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28/10/2008 - 05:50

“A nível de detestável”

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Fuçando no meu baú de textos, achei este aqui, de Sérgio Augusto de Andrade. Foi publicado na Bravo, em 2002, com o título “A nível de detestável”. Compartilho com os leitores:

“A nível de detestável

“Um estereótipo é pior que o câncer.

No século 19, os franceses transformaram o combate ao clichê num sistema e numa obsessão: Flaubert catalogou as frases feitas, Léon Bloy os lugares-comuns; Rémy de Gourmont e Marcel Schwob tentaram descobrir seu antídoto; Villiers de L’Isle-Adam imortalizou os vícios do jargão com seu Tribulat Bonhomet e Henri Monnier com seu memorável Joseph Prudhomme. Por toda a França, atacar o senso comum era o dever de honra de todo intelectual: o estereótipo passava a representar simbolicamente o triunfo detestável do mundo burguês. Quase 100 anos depois, essa fascinação nacional continuava viva nas páginas sempre superestimadas de Roland Barthes e sua descrição do estereótipo como a figura máxima da ideologia – descrição cujo estilo lembrava perigosamente, muitas vezes, o próprio estilo dos clichês que criticava. É explicável: o estereótipo é sempre uma armadilha.

O curioso em sua história é que tudo que soava anteriormente patrimônio exclusivo da burguesia acabou se transferindo, com menos turbulência que se esperava, para o vocabulário supostamente mais moderno da crítica. Hoje, não se distingue mais nada: todo mundo é viciado em clichês. Quem governa o mundo não é nem o amor nem o poder; é o Conselheiro Acácio.

O estereótipo representa um estágio muito específico na linguagem – um estágio cuja altura a gíria nunca alcança e o provérbio sempre ultrapassa. Bem ou mal, a gíria sempre ostenta uma vitalidade essencial que a torna impermeável à cristalização; todo provérbio, ao contrário, já parece nascer cristalizado: suas imagens são como o esqueleto de certos peixes, gravado para sempre na pedra. O estereótipo só sobrevive no limbo.

Quando H. L. Mencken identificou a fonte de todo lugar-comum no medo do desconhecido, devia ter levado até o fim sua analogia implícita com a idéia clássica do medo do desconhecido como fonte também de toda religião. Se o mesmo medo pode criar os deuses e os clichês, a verdadeira raiz da inteligência só pode ser a heresia.

Enumerar nossos estereótipos mais comuns, por isso, deveria ser um hábito tão freqüente quanto ir ao médico – na verdade, controlar a proliferação de cada clichê é um problema de saúde pública.

Afinal, muito mais que a natureza, nossa linguagem tem se deteriorado com espantosa rapidez: deveria existir outra espécie de ecologia que pudesse aguçar nossa atenção com a crítica das palavras e moderar um pouco os excessos de nossos clichês.

Como não existe, todo estereótipo continua se proliferando como uma praga resistente e se mantendo vivo como um vírus teimoso. Os exemplos são infinitos; 25 já são clássicos. As pessoas falam tanto.

1.“Orgânico” – Muita gente se esforça muito tentando imaginar um mundo sem injustiças; eu sempre me esforcei muito tentando imaginar um crítico de artes plásticas que não se deslumbrasse diante de uma forma “orgânica”. Aplicável a conchas, dunas, desenhos de crianças e Mira Schendel.

2. “Compor” – Embora sempre soe tecnicamente refinado falar em “compor” personagens, nenhuma pessoa séria leva a expressão a sério. Nenhuma pessoa despreocupada leva a expressão a sério. Um dia perguntaram a Jack Palance como ele havia “composto” o personagem de Fidel Castro no filme Che. “Com um charuto”, ele respondeu.

3. “Exercer a cidadania” – Um furor unânime: todo mundo, de repente, resolveu exercer sua cidadania. Quem assiste à TV adora exercer sua cidadania enquanto telespectador; quem sai para viajar adora exercer sua cidadania enquanto turista; quem freqüenta fast-food adora exercer sua cidadania enquanto consumidor. Sempre com muita consciência.

4. “Vou dar um retorno” – É evidente que ninguém vai dar nada nem retornar de lugar nenhum. Perguntar, no entanto, “retorno de onde?” é responder a um clichê com outro.

5. “Style” – Aportuguesado ou não, é sempre de uma vulgaridade imbatível. Aplica-se em geral a pessoas, vozes e adereços.

