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02/03/2009 - 06:03

“Havia um grande caminhão vendendo uvas, pequenas uvas escuras”

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Circular: “No oitavo dia sentimos que tudo conspirava contra nós. Que importa a uma grande cidade que haja um apartamento fechado em alguns de seus milhares de edifícios; que importa que lá dentro não haja ninguém, ou que um homem e uma mulher ali estejam, pálidos, se movendo na penumbra como dentro de um sonho?

Entretanto a cidade, que durante uns dois ou três dias parecia nos haver esquecido, voltava subitamente a atacar. O telefone tocava, batia dez, quinze vezes, calava-se alguns minutos, voltava a chamar; e assim três, quatro vezes sucessivas.

Alguém vinha e apertava a campainha; esperava; apertava outra vez; experimentava a maçaneta da porta; batia com os nós dos dedos, cada vez mais forte, como se tivesse certeza de que havia alguém lá dentro. Ficávamos quietos, abraçados, até que o desconhecido se afastasse, voltasse para a rua, para a sua vida, nos deixasse em nossa felicidade que fluía num encantamento constante.

Eu sentia dentro de mim, doce, essa espécie de saturação boa, como um veneno que tonteia, como se meus cabelos já tivessem o cheiro de seus cabelos, se o cheiro de sua pele tivesse entrado na minha. Nossos corpos tinham chegado a um entendimento que era além do amor, eles tendiam a se parecer no mesmo repetido jogo lânguido, e uma vez, que, sentado, de frente para a janela por onde se filtrava um eco pálido de luz, eu a contemplava tão pura e nua, ela disse: ‘Meu Deus, seus olhos estão esverdeando’:

Nossas palavras baixas eram murmuradas pela mesma voz, nossos gestos eram parecidos e integrados, como se o amor fosse um longo ensaio para que um movimento chamasse outro: inconscientemente compúnhamos esse jogo de um ritmo imperceptível, como um lento bailado.

Mas naquela manhã ela se sentiu tonta, e senti também minha fraqueza; resolvi sair, era preciso dar uma escapada para obter víveres; vesti-me lentamente, calcei os sapatos como quem faz algo de estranho; que horas seriam?

Quando cheguei à rua e olhei, com um vago temor, um sol extraordinariamente claro me bateu nos olhos, na cara, desceu pela minha roupa, senti vagamente que aquecia meus sapatos. Fiquei um instante parado, encostado à parede, olhando aquele movimento sem sentido, aquelas pessoas e veículos irreais que se cruzavam; tive uma tonteira, e uma sensação dolorosa no estômago.

Havia um grande caminhão vendendo uvas, pequenas uvas escuras; comprei cinco quilos. O homem fez um grande embrulho de jornal; voltei, carregando aquele embrulho de encontro ao peito, como se fosse a minha salvação.

E levei dois, três minutos, na sala de janelas absurdamente abertas, diante de um desconhecido, para compreender que o milagre acabara; alguém viera e batera à porta, e ela abrira pensando que fosse eu, e então já havia também o carteiro querendo o recibo de uma carta registrada, e quando o telefone bateu foi preciso atender, e nosso mundo foi invadido, atravessado, desfeito, perdido para sempre — senti que ela me disse isso num instante, num olhar entretanto lento (achei seus olhos muito claros, há muito tempo não os via assim, em plena luz), um olhar de apelo e de tristeza onde entretanto ainda havia uma inútil, resignada esperança.”

(Rubem Braga, “O Adeus”). Para ilustrar o post, trabalho de Erica Baum.

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27/02/2009 - 06:11

“Eu quero lá saber de tartaruga?”

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Circular: “Esses pessoal da ecologia, do meio ambiente, salve as baleias, são uns chatos. Eles quer impedir o pogresso do município. Querem acabar com o turismo, com o comércio. Querem que a cidade fique sempre pequena. Mas eu vou passar por cima deles tudo. Eu posso até não ser uma pessoa instruída, mas nasci aqui, conheço todas as família. Por isso que eu já fui prefeito cinco vezes e ainda vou ser mais. Ano que vem, entra meu filho que eu já tô no segundo mandato. Mas depois eu volto.

