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10/02/2009 - 06:07

Abaixo da linha de pobreza

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Circular: “Abaixo da linha de pobreza”, de Zulmira Ribeiro Tavares

“Ora vejo a linha de pobreza no contorno irregular
dos prédios, altos, baixos, ou das pequenas casas de
autoconstrução na encosta dos morros.

A linha que mais me atinge é a reta, que vai de
um ponto a outro sem desvio. Sei que nela há
números. Quais, não sei. Ainda que não tenha cor,
peso, e tangencie o invisível, é forte. Li a propósito.

Considero a linha do horizonte a que mais se
aproxima do que imagino ser a linha de pobreza.
Da cidade, ver o horizonte é difícil, ou se apresenta
com defeito. Rememoro-o distante, no fim do mar.
Deve ser de lá que a retiram, a linha de pobreza,
com régua e compasso: para raciocínio e ação.
Pois impossível que não exista primeiro na paisagem,
material, resistente. Tem de existir, como certas
fibras arrancadas à natureza para com elas se fazer
feixes, relhos, assim como servem de enfeite as
penas de belas aves.

Verdade que ao longo da vida passaram-me diante
dos olhos gráficos estampados em folhas de
jornal. Alguns diziam respeito à linha de pobreza.
Neles, seu traçado não remetia ao limite que se
tem do mar, longe, e por vezes mesmo delineou
o contorno de ondas crespas e próximas ou, além,
de escarpas, promontórios… Puras formas da
física terrestre, impetuosas, dramáticas, tocando
o interior dos homens de modo diverso ao da
linha do horizonte — que os acalenta com o sono,
a tranqüilidade ou a morte.

Abaixo da linha de pobreza não me chegam idéias.”

(Publicado na revista Piauí, fevereiro de 2007);

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14/10/2008 - 19:08

“A teus pés”

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Recebi esse convite. Repasso. Os jornais devem cobrir, imagino. Uma homenagem merecida. Diz o site do Instituto: “O IMS lança no próximo dia 29 de outubro Antigos e soltos , compilação com escritos inéditos da carioca Ana Cristina Cesar (1952-1983). A data marca o aniversário de 25 anos de morte da poeta e reúne no IMS-RJ uma mesa redonda com Armando Freitas Filho, Clara Alvim e Viviana Bosi, responsável pela organização do livro. O encontro também contará com a declamação de poemas de Ana Cristina nas vozes dos escritores Antonio Cícero, Claudia Roquette-Pinto, Francisco Alvim, Eucanaã Ferraz e Angela Melim.” Neste link, alguns poemas dela.

Autor: - Categoria(s): poesia Tags:
26/09/2008 - 06:29

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Circular: “Quando se cogitar de uma antropologia minuciosa das reações masculinas, o acaso de alguns encontros provavelmente passará a merecer a mesma atenção que certos botanistas dedicam ao cruzamento de determinadas orquídeas. Afinal, sob circunstâncias específicas, admirar por momentos alguém pode nos confirmar como nem sempre a beleza é um conforto — na maioria das vezes, sua revelação tem a força de um escândalo ou um choque. Certas presenças são como um buquê; a leveza de seu perfume transforma o que parecia uma simples oportunidade nas leis secretas de um destino. A experiência pode ser perturbadora; há vários motivos que determinam o sabor desse efeito.

A história é longa, me obriga a certa digressão e começa com Baudelaire. Um dos sonetos mais famosos de seu livro de poemas descreve seu encontro com uma desconhecida, vislumbrada por acaso entre a multidão, numa rua de Paris. Seu título, A uma Passante, é, ao mesmo tempo, uma definição e uma dedicatória, ambas discretamente desencantadas. Quando Baudelaire a descobriu, alta, magra, intangível, o rosto encoberto por um véu escuro como uma rainha de luto, ‘majestosa na dor’ e com suas ‘pernas de estátua’, é bem possível que tenha se convencido, mais uma vez, como todo paraíso é mesmo sempre artificial. A menos, talvez, quando seus artifícios sejam os da poesia: nada, no fundo, é tão pouco nosso quanto nossos sentimentos — especialmente os mais íntimos. Tudo o que sentimos nos vem da história, não do coração. São sentimentos raramente fáceis: bons poetas, para nossa sorte, os revelam; grandes poetas os inventam. Os primeiros nos surpreendem; os segundos nos transformam. Baudelaire era um grande poeta e, provavelmente sem saber, tinha acabado de inventar um estilo de patologia que, com o tempo, ganharia os contornos de uma tradição: hoje, para nós, um rosto desconhecido pode ser uma paisagem, uma promessa ou um trauma. As conseqüências desse encontro frustrado determinaram definitivamente o código de nossas paixões; estamos sempre muito próximos de Baudelaire e do século 19 que de Marilyn Manson e Abbas Kiarostami.” (Sérgio Augusto de Andrade)