6. “Transparência” – Todo mundo exige, todo mundo pede, todo mundo reclama, todo mundo se orgulha de possuir. Ninguém percebe que é uma qualidade para vidraceiros e que seu uso já passou, há muito tempo, dos limites.

7. “Quem deseja?” – É claro também que alguém sempre pode redirecionar o eixo da pergunta respondendo “eu desejo a Britney Spears” – ou, de forma razoavelmente mais elaborada, comentar que todo homem sempre representa um inconsciente formado pelo desejo. As duas respostas já se tornaram um lugar-comum tão previsível quanto a insólita concisão da pergunta.

8. “Com certeza” – Um clássico de aceitação absoluta. Quer dizer “sim”.

9. “Estressado” – Todo mundo está. Qualquer motivo vale: reclamar de qualquer tipo de stress dá sempre a impressão de uma vida interior mais rica.

10. “Sensível” – Uma interpretação aceitável é sempre “sensível”; uma música bem escrita é sempre “sensível”; fotos em preto-e-branco de movimentos rurais, favelas, rebeliões, rostos suados, manifestações públicas ou crianças com fome são sempre sensíveis. O odioso cinema iraniano, um caso extremo de sensibilidade.

11. “Textura” – Não importa do que for, é sempre “sutil”.

12. “Energia” – Só quem acredita mesmo que deva existir uma energia positiva ou uma energia negativa que influencie qualquer decisão pode se dispor a perder o tempo repetindo uma idéia que deveria ser reservada às valorosas companhias metropolitanas que distribuem luz.

13. “A nível de” – Um exemplo cuja mera menção já deveria ser proibitiva.

14. “Deus? Não, eu acredito numa força superior” – A fórmula preferida de todos que querem parecer profundos e não se importam em soarem rasos. A única força superior em que deveriam acreditar deveria ser um segundo grau bem-feito.

15. “Surtar” – Um verbo cuja espantosa popularidade é efeito exclusivo da mania universal que leva todos a posarem de esgotados. Sua conjugação deveria se limitar a casos clínicos.

16. “Muito humano” – A maneira mais comum pela qual toda mula costuma se definir.

17. “Reler” – Pai do atual “repaginar”. Todo mundo, cedo ou tarde, sempre faz a “releitura” de algum filme, alguma ópera, alguma peça. Todo mundo sempre “repagina” algum bar.

18. “Perverso” – O jogo financeiro das grandes potências.

19. “Beleza interior” – Valorizar. Uma carta eternamente na manga de toda pessoa que desconfia um pouco de sua beleza exterior.

20. “Clean” – Um hit entre diretores de arte, decoradores de interior e lavanderias.

21. “Interessante” – Adjetivo que, por não significar absolutamente nada, é sempre usado por quem quer sugerir absolutamente tudo.

22. “Coisa de pele” – Versão epidérmica, em recorrência trivial, de qualquer metáfora envolvendo tudo que for “sensível”. Mais para coisa que para pele.

23. “Pois é, no final tudo acaba em pizza” – Fórmula cuja repetição é obrigatória para todos os que se julgam céticos, sarcásticos, experientes e que, em sua perpétua repetição, acreditam estarem assumindo a onisciência visionária de um Keynes combinada à mais inventiva ironia. É uma ironia que pode duvidar de muita coisa – menos do lugar-comum. Quase pior que “a nível de”.

24. “Preciso de uma posição” – Geralmente proferido com a urgência ameaçadora de um general organizando manobras no deserto, deveria ser exclusividade de quem estivesse conferindo na prática as sugestões físicas de um clássico da literatura hindu muito cultuado no Dia dos Namorados.

25. “Administrar” – Aparentemente pretendendo combinar Suzana Flag e a Fundação Getúlio Vargas, muita gente decidiu ser importante “administrar” sentimentos, situações ou o tempo. Uso especialmente freqüente em discussões entre casais.

Talvez existam casos em que a censura, mais que admitida, deveria ser obrigatória: é mais humano tolerar genocídios que estereótipos. Não existe vida intelectual possível sob o peso de tantos clichês. Bem mais que as baleias, deveríamos tentar salvar antes de tudo nossas palavras.”

Para ilustrar o post, trabalho do artista Carsten Holler.

