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17/03/2009 - 06:07

“Há um grande vento frio cavalgando as ondas”

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Circular: “Talvez tenha acabado o verão. Há um grande vento frio cavalgando as ondas, mas o céu está limpo e o sol é muito claro. Duas aves dançam sobre as espumas assanhadas. As cigarras não cantam mais. Talvez tenha acabado o verão.

Estamos tranqüilos. Fizemos este verão com paciência e firmeza, como os veteranos fazem a guerra. Estivemos atentos à lua e ao mar; suamos nosso corpo; contemplamos as evoluções de nossas mulheres, pois sabemos o quanto é perigoso para elas o verão.

Sim, as mulheres estão sujeitas a uma grande influência do verão; no bojo do mês de janeiro elas sentem o coração lânguido, e se espreguiçam de um modo especial; seus olhos brilham devagar, elas começam a dizer uma coisa e param no meio, ficam olhando as folhas das amendoeiras como se tivessem acabado de descobrir um estranho passarinho. Seus cabelos tornam-se mais claros e às vezes os olhos também; algumas crescem imperceptivelmente meio centímetro. Estremecem quando de súbito defrontam um gato; são assaltadas por uma remota vontade de miar; e certamente, quando a tarde cai, ronronam para si mesmas.

Entregam-se a redes; é sabido, ao longo de toda a faixa tropical do globo, que as mulheres não habituadas a rede e que nelas se deitam ao crepúsculo, no estio, são perseguidas por fantasias e algumas imaginam que podem voar de uma nuvem a outra nuvem com facilidade. Sendo embaladas, elas se comprazem nesse jogo passivo e às vezes tendem a se deixar raptar, por deleite ou preguiça.

Observei uma dessas pessoas na véspera do solstício, em 20 de dezembro, quando o sol ia atingindo o primeiro ponto do Capricórnio, e a acompanhei até as imediações do Carnaval. Sentia-se que ia acontecer algo, no segundo dia da lua cheia de fevereiro; sua boca estava entreaberta: fiz um sinal aos interessados, e ela pôde ser salva.

Se realmente já chegou o outono, embora não o dia 22, me avisem. Sucederam muitas coisas; é tempo de buscar um pouco de recolhimento e pensar em fazer um poema.

Vamos atenuar os acontecimentos, e encarar com mais doçura e confiança as nossas mulheres. As que sobreviveram a este verão.”

(Rubem Braga, “O Verão e as Mulheres”, em “A cidade e a roça”)

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16/03/2009 - 06:07

“Verdades pouco ditas no meio literário”, por Michel Laub

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Circular:Sobre o crítico – Martin Amis diz que um dos problemas da crítica literária é que seu instrumento de expressão, o texto, é o mesmo usado pelo objeto de sua análise, diferentemente do que acontece na música, no cinema, nas artes plásticas, no teatro. Ou seja: ao decretar que um escritor não sabe escrever direito, o crítico no mínimo terá de fazê-lo numa prosa com algum sabor e algum brilho, o suficiente para não perder sua  autoridade e cair num certo ridículo. Para irritação dos críticos, que acham essas questões mundanas demais para serem discutidas nas esferas elevadas onde atuam, o fato é que todo escritor, ao ler uma resenha negativa de seu livro, instintivamente trata de avaliar o texto do seu algoz – e na imensa maioria dos casos, claro, chega a uma conclusão não muito lisonjeira a respeito.

 Sobre o escritor – Embora as honrosas exceções, que são em número muito menor que o anunciado, toda obra literária é autobiográfica. Não só naquele sentido geral e cômodo – “o que penso sou eu” ou “a forma como digo é como sou” –, mas diretamente mesmo: pessoas ao redor do escritor, fatos, cenas, sensações, é virtualmente impossível que isso não seja transportado, de uma forma ou de outra, com os devidos disfarces e perfumes, para dentro dos seus livros. Como esse escritor está sempre em busca de assunto, sua vida muitas vezes passa a ter uma função utilitária, num processo que John Updike definiu mais ou menos assim: até decidir se dedicar à literatura, o sujeito sofre as coisas de verdade, porque ainda tem tudo a perder; a partir do momento em que passa a ver nas experiências ruins uma possível matriz de ficção, não é muito difícil transformar “dor em mel”. Dá para acrescentar que, como ainda se acredita que esse mel será mais doce se houver mais dor, em alguns casos patéticos – juro que estou falando em tese, gente – o sofrimento passa a ser quase desejado.

 Sobre o escritor que é também crítico – Bem, aí a gente precisa se defender como pode, construindo meia dúzia de argumentos que justifiquem intelectual e moralmente as mesquinharias acima. Num ótimo ensaio que andou circulando há um ou dois anos, Zadie Smith disse algo interessante sobre T.S. Eliot, segundo quem a personalidade do autor não interessa, ou, num resumo mais grosseiro, texto e autor são inconfundíveis. Pergunta Zadie: será que Eliot não dedicou seu enorme talento para defender essa tese, entre outras razões, porque em sua biografia constava o fato de ter abandonado a própria mulher num hospício?”

(Michel Laub, lá no ótimo blog dele). Para ilustrar o post, óleo sobre tela de Serban Savu.

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13/03/2009 - 06:10

“Sobre mulheres e cidades”, por Renato Modernell

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Circular: “Reencontrei um colega de faculdade, que me expôs sua curiosa tese a respeito das mulheres. As feias, segundo ele, são mais prodigiosas na cama porque, para compensar a desvantagem, precisam ‘mostrar serviço’.

Lavo as mãos. Abstenho-me de discutir esse assunto aqui, nem tanto por sabê-lo temerário, mas porque não chegaremos a lugar algum. Provas e contraprovas, se existirem, não poderão ser trazidas a lume. Isso não me impede, em todo caso, de deslocar a tese do meu amigo para outro contexto.