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26/09/2008 - 06:29

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Circular: “Quando se cogitar de uma antropologia minuciosa das reações masculinas, o acaso de alguns encontros provavelmente passará a merecer a mesma atenção que certos botanistas dedicam ao cruzamento de determinadas orquídeas. Afinal, sob circunstâncias específicas, admirar por momentos alguém pode nos confirmar como nem sempre a beleza é um conforto — na maioria das vezes, sua revelação tem a força de um escândalo ou um choque. Certas presenças são como um buquê; a leveza de seu perfume transforma o que parecia uma simples oportunidade nas leis secretas de um destino. A experiência pode ser perturbadora; há vários motivos que determinam o sabor desse efeito.

A história é longa, me obriga a certa digressão e começa com Baudelaire. Um dos sonetos mais famosos de seu livro de poemas descreve seu encontro com uma desconhecida, vislumbrada por acaso entre a multidão, numa rua de Paris. Seu título, A uma Passante, é, ao mesmo tempo, uma definição e uma dedicatória, ambas discretamente desencantadas. Quando Baudelaire a descobriu, alta, magra, intangível, o rosto encoberto por um véu escuro como uma rainha de luto, ‘majestosa na dor’ e com suas ‘pernas de estátua’, é bem possível que tenha se convencido, mais uma vez, como todo paraíso é mesmo sempre artificial. A menos, talvez, quando seus artifícios sejam os da poesia: nada, no fundo, é tão pouco nosso quanto nossos sentimentos — especialmente os mais íntimos. Tudo o que sentimos nos vem da história, não do coração. São sentimentos raramente fáceis: bons poetas, para nossa sorte, os revelam; grandes poetas os inventam. Os primeiros nos surpreendem; os segundos nos transformam. Baudelaire era um grande poeta e, provavelmente sem saber, tinha acabado de inventar um estilo de patologia que, com o tempo, ganharia os contornos de uma tradição: hoje, para nós, um rosto desconhecido pode ser uma paisagem, uma promessa ou um trauma. As conseqüências desse encontro frustrado determinaram definitivamente o código de nossas paixões; estamos sempre muito próximos de Baudelaire e do século 19 que de Marilyn Manson e Abbas Kiarostami.” (Sérgio Augusto de Andrade)

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26/09/2008 - 06:29

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Circular: “Quando se cogitar de uma antropologia minuciosa das reações masculinas, o acaso de alguns encontros provavelmente passará a merecer a mesma atenção que certos botanistas dedicam ao cruzamento de determinadas orquídeas. Afinal, sob circunstâncias específicas, admirar por momentos alguém pode nos confirmar como nem sempre a beleza é um conforto — na maioria das vezes, sua revelação tem a força de um escândalo ou um choque. Certas presenças são como um buquê; a leveza de seu perfume transforma o que parecia uma simples oportunidade nas leis secretas de um destino. A experiência pode ser perturbadora; há vários motivos que determinam o sabor desse efeito.

A história é longa, me obriga a certa digressão e começa com Baudelaire. Um dos sonetos mais famosos de seu livro de poemas descreve seu encontro com uma desconhecida, vislumbrada por acaso entre a multidão, numa rua de Paris. Seu título, A uma Passante, é, ao mesmo tempo, uma definição e uma dedicatória, ambas discretamente desencantadas. Quando Baudelaire a descobriu, alta, magra, intangível, o rosto encoberto por um véu escuro como uma rainha de luto, ‘majestosa na dor’ e com suas ‘pernas de estátua’, é bem possível que tenha se convencido, mais uma vez, como todo paraíso é mesmo sempre artificial. A menos, talvez, quando seus artifícios sejam os da poesia: nada, no fundo, é tão pouco nosso quanto nossos sentimentos — especialmente os mais íntimos. Tudo o que sentimos nos vem da história, não do coração. São sentimentos raramente fáceis: bons poetas, para nossa sorte, os revelam; grandes poetas os inventam. Os primeiros nos surpreendem; os segundos nos transformam. Baudelaire era um grande poeta e, provavelmente sem saber, tinha acabado de inventar um estilo de patologia que, com o tempo, ganharia os contornos de uma tradição: hoje, para nós, um rosto desconhecido pode ser uma paisagem, uma promessa ou um trauma. As conseqüências desse encontro frustrado determinaram definitivamente o código de nossas paixões; estamos sempre muito próximos de Baudelaire e do século 19 que de Marilyn Manson e Abbas Kiarostami.” (Sérgio Augusto de Andrade)

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