Autor: - Categoria(s): cultura Tags:
26/09/2008 - 06:29

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Circular: “Quando se cogitar de uma antropologia minuciosa das reações masculinas, o acaso de alguns encontros provavelmente passará a merecer a mesma atenção que certos botanistas dedicam ao cruzamento de determinadas orquídeas. Afinal, sob circunstâncias específicas, admirar por momentos alguém pode nos confirmar como nem sempre a beleza é um conforto — na maioria das vezes, sua revelação tem a força de um escândalo ou um choque. Certas presenças são como um buquê; a leveza de seu perfume transforma o que parecia uma simples oportunidade nas leis secretas de um destino. A experiência pode ser perturbadora; há vários motivos que determinam o sabor desse efeito.

A história é longa, me obriga a certa digressão e começa com Baudelaire. Um dos sonetos mais famosos de seu livro de poemas descreve seu encontro com uma desconhecida, vislumbrada por acaso entre a multidão, numa rua de Paris. Seu título, A uma Passante, é, ao mesmo tempo, uma definição e uma dedicatória, ambas discretamente desencantadas. Quando Baudelaire a descobriu, alta, magra, intangível, o rosto encoberto por um véu escuro como uma rainha de luto, ‘majestosa na dor’ e com suas ‘pernas de estátua’, é bem possível que tenha se convencido, mais uma vez, como todo paraíso é mesmo sempre artificial. A menos, talvez, quando seus artifícios sejam os da poesia: nada, no fundo, é tão pouco nosso quanto nossos sentimentos — especialmente os mais íntimos. Tudo o que sentimos nos vem da história, não do coração. São sentimentos raramente fáceis: bons poetas, para nossa sorte, os revelam; grandes poetas os inventam. Os primeiros nos surpreendem; os segundos nos transformam. Baudelaire era um grande poeta e, provavelmente sem saber, tinha acabado de inventar um estilo de patologia que, com o tempo, ganharia os contornos de uma tradição: hoje, para nós, um rosto desconhecido pode ser uma paisagem, uma promessa ou um trauma. As conseqüências desse encontro frustrado determinaram definitivamente o código de nossas paixões; estamos sempre muito próximos de Baudelaire e do século 19 que de Marilyn Manson e Abbas Kiarostami.” (Sérgio Augusto de Andrade)

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Circular: “Quando se cogitar de uma antropologia minuciosa das reações masculinas, o acaso de alguns encontros provavelmente passará a merecer a mesma atenção que certos botanistas dedicam ao cruzamento de determinadas orquídeas. Afinal, sob circunstâncias específicas, admirar por momentos alguém pode nos confirmar como nem sempre a beleza é um conforto — na maioria das vezes, sua revelação tem a força de um escândalo ou um choque. Certas presenças são como um buquê; a leveza de seu perfume transforma o que parecia uma simples oportunidade nas leis secretas de um destino. A experiência pode ser perturbadora; há vários motivos que determinam o sabor desse efeito.

A história é longa, me obriga a certa digressão e começa com Baudelaire. Um dos sonetos mais famosos de seu livro de poemas descreve seu encontro com uma desconhecida, vislumbrada por acaso entre a multidão, numa rua de Paris. Seu título, A uma Passante, é, ao mesmo tempo, uma definição e uma dedicatória, ambas discretamente desencantadas. Quando Baudelaire a descobriu, alta, magra, intangível, o rosto encoberto por um véu escuro como uma rainha de luto, ‘majestosa na dor’ e com suas ‘pernas de estátua’, é bem possível que tenha se convencido, mais uma vez, como todo paraíso é mesmo sempre artificial. A menos, talvez, quando seus artifícios sejam os da poesia: nada, no fundo, é tão pouco nosso quanto nossos sentimentos — especialmente os mais íntimos. Tudo o que sentimos nos vem da história, não do coração. São sentimentos raramente fáceis: bons poetas, para nossa sorte, os revelam; grandes poetas os inventam. Os primeiros nos surpreendem; os segundos nos transformam. Baudelaire era um grande poeta e, provavelmente sem saber, tinha acabado de inventar um estilo de patologia que, com o tempo, ganharia os contornos de uma tradição: hoje, para nós, um rosto desconhecido pode ser uma paisagem, uma promessa ou um trauma. As conseqüências desse encontro frustrado determinaram definitivamente o código de nossas paixões; estamos sempre muito próximos de Baudelaire e do século 19 que de Marilyn Manson e Abbas Kiarostami.” (Sérgio Augusto de Andrade)

