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12/11/2008 - 05:15

“Filosofando sobre o dinheiro”

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Circular: “Imagine que você, leitor, desembarcasse na Grécia de 30 séculos atrás e dissesse ao primeiro transeunte que encontrasse: ‘Meu caro, todos os deuses que você teme, cultua e segue não passam de fantasia, nada disso existe, é tudo piração da sua cabeça’. Nem é preciso muita imaginação para supor que a resposta poderia ser, no mínimo, um xingamento. Pois bem, agora suponha a situação contrária. Hoje mesmo, um grego antigo, sob inspiração de seus velhos deuses, aparece diante de você e lhe diz: ‘Pare de se preocupar com dinheiro, não se estresse com contas e multas, tudo isso não passa de uma alucinação coletiva dos homens de sua época’. Como você reagiria?

A comparação serve para mostrar a sensação que nos traz a leitura de Dinheiro — Sanidade ou Loucura?, essa excelente (e sobretudo surpreendente) obra do venezuelano Axel Capriles. Em um conjunto de dez artigos, ele nos faz ver de fora, do modo como um antigo grego veria, o grande mito de nossa época: o dinheiro, com o qual estamos envolvidos até o último fio de cabelo. É uma bofetada, mas das boas. Uma bofetada de lucidez.

A obra de Capriles vem em boa hora. Além das refinadas pensatas de fundo, atemporais, tricotadas por um autor que revela pendor interdisciplinar, o livro traz abordagens diretas que parecem feitas por encomenda para as venezuelas e brasis desses tempos de propinas e trambiques, em que os homens públicos movem-se à sombra dos cifrões. A palavra sombra, aqui, tem um peso especial. Embora o autor seja um homem familiarizado com o mundo dos negócios, é também professor de psicologia e analista formado no Instituto C. G. Jung de Zurique. Na teoria junguiana, vale lembrar, a sombra é o lado oculto de cada um de nós. Pode abrigar elementos incômodos — que são também os nutrientes essenciais da nossa vida interior.

É daí que ele parte. Capriles faz conexões engenhosas entre o psiquismo individual e o substrato cultural dos povos contemporâneos, atribuindo ao dinheiro um status muito maior do que ele tem na esfera econômica e nas relações sociais. Projeta-o no mundo dos afetos. O dinheiro seria, segundo o autor, o tema central da nossa existência, determinando nosso comportamento, ainda que de maneira dissimulada. Capriles não fala como um economista, o que é ótimo, mas seu conhecimento de economia o torna convincente quando faz ilações ousadas, que poderiam parecer disparates se ele fosse apenas um psicólogo.

‘Diferentemente das sociedades onde o ascetismo mundano da ética protestante acrescentou um conteúdo espiritual ao dinheiro, legalizando o impulso possessivo e aquisitivo sob a filosofia aceita da cobiça, nos latino-americanos o conflito ainda permanece ativo’, escreve ele. Com isso, o autor explica por que os povos do Sul tornaram-se tão diferentes dos do Norte. Estes teriam mais competência ou mais ‘leveza’, digamos assim, para ganhar dinheiro por não sentir a culpa que sentimos no trato do vil metal. Isso nos faria mais instáveis — ganhamos e perdemos, mas não acumulamos, não temos as manhas do capitalismo. Temos pruridos, isso sim. No fundo, sabemos que o dinheiro é uma danação, ainda que o busquemos de modo alucinado. A tese é boa, e está muito bem exposta. Se é verdadeira ou não, bem, aí já são outros quinhentos.

Outro tema que o autor explora de modo brilhante é a volatilidade do dinheiro no mundo atual. O assunto, por certo, não é novo. Fala-se disso a toda hora. Acontece que Capriles expõe esse tema com riqueza de detalhes. Ele relembra, por exemplo, o espanto dos europeus quando ficaram sabendo por Marco Polo, no século 14, que os chineses usavam papel-moeda em vez de moedas de metal. Nessa hora, nossos antepassados tomavam consciência da ilusão monetária — ou seja, do fato de que o dinheiro, que parece ser tudo, no fim das contas não é absolutamente nada. Ou é algo tão banal que pode ser representado por cédulas feitas de trapos velhos. O que dizer, então, prezado leitor, de um clique de mouse que hoje é capaz de mover enormes investimentos de um continente a outro, causando delírios e devastações como os antigos deuses?”