Já expliquei tudo pro Junior. Primeiro, vâmo acabar com essa lei de prédio com menos de três andar. Antes, até dava. Mas o turismo tá crescendo, cada vez vem mais veranista pra passar o verão e a gente tem que agüentar receber todo mundo. Se não fosse esses pessoal que ficaram enchendo o saco pra tombar os morro, a gente dava um jeito de facilitar as construtora pra fazer mais uns condomínio. Mas agora só dá pra crescer pra cima. Versiti, verfiqui… vestiliza… verti… Porra, crescer pra cima, fazer prédios mais alto. A culpa é desse pessoal da USP que vem pra cá botar coisa na cabeça dos pessoal, dessa turma daqui que é inguinorante que nem eu, só que fica falando esses negócio de meio ambiente, projeto de tartaruga, núcleo sei lá do quê. Núcleo é o caralho. Eu quero lá saber de tartaruga?

Eu quero ver é o dinheiro dos turista entrando, o comércio vendendo bem na temporada. Mas esses pessoal fica lá perturbando. Não pode som alto de noite, não pode treiler na praia, não pode carro entrar nas cachoeira. E os barzinho de noite? Como é que fica? Os turista gosta de música, de ouvir MPB ao vivo e beber cerveja. Aí esses pessoal verde não quer deixar. Só que eles vão ver que quem manda nessa porra é eu. Vou botar a guarda municipal, que foi eu que inventou, pra tomar conta das construção dos prédio novo. E se vier meio ambiente, eu mando atirar. Se o povo votou ni mim, é porque eles apóia os meus projeto. Na Câmara não tem pobrema. Os vereador tá tudo comigo. Sou eu que pago eles, caralho. Eles tudo vai votar na lei que deixa construir os prédio. Depois não pode mais mudar. Vai ser lei municipal.

Mas esses pessoal da ecologia não desiste, e pode reparar: esses pessoal da ecologia é os mesmos que nadam pelado na praia, que usam tóxico. (…)”

(André Sant’Anna, “Meio ambiente é o caralho“, publicado na Piauí.)

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26/02/2009 - 06:10

“A questão é esta: o que se deve considerar como tempo perdido?”

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Circular: “Mantenha o tempo em alta estima e seja a cada dia mais cuidadoso para não perder nada do seu tempo, mais até do que para não perder nada do seu ouro e prata. E, se a recreação vã, roupas, festas, conversas ociosas, companhias sem proveito, ou sono forem, qualquer deles, uma tentação para roubá-lo do seu tempo, redobre a sua vigilância.” (Richard Baxter, 1673)

“Passei o dia fazendo um resumo do estado atual de minha fortuna pecuniária e cheguei à conclusão que possuo muito mais capital dinheiro do que capital tempo, e portanto é o último que merece particular atenção. (…) Ora, eu posso aumentar o dinheiro, mas, tempo, a única coisa que eu posso fazer é economizar (…). A questão é esta: o que se deve considerar como tempo perdido?” (José Vieira Couto de Magalhães, 1880)

“Os povos primitivos não conheciam a necessidade de dividir o tempo em filigranas. Para os antigos não existiam minutos ou segundos. Artistas como Stevenson ou Gauguin fugiram da Europa e aportaram em ilhas onde não havia relógios. Nem o carteiro nem o telefone apoquentavam Platão. Virgílio nunca precisou correr para pegar um trem. Descartes se perdeu em pensamentos nos canais de Amsterdã. Hoje, porém, nossos movimentos são regidos por frações exatas de tempo. Até mesmo a vigésima parte de um segundo começa a não ser irrelevante em certas áreas técnicas.” (Paul Valéry, 1935)

“Toda gente vive apressada, e sai-se no momento em que devia se chegar.” (Marcel Proust)

“Toda forma de pressa, mesmo que voltada para o bem, trai alguma desordem mental.” (E. M. Cioran).