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Circular: “Quando se cogitar de uma antropologia minuciosa das reações masculinas, o acaso de alguns encontros provavelmente passará a merecer a mesma atenção que certos botanistas dedicam ao cruzamento de determinadas orquídeas. Afinal, sob circunstâncias específicas, admirar por momentos alguém pode nos confirmar como nem sempre a beleza é um conforto — na maioria das vezes, sua revelação tem a força de um escândalo ou um choque. Certas presenças são como um buquê; a leveza de seu perfume transforma o que parecia uma simples oportunidade nas leis secretas de um destino. A experiência pode ser perturbadora; há vários motivos que determinam o sabor desse efeito.

A história é longa, me obriga a certa digressão e começa com Baudelaire. Um dos sonetos mais famosos de seu livro de poemas descreve seu encontro com uma desconhecida, vislumbrada por acaso entre a multidão, numa rua de Paris. Seu título, A uma Passante, é, ao mesmo tempo, uma definição e uma dedicatória, ambas discretamente desencantadas. Quando Baudelaire a descobriu, alta, magra, intangível, o rosto encoberto por um véu escuro como uma rainha de luto, ‘majestosa na dor’ e com suas ‘pernas de estátua’, é bem possível que tenha se convencido, mais uma vez, como todo paraíso é mesmo sempre artificial. A menos, talvez, quando seus artifícios sejam os da poesia: nada, no fundo, é tão pouco nosso quanto nossos sentimentos — especialmente os mais íntimos. Tudo o que sentimos nos vem da história, não do coração. São sentimentos raramente fáceis: bons poetas, para nossa sorte, os revelam; grandes poetas os inventam. Os primeiros nos surpreendem; os segundos nos transformam. Baudelaire era um grande poeta e, provavelmente sem saber, tinha acabado de inventar um estilo de patologia que, com o tempo, ganharia os contornos de uma tradição: hoje, para nós, um rosto desconhecido pode ser uma paisagem, uma promessa ou um trauma. As conseqüências desse encontro frustrado determinaram definitivamente o código de nossas paixões; estamos sempre muito próximos de Baudelaire e do século 19 que de Marilyn Manson e Abbas Kiarostami.” (Sérgio Augusto de Andrade)

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12/08/2008 - 06:12

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Circular: “Entre o número considerável de qualidades que nos distinguem do resto do mundo, tudo no Brasil é sexy: temos uma tradição única na beleza.

O desprendimento de nosso andar é sexy. Nossa pele escura é sexy. As curvas de nossa arquitetura e de nosso corpo são sexy. Nossas cidades: sexy. Tudo que nos reveste – o pano-da-costa, o linho alvo, a saia de cores vivas –; tudo é sexy. Nossa língua é sexy: nos Pedros que viram Pepês; nas Manuelas que viram Manus, nos Antonios que viram Toms; nos Zecas, nas Dedés, nas Tetês; na suculenta herança africana do cafuné, do mulambo, da canga ou do quindim; nos nomes de frutas, de rios, de estrelas, de árvores: o marmelo, o Subaé, as Três Marias, o jatobá. Nossa bandeira – um escândalo sexy. Nosso sorriso, nosso transe, nosso gesto: que cultura, em qualquer um dos mundos, pode se orgulhar de um vigor sempre tão feliz? É tudo tão sexy no Brasil.

Nossa arte soube responder a esse impulso inquieto com a intensidade que todo impulso fundador merece – seja no cinema, no teatro ou em nossa poesia, nossos sonhos são sempre sexy: nossa vocação é a doçura.

Mas nenhuma arte soube exprimir melhor tudo o que temos de sexy quanto nossa música. A música popular do Brasil é a voz instintiva do nosso desejo. (…) O que é mais sexy, afinal, que João Gilberto? Ou, naturalmente, que Dorival Caymmi – para quem a própria definição de sexy parece ter regularmente que prestar contas? Sempre preocupado com as relações entre a cultura e o corpo, Nietzsche escreveu, sem saber, boa parte de sua obra elogiando o Brasil enquanto pensava estar comentando Bizet: o Brasil foi o único país do mundo a incorporar e irradiar com uma vitalidade sempre renovada todas as lições do que Euclides da Cunha descreveu como ‘a linha fulgurante do trópico’ – e essa lição nos veio embalada pela música. Toda nossa antropologia, por isso, deveria começar com um atabaque e terminar com um banquinho e um violão.” (Sérgio Augusto de Andrade em “A cultura sexy do Brasil”).