(Renato Modernell, “Filosofando sobre o dinheiro”, do meu baú de textos).

Autor: - Categoria(s): cultura, Livros Tags: ,
21/10/2008 - 07:23

Modernell e a “notícia como fábula”

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Para jornalistas, estudantes de jornalismo e curiosos em geral, recomendo o texto “A Notícia como Fábula — O entrelaçamento da ficção com a realidade no jornalismo” (arquivo em PDF). É a dissertação de mestrado defendida pelo jornalista e escritor Renato Modernell na ECA-USP. “O foco dirige-se ao âmbito jornalístico, com base na análise de textos publicados em diferentes veículos. Parte da hipótese de que aquilo que consideramos ‘fato’ e ‘imaginação’ tem limites mais tênues e permeáveis do que comumente se supõe”, escreveu Modernell. Além de ser um tema muito interessante, o autor é craque na arte de escrever, o que torna a leitura muito prazerosa. Abaixo, um trecho curto:

“(…)Dizemos ‘dia’ e ‘noite’ como se houvesse interruptores binários nas posições ‘ligado e ‘desligado’. Lá fora de nossas janelas, entretanto, essas fases se misturam. Sabemos que, entre o dia e a noite, há momentos transitórios e peculiares, embora atentemos a eles bem menos que nossos ancestrais. Em geral, durante os crespúsculos matutino e vespertino, estamos imersos em sonhos ou hipnotizados diante da tela do computador, onde palavras e imagens deslizam sob luminosidade constante.

O jornalista, como o condutor de metrô, está entre os trabalhadores mais expostos a esse embotamento dos sentidos. Atrelado a horários, ao cipoal dos fluxos, às pressões e cobranças da selva corporativa, ele vê sua atividade atingir a tensão máxima justamente no momento do entardecer –- quando seu bisavô camponês costumava largar a enxada e fazer o escalda-pés, ciente de que era hora de descarregar as baterias. Não é de estranhar, portanto, que o texto produzido nessas condições seja desprovido dos matizes próprios do lusco-fusco. Realidade e ficção, para o homem que atua na imprensa convencional, tendem a ser categorias independentes, com fronteira fixa, como se o dia e a noite não tivessem passagens gradativas, mas mudanças bruscas, à semelhança das luzes fluorescentes do castelo.

Demonstraremos que, lá fora da redação, as coisas não são bem assim. Grande parte dos fenômenos transcorre sob uma luz crepuscular, que não sabemos bem de onde vem – e no entanto pode ser mais reveladora (ou instigante) do que aquela do mundo das certezas. Investigaremos, no plano das frases e do discurso, como o fato pode engendrar a ficção, e vice-versa, conforme sugere o signo taoísta. O foco deste trabalho são os mecanismos que inserem fibras ficcionais ao material editorial vendido nas bancas à guisa de textos noticiosos. (…)”

Autor: - Categoria(s): Jornalismo Tags: ,
29/09/2008 - 06:02

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Circular: “Às vezes vejo na rua, aos domingos, uns ciclistas cheios de aparatos de cores berrantes, novinhos em folha, mas não boto muita fé no desempenho deles no trato do essencial, que são os pedais e o guidom. Penso: ‘Esse parece que comprou a roupa antes da bicicleta’. A mesma sensação me ocorre, não raro, na convivência com jornalistas que dão demasiado valor a aspectos tecnológicos, seja no próprio equipamento de trabalho, seja na leitura da realidade externa que irão reproduzir com palavras. Penso: ‘Esse parece que comprou um peixe e precisa passar adiante rápido, antes que descongele’. Ou muito me engano ou é justo aquilo que Cremilda Medina chama de ‘acelerar a assepsia racionalista das fórmulas de comunicação’. Na Copa de 98, a única que cobri na vida, propiciou-me uma visão um pouco assustadora sobre o mundo em que vivemos: quanta gente, quanto dinheiro, quanta tecnologia mobilizadas na caça da obviedade. Porque o óbvio é também efêmero, o que de certo modo o redime, embora sem nos fazer felizes.” (Renato Modernell, “Observações com base no texto ‘Informação e cidadania’, de Cremilda Medina“).