Via “O Livro das Citações”. Para ilustrar, cena de “Safety Last”, com Harold Lloyd.

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20/02/2009 - 06:11

“A empresa é a última fortaleza”

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Circular: “(…) o que faz a arquitetura? Ela fixa itinerários predispostos. Esses itinerários podem ser rígidos como uma estrada ou flexíveis como uma série de atalhos, como, por exemplo, em Veneza ou Nápoles. E é claro que uma primeira parte das modificações dos locais de trabalho foi o espaço aberto. O edifício de Niemeyer para a Mondadori [editora italiana fundada em 1907], em Milão, um edifício maravilhoso, é todo em espaço aberto, no qual não há paredes, mas há lugares fixos. Portanto, ainda existiu um elo com a visão de empresa, de linha de montagem. Pois devemos considerar que a linha de montagem acabou influenciando, em nível quase psicanalítico, a organização do trabalho. E, da fábrica, ela passou para os escritórios. Por isso, os escritórios burocráticos são organizados como linhas de montagem. Para começar, uma primeira etapa é, obviamente, abolir os escritórios fechados e os lugares demarcados. Mas a segunda… o muro que cerca a empresa. Hoje a empresa é a última fortaleza, o último castelo que sobrou. Ao entrarmos numa empresa damos os documentos, recebemos o crachá, como numa grande prisão. Agora, enquanto o visitante tem de entregar o crachá, porque só pode entrar com autorização, milhares de informações entram e saem sem nenhum documento [mexe as mãos de um lado para o outro], por telefone, fax e correio eletrônico. Uma desestruturação total do trabalho é o próximo passo.

Pois o trabalho intelectual, o trabalho já realizado por 60% ou 70% da população ativa, por ser mental, pode ser feito em qualquer lugar, em qualquer lugar onde a informação possa nos alcançar. Em qualquer lugar, onde possamos contatar os outros através de telefone, fax e internet. Por isso, o local e o tempo do trabalho não têm mais sentido. Toda aquela massa enorme de aparatos burocráticos que as firmas e os ministérios usam para controlar horários de entrada e saída dos trabalhadores são completamente inúteis. Eles podem ficar em casa, sempre que lá pudessem fazer determinado trabalho. Poderiam ir ao escritório só se necessário para uma reunião ou para lidar com algo que não possa ser deslocado para casa. Isto é necessário. Ontem, no Rio [Rio de Janeiro], passei praticamente o dia tendo de me deslocar dentro da cidade, não menos de 4 horas no carro. Imaginemos que isso leve, em média, duas horas. E imaginemos que, no Brasil, 20 milhões de pessoas passem todo dia duas horas no carro. São 40 milhões de horas ao dia praticamente desperdiçadas. E é o sacrifício pago por uma cidade organizada pelo critério de linha de montagem. Como se ainda todo o trabalho fosse feito em um alto-forno e fosse necessário sair de casa e ir ao escritório. Então, o senhor fez muito bem desestruturando tudo aquilo. Os arquitetos têm de fazer o mesmo, assim como os dirigentes e os chefes de pessoal. Hoje tem-se ainda uma visão, eu diria, clintoniana das relações de trabalho. Ou seja, é preciso ter os dependentes à mão, de forma tangível. Não há nenhuma necessidade disso. Podemos estar juntos quando necessário e dialogar à distância quando necessário (…).”

(Domenico de Masi, em entrevista ao Roda-Viva, 1999). Para ilustrar o post, still de vídeo de Melanie Smith.

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19/02/2009 - 06:04

“Viver sem carro”, por Renato Modernell

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Circular: “São Paulo atingiu 6 milhões de veículos, quase a frota da Argentina inteira. Vivemos em uma cidade feita para servir sua majestade, o carro. O resto é silêncio. Ninguém dá muita bola para o Dia Mundial sem Carro, 22 de setembro.

