imobiliários. Seu rendimento mensal oscila entre R$ 120 e R$ 160. Repassa tudo para a mãe.
Josefa sempre “se virou” como empregada doméstica ou faxineira diarista. “Só que, desde maio, não encontro serviço fixo.”
Já fez “muito bico” -catou papelão, vigiou carros, vendeu pregadores, lixas de unha e rosas nas ruas. “Mas, agora, não compensa. Tem biscateiro em todo canto. Desisti. Estou cansada, meu corpo dói, e o dinheiro não entra.”
Também por causa do cansaço (“é um tormento, um mal-estar que insiste em crescer”), parou de recolher “a xepa” das feiras. “Costumava pegar tomate, verduras, batata, cebola e preparava um sopão.”
Resta à família fazer uma única refeição por dia -normalmente arroz e feijão. “Às vezes, sobram uns trocados para comprar a mistura: salsicha, carne moída, frango. Ou, então, os vizinhos nos dão farinha de milho, e cozinhamos um cuscuz.”
Pela manhã, cada filho come, no máximo, um pãozinho. Nem sempre tem manteiga ou café. Leite não falta, mas só para as crianças. “Outro dia, me ensinaram um truque. Pego açúcar, queimo um pouco e misturo no leite. Os meninos pensam que é chocolate.”
Como todos os filhos estudam, os que cursam o ciclo fundamental reforçam a dieta com a merenda escolar. “Se preciso, tiro do meu prato para colocar mais comida no das crianças. O senhor sabe que, quando a pessoa sente muita fome, a fome acaba morrendo? É assim: primeiro, dá um vazio aqui dentro e uma dorzinha no estômago; depois vem a zonzeira, e aí a fome morre.”

Comunista

Por enquanto, a família mora de graça. Vive no conjunto habitacional Boa Esperança desde 1995 e nunca pagou prestações. “Nem nós nem os vizinhos. A prefeitura, até agora, não cobrou nada. Se cobrar, estamos fritos.”
A casa de blocos tem um quarto, sala, cozinha e banheiro. Para abrigar todo mundo, Zefa improvisou uma espécie de sótão sobre a laje de concreto que separa a sala do telhado. O lugar, pouco arejado, funciona como um quarto extra, em que três camas disputam espaço com a caixa d’água.
Na casa, sem geladeira e com móveis muito velhos, o chão é de cimento, e um pano faz as vezes de cortina. Vinte e sete vasinhos enfeitam o ambiente escuro.
Josefa quase não sai. “Falta dinheiro para o ônibus.” Diverte-se assistindo à televisão que João Carlos comprou. Acompanha, vagamente, o horário eleitoral.
– Quem é o presidente da República?
– Não sei direito. É um tal de Henrique.
– E o Lula?
– É um que disputa sempre as eleições, mas não vence nunca. Perguntei para o Jonas: por que o Lula não ganha? Ele respondeu: porque é comunista. Agora o senhor me conte: o que quer dizer comunista?”

Autor: - Categoria(s): Comportamento, Jornalismo, sociedade Tags: , ,

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