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29/09/2008 - 06:02

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Circular: “Às vezes vejo na rua, aos domingos, uns ciclistas cheios de aparatos de cores berrantes, novinhos em folha, mas não boto muita fé no desempenho deles no trato do essencial, que são os pedais e o guidom. Penso: ‘Esse parece que comprou a roupa antes da bicicleta’. A mesma sensação me ocorre, não raro, na convivência com jornalistas que dão demasiado valor a aspectos tecnológicos, seja no próprio equipamento de trabalho, seja na leitura da realidade externa que irão reproduzir com palavras. Penso: ‘Esse parece que comprou um peixe e precisa passar adiante rápido, antes que descongele’. Ou muito me engano ou é justo aquilo que Cremilda Medina chama de ‘acelerar a assepsia racionalista das fórmulas de comunicação’. Na Copa de 98, a única que cobri na vida, propiciou-me uma visão um pouco assustadora sobre o mundo em que vivemos: quanta gente, quanto dinheiro, quanta tecnologia mobilizadas na caça da obviedade. Porque o óbvio é também efêmero, o que de certo modo o redime, embora sem nos fazer felizes.” (Renato Modernell, “Observações com base no texto ‘Informação e cidadania’, de Cremilda Medina“).

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04/09/2008 - 06:13

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Circular: “(…) ‘Todo mundo procura, e eu encontro’, disse Picasso. Pois eu acho que os repórteres jovens deviam ser preparados e incentivados a encontrar, sem necessariamente procurar. Desse modo, estariam muito mais perto de captar ‘acontecências’, em vez de encher o balaio de acontecimentos, que mais servem para alimentar a grande gincana do que para levar algo genuinamente novo a seus leitores.

Todos sabemos que as redações utilizam os conceitos de ‘quente’ e ‘frio’ para classificar os assuntos e as pautas. ‘Quente’ é aquilo que amanhã será frio; portanto, deve ser publicado hoje. ‘Frio’ é aquilo que pode ficar na gaveta, protegido por certa atemporalidade, aguardando o momento em que não houver nada ‘quente’ para disputar o espaço.

Temos aí um puro e simples critério de oportunidade, que sempre me pareceu tosco e insuficiente. As pautas e matérias deveriam ser classificadas em ‘quentes’ e ‘frias’ não apenas por um critério de atualidade, mas também de criatividade.

Por que isso não acontece na imprensa? Ora, a resposta é simples: por acomodação e medo. Assim como o repórter abdica da inovação por temer que, caso falhe, possa ser vencido pelo colega mais medíocre que traz o feijão-com-arroz garantido, assim também a empresa jornalística tem os seus receios, talvez ainda maiores, em relação à concorrência. Assim, permite (na verdade, até exige) que seus funcionários mudem o recheio do bolo, mas jamais a receita, de modo que a base permaneça a mesma. A Pepsi-Cola não pode ser igual à Coca-Cola, mas também não pode ser muito diferente; deve haver entre elas apenas uma moldura fina, reconhecível, marquetável, mas não tão larga a ponto de colocar em risco a idéia de que ambas, juntas, fazem parte de um ‘sistema de refrigerância’ que deve continuar absolutamente necessário para o freguês, assim como o Estadão e a Folha, O Globo e o JB. (…)” (Renato Modernell, “Sobre a acontecência”)

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04/09/2008 - 06:13

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Circular: “(…) ‘Todo mundo procura, e eu encontro’, disse Picasso. Pois eu acho que os repórteres jovens deviam ser preparados e incentivados a encontrar, sem necessariamente procurar. Desse modo, estariam muito mais perto de captar ‘acontecências’, em vez de encher o balaio de acontecimentos, que mais servem para alimentar a grande gincana do que para levar algo genuinamente novo a seus leitores.