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Circular: “Entre o número considerável de qualidades que nos distinguem do resto do mundo, tudo no Brasil é sexy: temos uma tradição única na beleza.

O desprendimento de nosso andar é sexy. Nossa pele escura é sexy. As curvas de nossa arquitetura e de nosso corpo são sexy. Nossas cidades: sexy. Tudo que nos reveste – o pano-da-costa, o linho alvo, a saia de cores vivas –; tudo é sexy. Nossa língua é sexy: nos Pedros que viram Pepês; nas Manuelas que viram Manus, nos Antonios que viram Toms; nos Zecas, nas Dedés, nas Tetês; na suculenta herança africana do cafuné, do mulambo, da canga ou do quindim; nos nomes de frutas, de rios, de estrelas, de árvores: o marmelo, o Subaé, as Três Marias, o jatobá. Nossa bandeira – um escândalo sexy. Nosso sorriso, nosso transe, nosso gesto: que cultura, em qualquer um dos mundos, pode se orgulhar de um vigor sempre tão feliz? É tudo tão sexy no Brasil.

Nossa arte soube responder a esse impulso inquieto com a intensidade que todo impulso fundador merece – seja no cinema, no teatro ou em nossa poesia, nossos sonhos são sempre sexy: nossa vocação é a doçura.

Mas nenhuma arte soube exprimir melhor tudo o que temos de sexy quanto nossa música. A música popular do Brasil é a voz instintiva do nosso desejo. (…) O que é mais sexy, afinal, que João Gilberto? Ou, naturalmente, que Dorival Caymmi – para quem a própria definição de sexy parece ter regularmente que prestar contas? Sempre preocupado com as relações entre a cultura e o corpo, Nietzsche escreveu, sem saber, boa parte de sua obra elogiando o Brasil enquanto pensava estar comentando Bizet: o Brasil foi o único país do mundo a incorporar e irradiar com uma vitalidade sempre renovada todas as lições do que Euclides da Cunha descreveu como ‘a linha fulgurante do trópico’ – e essa lição nos veio embalada pela música. Toda nossa antropologia, por isso, deveria começar com um atabaque e terminar com um banquinho e um violão.” (Sérgio Augusto de Andrade em “A cultura sexy do Brasil”).

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O desprendimento de nosso andar é sexy. Nossa pele escura é sexy. As curvas de nossa arquitetura e de nosso corpo são sexy. Nossas cidades: sexy. Tudo que nos reveste – o pano-da-costa, o linho alvo, a saia de cores vivas –; tudo é sexy. Nossa língua é sexy: nos Pedros que viram Pepês; nas Manuelas que viram Manus, nos Antonios que viram Toms; nos Zecas, nas Dedés, nas Tetês; na suculenta herança africana do cafuné, do mulambo, da canga ou do quindim; nos nomes de frutas, de rios, de estrelas, de árvores: o marmelo, o Subaé, as Três Marias, o jatobá. Nossa bandeira – um escândalo sexy. Nosso sorriso, nosso transe, nosso gesto: que cultura, em qualquer um dos mundos, pode se orgulhar de um vigor sempre tão feliz? É tudo tão sexy no Brasil.

Nossa arte soube responder a esse impulso inquieto com a intensidade que todo impulso fundador merece – seja no cinema, no teatro ou em nossa poesia, nossos sonhos são sempre sexy: nossa vocação é a doçura.

Mas nenhuma arte soube exprimir melhor tudo o que temos de sexy quanto nossa música. A música popular do Brasil é a voz instintiva do nosso desejo. (…) O que é mais sexy, afinal, que João Gilberto? Ou, naturalmente, que Dorival Caymmi – para quem a própria definição de sexy parece ter regularmente que prestar contas? Sempre preocupado com as relações entre a cultura e o corpo, Nietzsche escreveu, sem saber, boa parte de sua obra elogiando o Brasil enquanto pensava estar comentando Bizet: o Brasil foi o único país do mundo a incorporar e irradiar com uma vitalidade sempre renovada todas as lições do que Euclides da Cunha descreveu como ‘a linha fulgurante do trópico’ – e essa lição nos veio embalada pela música. Toda nossa antropologia, por isso, deveria começar com um atabaque e terminar com um banquinho e um violão.” (Sérgio Augusto de Andrade em “A cultura sexy do Brasil”).