Mas o meu dia foi 19 de outubro. Corria o ano de 2004. Numa manhã quente, saí de uma concessionária deixando lá para sempre o último representante da dinastia de meus oito veículos automotores, iniciada nos anos 70, com um Fusca amarelo. Fui à padaria mais próxima para me refazer daquele gesto extremo. Sentia-me só. Um amigo fizera de tudo para me demover da idéia de adotar a vida de pedestre:

— Esta cidade já é um horror com carro. Sem ele, é inviável.

Mais de três anos se passaram desde minha Revolução de Outubro. A sensação inicial de desamparo não durou muito. Logo tratei de organizar a vida de outro modo. Não sou tão tolo a ponto de insinuar que, tendo renunciado ao carro, colaboro para reverter o efeito-estufa. Quando muito, atenuo o efeito-estofamento: aquele mau-humor que eu tinha antes, a três por quatro, ao ficar preso no trânsito.

A perfeição não existe. As calçadas de São Paulo, inclinadas, estreitas, imundas, esburacadas, atravancadas por mendigos e camelôs, cheias de degraus, são trilhas dantescas em comparação com as das ruas planas de Buenos Aires, Paris, Londres, Nova York, Tóquio e (se me permitem) Rio Grande. Mas não estou só. Tenho conhecido diversas pessoas que também tiveram carro a vida toda, e aí deram um basta. Ou deram um tempo, e acabaram gostando.

Mudando-se a forma de deslocamento, muda-se jeito de olhar o mundo. Quando se anda a pé, encontra-se pérolas até no caos de São Paulo: aromáticas padarias, refrescantes quitandas, penumbrosos antiquários, aconchegantes botecos, faustosos cemitérios, coloridas feiras, galerias babilônicas, descolados sebos, reluzentes vitrinas cheias de instrumentos musicais. Surge uma outra cidade que antes estava envolta na bruma.

Quanto nos tornamos motoristas, aos poucos nos rendemos a um ambiente de alavancas e pedais; botões e faróis; guardadores e guardas; espelhos e semáforos; impostos e multas. Sem sentir, sucateamos as lembranças de uma época em que andávamos por aí mais leves e disponíveis.

Andar a pé tem desvantagens, claro. O pedestre está mais exposto, por exemplo, ao cheiro de gasolina que existe nas ruas. Mas pior que isso, creio, é confundir o odor acre do interior de um carro novo (mistura de cola, tinta, plástico, resinas) com o perfume da prosperidade.

Andar a pé não significa tornar-se franciscano. Assim como o sonho de consumo de um motorista pode ser uma Ferrari, o do pedestre pode ser uma palmilha de silicone. Não vejo problema nisso.

Não sei se emagreci ou engordei desde minha Revolução de Outubro. Um peregrino urbano deve aprender a resistir à tentação de entrar em toda padaria que encontra pela frente. A ele já é concedida uma forma de felicidade que se tornou rara, hoje em dia: poder ir ao cinema por impulso, ao sentir cheiro de pipoca.”

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18/02/2009 - 06:09

“Um apertado tecido de infortúnios lavra a história dos homens”

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Circular: “Em algum lugar li que um apertado tecido de infortúnios lavra a história dos homens, desde a primeira aurora, mas a mim me agrada supor que houve períodos tranqüilos e que por um inapelável golpe de azar me cabe viver o momento, confuso e épico, da culminação. Dirão, talvez, que esse é o clamor, nada filosófico, de um sujeito obscuro e irrelevante; eu replicaria que, justamente porque sou um sujeito obscuro e irrelevante, é curioso, e até significativo, que possa testemunhar sobre mais de um fato tremendo. Sirva de prova: vi, com meus próprios olhos, o fim, a queda, a aniquilação de uma grande dama. (Adolfo Bioy Casares (foto), “A serva alheia”)

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17/02/2009 - 06:03

Dez “leituras erráticas” que marcaram Cristovão Tezza

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Circular: O escritor Cristovão Tezza foi o grande nome da literatura brasileira de 2008, levando para casa todos os prêmios relevantes que estavam em disputa, com o livro “O Filho Eterno“. À luz desse fato, fica ainda mais interessante olhar para a lista comentada produzida por ele, no ano de 2003, de “dez leituras erráticas, antigas e recentes” que o marcaram — encomendada pelo site Trópico, e que guardei no meu baú de textos virtuais. Segue:

“A Pane”, de Friedrich Dürrenmatt (Editora Globo, 1964).