Todos sabemos que as redações utilizam os conceitos de ‘quente’ e ‘frio’ para classificar os assuntos e as pautas. ‘Quente’ é aquilo que amanhã será frio; portanto, deve ser publicado hoje. ‘Frio’ é aquilo que pode ficar na gaveta, protegido por certa atemporalidade, aguardando o momento em que não houver nada ‘quente’ para disputar o espaço.

Temos aí um puro e simples critério de oportunidade, que sempre me pareceu tosco e insuficiente. As pautas e matérias deveriam ser classificadas em ‘quentes’ e ‘frias’ não apenas por um critério de atualidade, mas também de criatividade.

Por que isso não acontece na imprensa? Ora, a resposta é simples: por acomodação e medo. Assim como o repórter abdica da inovação por temer que, caso falhe, possa ser vencido pelo colega mais medíocre que traz o feijão-com-arroz garantido, assim também a empresa jornalística tem os seus receios, talvez ainda maiores, em relação à concorrência. Assim, permite (na verdade, até exige) que seus funcionários mudem o recheio do bolo, mas jamais a receita, de modo que a base permaneça a mesma. A Pepsi-Cola não pode ser igual à Coca-Cola, mas também não pode ser muito diferente; deve haver entre elas apenas uma moldura fina, reconhecível, marquetável, mas não tão larga a ponto de colocar em risco a idéia de que ambas, juntas, fazem parte de um ‘sistema de refrigerância’ que deve continuar absolutamente necessário para o freguês, assim como o Estadão e a Folha, O Globo e o JB. (…)” (Renato Modernell, “Sobre a acontecência”)

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04/09/2008 - 06:13

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Circular: “(…) ‘Todo mundo procura, e eu encontro’, disse Picasso. Pois eu acho que os repórteres jovens deviam ser preparados e incentivados a encontrar, sem necessariamente procurar. Desse modo, estariam muito mais perto de captar ‘acontecências’, em vez de encher o balaio de acontecimentos, que mais servem para alimentar a grande gincana do que para levar algo genuinamente novo a seus leitores.

Todos sabemos que as redações utilizam os conceitos de ‘quente’ e ‘frio’ para classificar os assuntos e as pautas. ‘Quente’ é aquilo que amanhã será frio; portanto, deve ser publicado hoje. ‘Frio’ é aquilo que pode ficar na gaveta, protegido por certa atemporalidade, aguardando o momento em que não houver nada ‘quente’ para disputar o espaço.

Temos aí um puro e simples critério de oportunidade, que sempre me pareceu tosco e insuficiente. As pautas e matérias deveriam ser classificadas em ‘quentes’ e ‘frias’ não apenas por um critério de atualidade, mas também de criatividade.

Por que isso não acontece na imprensa? Ora, a resposta é simples: por acomodação e medo. Assim como o repórter abdica da inovação por temer que, caso falhe, possa ser vencido pelo colega mais medíocre que traz o feijão-com-arroz garantido, assim também a empresa jornalística tem os seus receios, talvez ainda maiores, em relação à concorrência. Assim, permite (na verdade, até exige) que seus funcionários mudem o recheio do bolo, mas jamais a receita, de modo que a base permaneça a mesma. A Pepsi-Cola não pode ser igual à Coca-Cola, mas também não pode ser muito diferente; deve haver entre elas apenas uma moldura fina, reconhecível, marquetável, mas não tão larga a ponto de colocar em risco a idéia de que ambas, juntas, fazem parte de um ‘sistema de refrigerância’ que deve continuar absolutamente necessário para o freguês, assim como o Estadão e a Folha, O Globo e o JB. (…)” (Renato Modernell, “Sobre a acontecência”)