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Circular: “Iludido por um tipo de fetichismo — o fetichismo da informação — que costuma ser tão hipnótico quanto aquele que certos românticos costumam alimentar por saltos altos, todo jornal parece acreditar não só que seu primeiro dever é informar mas também que a informação está sempre ligada ao que é novo, imediato, e que se renova. É uma convicção atordoante — cujo único, dúbio mérito é reduzir o mundo a um alucinado gerador de ruído.

Meu jornal ideal — seja na mídia, como se diz hoje em dia, que for — é diferente. Meu sonho seria receber diariamente algum jornal que, esgotado e vencido pela marcha das notícias, decidisse repetir e se concentrar sobre um fato único, de preferência escolhido ao acaso (ninguém nunca sabe, afinal, o que é realmente importante). Dia após dia, alguma luz nova e discreta seria jogada mais uma vez sobre o mesmo fato — descrito e redescrito alternadamente por cartógrafos, sociólogos, matemáticos, críticos de literatura, geógrafos, músicos, teólogos, médicos, filólogos, arquitetos, químicos, historiadores e, quem sabe, até jornalistas. Não se precisa de mais que um único fato para se conseguir uma cobertura virtualmente eterna. E já que os acontecimentos entediam, é possível que um único acontecimento, elevado à categoria de uma obsessão planetária, acabe excitando. Multiplicar o novo pode ser uma ação em último caso vazia e, além disso, um pouco inútil — nada provavelmente é tão estimulante quanto repetir o mesmo.” (Sérgio Augusto de Andrade, em “A chatice das notícias”).

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Circular: “Iludido por um tipo de fetichismo — o fetichismo da informação — que costuma ser tão hipnótico quanto aquele que certos românticos costumam alimentar por saltos altos, todo jornal parece acreditar não só que seu primeiro dever é informar mas também que a informação está sempre ligada ao que é novo, imediato, e que se renova. É uma convicção atordoante — cujo único, dúbio mérito é reduzir o mundo a um alucinado gerador de ruído.

Meu jornal ideal — seja na mídia, como se diz hoje em dia, que for — é diferente. Meu sonho seria receber diariamente algum jornal que, esgotado e vencido pela marcha das notícias, decidisse repetir e se concentrar sobre um fato único, de preferência escolhido ao acaso (ninguém nunca sabe, afinal, o que é realmente importante). Dia após dia, alguma luz nova e discreta seria jogada mais uma vez sobre o mesmo fato — descrito e redescrito alternadamente por cartógrafos, sociólogos, matemáticos, críticos de literatura, geógrafos, músicos, teólogos, médicos, filólogos, arquitetos, químicos, historiadores e, quem sabe, até jornalistas. Não se precisa de mais que um único fato para se conseguir uma cobertura virtualmente eterna. E já que os acontecimentos entediam, é possível que um único acontecimento, elevado à categoria de uma obsessão planetária, acabe excitando. Multiplicar o novo pode ser uma ação em último caso vazia e, além disso, um pouco inútil — nada provavelmente é tão estimulante quanto repetir o mesmo.” (Sérgio Augusto de Andrade, em “A chatice das notícias”).

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Meu jornal ideal — seja na mídia, como se diz hoje em dia, que for — é diferente. Meu sonho seria receber diariamente algum jornal que, esgotado e vencido pela marcha das notícias, decidisse repetir e se concentrar sobre um fato único, de preferência escolhido ao acaso (ninguém nunca sabe, afinal, o que é realmente importante). Dia após dia, alguma luz nova e discreta seria jogada mais uma vez sobre o mesmo fato — descrito e redescrito alternadamente por cartógrafos, sociólogos, matemáticos, críticos de literatura, geógrafos, músicos, teólogos, médicos, filólogos, arquitetos, químicos, historiadores e, quem sabe, até jornalistas. Não se precisa de mais que um único fato para se conseguir uma cobertura virtualmente eterna. E já que os acontecimentos entediam, é possível que um único acontecimento, elevado à categoria de uma obsessão planetária, acabe excitando. Multiplicar o novo pode ser uma ação em último caso vazia e, além disso, um pouco inútil — nada provavelmente é tão estimulante quanto repetir o mesmo.” (Sérgio Augusto de Andrade, em “A chatice das notícias”).

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