Nos Alpes suíços, um vendedor se vê perdido na neve, à noite, quando acontece uma pane no seu carro. Consegue abrigo numa casa onde um grupo de juristas aposentados -advogados, juízes, procuradores- representa, como um divertido jogo, julgamentos simulados. A chegada do estranho provoca grande alegria: esta noite ele não gostaria de ser o réu? Feliz, o vendedor aceita imediatamente participar do jogo, mesmo porque não cometeu nenhum crime. Entre risadas e bebidas, a noite avança com o “julgamento”. Mais não pode ser dito sob pena de estragar a leitura. Uma narrativa curta, intensa, inesquecível.

“É Difícil Encontrar um Homem Bom”, de Flannery O’Connor (Arx, 2003).

Para quem nunca leu Flannery O’Connor, este livro contém dez contos que são uma felicidade completa, do primeiro ao último. Tendo como pano de fundo o clássico sul dos Estados Unidos, esse pedaço mítico do país que resiste a admitir que perdeu a Guerra Civil, coração duro da nação que são parte inseparável do paradoxo americano (são “A gente boa da roça”, como no título de um dos contos), o livro inteiro fascina. Talvez não seja exagero dizer que, lendo Flannery O’Connor, entendemos um pouco melhor como funciona a cabeça do presidente Bush.


“A Boca do Inferno”, de Otto Lara Resende (Companhia das Letras, 1998).

Escritor respeitado e bastante conhecido como jornalista -que curiosamente chegou a fazer parte do título mais esdrúxulo, ou inacreditável, das peças de Nelson Rodrigues (Otto Lara Resende, ou Bonitinha, Mas Ordinária), Otto Lara Resende tem uma obra literária relativamente pouco estudada e que não costuma ser lembrada nos inventários mais freqüentes da nossa literatura. Pois deveria ser mais lembrado: este A Boca do Inferno, conjunto de sete contos sobre crianças que saem da infância e começam a pôr o pé na vida adulta, é um livro refinadíssimo que, publicado pela primeira vez no final dos anos 50, continua vivo e inteiro.

“Foe”, de J. M. Coetzee (Penguin Books).

Um dos mais estranhos, originais e desconcertantes romances do sul-africano Coetzee, um escritor contemporâneo absolutamente obrigatório. Este livro, ambientando no século XVIII, narra as aventuras de uma náufraga que, depois de voltar à Inglaterra, perambula pelas ruas de Londres procurando um certo Daniel Foe, para que ele escreva a história dela. A náufraga, Susan Barton, viaja acompanhada de um negro chamado Sexta-Feira, que teve a língua arrancada e portanto não pode falar. Um romance a merecer tradução urgente no Brasil, que já conhece vários livros de Coetzee, como os ótimos Desonra e Vida e Época de Michael K (Companhia das Letras).

“A Majestade do Xingu”, de Moacyr Scliar (Companhia das Letras, 1999).

Um homem que está para morrer conta ao médico a história de sua vida -este é o ponto de partida deste romance que sintetiza todas as qualidades narrativas de Moacyr Scliar. Alguém que veio da Rússia para o Brasil nos anos 20 no mesmo navio em que vinha o sanitarista Noel Nutels, e que passa a vida como uma sombra, alguém que não é nada -mas cujo grande sonho era abrir uma loja na selva, no “umbigo do mundo”, com o nome “A Majestade do Xingu”. De uma saborosa oralidade, o romance consegue manter um equilíbrio entre a graça mais solta e a gravidade imemorial dos grandes temas da literatura.