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15/08/2008 - 06:10

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Circular: “(…) Muitos são os que viajam, com as facilidades existentes neste início do século XXI. Até por causa delas, no entanto, poucos são aqueles que, com a singularidade do olhar e o talento da palavra, conseguem transformar uma viagem exterior (como a de Marco Polo) em uma jornada interior (como a de Dante Alighieri). Isto é necessário para se produzir boas narrativas de viagem. Nelas podem se combinar, livremente, elementos característicos de diversos tipos de textos: ensaio, crônica, carta, reportagem, autobiografia, romance, observação de costumes e relato de aventura. Podemos identificar nesse gênero inúmeros fatores de fabulação, como o alto grau de envolvimento existencial do narrador; os condicionamentos psicológicos, logísticos e ambientais da sua jornada; a multiplicidade dos temas abordados; e também a indulgente expectativa do leitor em relação a eventos ocorridos em terras distantes.  Tais componentes são necessários para que aconteça, por assim dizer, uma operação alquímica. Trata-se de transformar um deslocamento no espaço, acessível a qualquer um, em um deslocamento no tempo, coisa para poucos. E aqui cabe uma frase de Descartes: ‘Viajar é como falar com homens de outros séculos’.” (Renato Modernell, “Narrativas de Viagem e Jornalismo Literário“).

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15/08/2008 - 06:10

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Circular: “(…) Muitos são os que viajam, com as facilidades existentes neste início do século XXI. Até por causa delas, no entanto, poucos são aqueles que, com a singularidade do olhar e o talento da palavra, conseguem transformar uma viagem exterior (como a de Marco Polo) em uma jornada interior (como a de Dante Alighieri). Isto é necessário para se produzir boas narrativas de viagem. Nelas podem se combinar, livremente, elementos característicos de diversos tipos de textos: ensaio, crônica, carta, reportagem, autobiografia, romance, observação de costumes e relato de aventura. Podemos identificar nesse gênero inúmeros fatores de fabulação, como o alto grau de envolvimento existencial do narrador; os condicionamentos psicológicos, logísticos e ambientais da sua jornada; a multiplicidade dos temas abordados; e também a indulgente expectativa do leitor em relação a eventos ocorridos em terras distantes.  Tais componentes são necessários para que aconteça, por assim dizer, uma operação alquímica. Trata-se de transformar um deslocamento no espaço, acessível a qualquer um, em um deslocamento no tempo, coisa para poucos. E aqui cabe uma frase de Descartes: ‘Viajar é como falar com homens de outros séculos’.” (Renato Modernell, “Narrativas de Viagem e Jornalismo Literário“).

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Circular: “(…) Muitos são os que viajam, com as facilidades existentes neste início do século XXI. Até por causa delas, no entanto, poucos são aqueles que, com a singularidade do olhar e o talento da palavra, conseguem transformar uma viagem exterior (como a de Marco Polo) em uma jornada interior (como a de Dante Alighieri). Isto é necessário para se produzir boas narrativas de viagem. Nelas podem se combinar, livremente, elementos característicos de diversos tipos de textos: ensaio, crônica, carta, reportagem, autobiografia, romance, observação de costumes e relato de aventura. Podemos identificar nesse gênero inúmeros fatores de fabulação, como o alto grau de envolvimento existencial do narrador; os condicionamentos psicológicos, logísticos e ambientais da sua jornada; a multiplicidade dos temas abordados; e também a indulgente expectativa do leitor em relação a eventos ocorridos em terras distantes.  Tais componentes são necessários para que aconteça, por assim dizer, uma operação alquímica. Trata-se de transformar um deslocamento no espaço, acessível a qualquer um, em um deslocamento no tempo, coisa para poucos. E aqui cabe uma frase de Descartes: ‘Viajar é como falar com homens de outros séculos’.” (Renato Modernell, “Narrativas de Viagem e Jornalismo Literário“).

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