“Viagem ao Fim da Noite”, de Ferdinand Céline (Companhia das Letras, 1994).

É muito difícil gostar de Ferdinand Céline, o autor, o tipo da pessoa com que a gente sentiria dificuldade até de partilhar um cafezinho no balcão: alguém que chegou a publicar panfletos anti-semitas e que fugiu da França prestes a ser libertada com um salvo-conduto alemão, condenado à morte pela Resistência, depois a um ano de prisão, enfim a um justo ostracismo, de que sairá só tardiamente. No entanto, o seu Viagem ao Fim da Noite, publicado em 1932, é dessas viagens literárias impactantes, que abrem para sempre novas comportas da linguagem e das visões de mundo, com uma força que ainda hoje continua em pé. E é um caso extremo de narrador que não se deixa contaminar jamais pelo autor. Esqueça Céline: leia o livro. A edição brasileira traz elogios de figuras tão díspares como Trótsky, Philip Roth, Claude Lévi-Strauss e John Updike.

“Antologia Poética”, de Carlos Drummond de Andrade (Editora Record).

Continuo achando, com Drummond sempre à cabeceira, que ele é o maior escritor brasileiro do século XX, incluídos aí prosadores e poetas. Tem a autoridade do poeta -poeta precisa de autoridade, concedida pelos leitores, que dão a ele o direito de dizer o que diz, do jeito que diz, e assinar embaixo- e ao mesmo tempo o tom prosaico da cultura brasileira, no que ela revela de mais original, esquivo e, paradoxalmente, não-autoritário. Carlos Drummond de Andrade, o poeta, é a nossa síntese. É linguagem brasileira no que tem de mais alta e melhor.

“A Praça do Diamante”, de Mercè Rodoreda (Planeta, 2003).

Esse livro é aquela felicidade infreqüente que às vezes nos acontece: encontrar alguém de quem nunca ouvimos falar e que nos encanta. Mercè Rodoreda é catalã e publicou esse romance em 1962. García Márquez, que apresenta o romance, diz numa bela imagem que Mercè é dessas autoras que ainda sabem o nome das coisas -e é verdade. A Praça do Diamante conta a história de uma mulher simples de Barcelona vivendo seu duro dia-a-dia durante a Guerra Civil Espanhola (sobre a qual, aliás, ela não diz absolutamente nada -é apenas uma sombra ao fundo da narrativa). Um caso raro em que o tom poético, na prosa, não falsifica nada.

“Árvores Abatidas”, de Thomas Bernhard (Rocco, 1991).

O encontro com Thomas Bernhard, talvez o escritor mais irritado (mas nunca irritante) de todos os tempos, é uma experiência maravilhosa para quem gosta de ler. Sua narração está sempre no limite, de tal modo, que é dessa família de autores que podem ser lidos, digamos com algum exagero, quase que ao acaso, qualquer livro, em qualquer página. Em duas ou três linhas já entramos inteiro naquele universo sem paz, que desloca permanentemente nosso olhar. Em Árvores Abatidas, um jantar em homenagem a um velho ator é o argumento de Bernhard para exercer sua incansável e fascinante corrosão das coisas sólidas do mundo.

“Aquela Confusão Louca da Via Merulana”, de Carlo Emilio Gadda (Record , 1982).

Carlo Emilio Gadda, como Thomas Bernhard, embora com almas completamente distintas, também é desses autores raros que em meia frase já nos jogam numa dimensão literária singular e inconfundível. No caso deste romance, um homicídio num apartamento é o eixo em torno do qual se desencadeia uma narração onívora que vai devorando e transmutando todas as linguagens sociais; parece que ele é tão mais monumental quanto menor é o foco do seu olhar, uma miudeza ridícula que vai inexorável se desdobrando em golpes e reticências aos olhos do leitor, até alcançar a dimensão de um mundo inteiro. E acaba por não se fechar nunca: Italo Calvino “acusava” Gadda de não terminar seus livros. O que, aliás, não tem importância nenhuma: o inacabamento é parte integrante do olhar de Gadda. O resto é com o leitor.

(Para ilustrar o post, trabalho de Esther Stocker).

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16/02/2009 - 06:10

Um homem artificial e a história da nossa miséria

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Circular: “Se a civilização impõe sacrifícios tão grandes não só à sexualidade humana, mas à sua agressividade, podemos entender melhor por que é tão difícil para o homem ser feliz na civilização. De fato, o homem primitivo estava em situação vantajosa por não conhecer restrições ao instinto. Em contrapartida, sua perspectiva de usufruir desta felicidade por qualquer intervalo maior de tempo era diminuta. O homem civilizado trocou uma parcela das suas possibilidades de felicidade por uma parcela de segurança.” (Freud)

“Querem saber a história abreviada de quase toda a nossa miséria? Ei-la: havia um homem natural. No âmago desse homem, entretanto, foi introduzido um homem artificial, e ele desencadeou no interior da caverna uma guerra civil que se prolonga por toda a vida.” (Diderot)

“Naquilo que concordamos denominar ‘civilização’ reside inegavelmente um princípio diabólico do qual o homem apenas se deu conta demasiado tarde, quando não era mais possível remediá-lo.” (E.M. Cioran)

(Via “O Livro das Citações”. Para ilustrar, still de filme de Derek Jarman).

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13/02/2009 - 06:02

O elogio do sono

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Circular: “O que fazer para se estimular quando se está cansado e saturado de si mesmo? Uma pessoa recomenda o cassino, a outra o cristianismo, a terceira a eletricidade. O melhor, porém, meu caro melancólico, é dormir muito, em sentido próprio e impróprio! Assim teremos novamente a nossa manhã! A peça de arte, na sabedoria de viver, é saber intercalar o sono de toda espécie no momento certo. (Nietzsche)

“A natureza humana possui maravilhosos poderes e nos reserva algo de bom em prontidão para quando menos esperávamos por isso. Houve vezes em que adormeci aos prantos, mas em meus sonhos surgiram as mais cativantes formas para me consolar e animar, e levantei-me na manhã seguinte renovado e alegre.” (Goethe)

“Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.” (Carlos Drummond de Andrade)

Via “O Livro das Citações”.

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12/02/2009 - 06:01

“Senhor Buda, fracassei, ainda sou apegado ao mundo”

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Circular: “E as suas referências literárias quais são? Quais escritores influenciaram seu trabalho?
Acho que foram quatro os autores que mais me influenciaram. O Machado de Assis, o Thomas Mann, o Robert Musil, principalmente neste livro, ‘O mundo como obra de arte criada pelo Brasil’, em parte inspirado em ‘Um homem sem qualidades’, em que um grupo de pessoas se reúne para comemorar os 70 anos do reinado do imperador da Áustria-Hungria, era um evento equivalente ao samba enredo no meu livro. E o Chomei, escritor japonês que é o autor do livro que eu mais gosto, um livrinho de 20 páginas. Ele era um monge budista do século XII, XIII e ele escreveu um livro autobiográfico. Ele vivia na corte, como nobre, no meio do luxo e da luxúria e abandonou tudo para ser monge budista, foi pro meio da floresta numa montanha, construiu uma cabana isolada que tinha uma esteira, uma guitarra e um outro instrumento musical de cordas, uma espécie de viola, uma escrivaninha para ele escrever e uma horta para completar a alimentação que ele conseguia na floresta. E ele passou o resto da vida dele lá, viveu ali durante décadas mal encontrando pessoas, passava anos sem ver ninguém e terminou o livro melancolicamente dizendo: Senhor Buda, fracassei, ainda sou apegado ao mundo. Eu amo minha cabana, minha esteira, minha escrivaninha…”

(Renato Pompeu, jornalista e escritor, em entrevista a Marina Amaral). Para ilustrar o post, trabalho de Werner Reiterer.

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