Em vez de mulheres, pensemos em cidades. São Paulo é a mulher feia; e o Rio, claro, é a mulher bonita. Aliás, maravilhosa, diz a lenda. Aquela que não precisa mover uma palha para se justificar aos olhos do mundo, bastando para isso exercer seu doce balanço a caminho do mar.

Mesmo mentindo, devo argumentar que considero o Rio de Janeiro uma cidade comum, igual a qualquer outra. Em termos de padrão urbano, ela não faz jus ao cenário natural, este, sim, espetacular. Em contraste com o mar azul e as serras de veludo, aqueles densos espigões se tornam mais sinistros. Mas isso já são outros quinhentos. Fiquemos com a velha idéia de Cidade Maravilhosa. Todo clichê, em alguma medida, representa um consenso.

Não me excluo dele. Se ouço aqui Os Cariocas a interpretar Rio, de Menescal e Bôscoli, enquanto olho pela janela as torres e antenas da Paulista, ao menos durante 2 minutos e 23 segundos terei uma vontade irrefreável de me mudar para o Rio de Janeiro, vontade esta que cessará após breve visita à Internet. Mas devo admitir que uma cidade não é apenas a sua realidade. É também a sua mitologia. Como as mulheres, aliás.

São Paulo é horrorosa e arrebatadora. Estremecemos ao observar este oceano de cimento do alto do mirante do prédio do Banespa. Alguma coisa deve ter dado errado para que isto chegasse a ter o tamanho que tem. Viver em São Paulo é uma decisão que precisamos ratificar a cada dia.

Em dias de mau humor, ocorre-me que a Unesco deveria tombar esta cidade como patrimônio da humanidade, para finalidades didáticas. Estudantes de arquitetura e urbanismo do mundo inteiro seriam obrigados a estagiar aqui. Observariam como as coisas foram feitas e, pela vida afora, fariam sempre o contrário.

Ok, desculpem. Mau humor não resolve. Mais vale recordar uma boutade de Borges, dita (injustamente, creio) em relação à sua cidade: ‘Buenos Aires é terrivelmente feia. (…) Mas é preferível suportar sua feiúra de perto do que sofrer de saudade dela no exterior’. Entra como uma luva em São Paulo, pois não?
Muita gente assinaria embaixo. São os habitantes de São Paulo que conseguem criar roteiros por vias capilares. Andando a pé nas calçadas, libertados do volante do automóvel, que endurece o pescoço, podemos olhar para os lados e descobrir cafés escondidos, vielas, padarias, antiquários, um barbeiro que só fala japonês, lojas com tudo em vinil, uma discreta oficina de canetas.

O importante é não subir no mirante do Banespa, de onde se enxerga a cidade em 360 graus. Em vez disso, ao rés do chão, buscar essas surpresas mínimas que vicejam nas frestas da feiúra. ‘A vida não é maravilhosa, mas é cheia de pequenas maravilhas’. Esta frase de Guimarães Rosa, como aquela de Borges, também serve para esta cidade. 

Em São Paulo, a beleza precisa ser garimpada. No Rio, tudo se descortina fácil. Lá, suponho, o arquiteto tem a missão de fazer o ambiente externo se projetar, o quanto possível, no ambiente interno. A pessoa se sentirá feliz se for lembrada, a cada instante, de que está no Rio. Aqui, o desafio do arquiteto é nos fazer esquecer que estamos em São Paulo. A força da cidade reside nesse poder de transporte, que se assemelha ao do cinema.

Claro, nem todo mundo se dispõe a garimpar a beleza. Muitos a preferem sob pronta entrega, delivery. Neste caso, nada melhor do que a Baía da Guanabara. Aqui, é no corpo-a-corpo.
Pessoas de lugares distantes sentem um temor respeitoso por São Paulo. Não a criticam abertamente porque não pega bem desprezar um ambiente cosmopolita. Mas sabem, com Carlos Lyra, que feio não é bonito. As pessoas vêm a São Paulo por necessidade: uma reunião, um congresso, um transplante de medula. Nada disso dá samba.

Sendo tão feia, São Paulo só tem uma saída: mostrar serviço. Assim como disse meu amigo (talvez de modo estouvado) em relação às mulheres. Até agora não sei se ele estava falando sério.”

(Renato Modernell, em “Sobre mulheres e cidades”).

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11/03/2009 - 06:10

“A vida é assim, mestre”

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Circular: “(…) Rudá testemunhou o mal-afamado método de direção de De Sica. Ele viu o diretor desferir um tapa na cara de um velhinho porque não havia gostado do jeito que ele andara em cena. ‘Como mandava o neo-realismo, eu tinha apanhado o figurante na rua, e senti aquele tapa como se fosse em mim’, contou.

Em 1954, veio ao Brasil visitar o pai. Mas Oswald morreu nesse ano (aos 64 anos) e Rudá nunca mais retornou à Itália. Deixou para trás uma noiva, filha do poeta Giuseppe Ungaretti. ‘Ele veio passar uma temporada no Brasil e me interpelou: Perché?’, lembrou Rudá. ‘Como eu não tinha mesmo o que dizer, apelei: La vita è cosi, maestro.’ A vida é assim, mestre.”

(Norma Couri em “La vita è cosi, maestro“, texto que homenageia Rudá de Andrade, publicado na revista Piauí).

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10/03/2009 - 06:08

A menos sábia geração de homens

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Circular: “[No início dos tempos] era a fome que trazia a morte; agora, ao contrário, é a abundância que nos destrói. Naquela época, os homens muitas vezes ingeriam veneno por ignorância; hoje em dia, mais bem instruídos, eles se envenenam uns aos outros.” (Lucrécio, século I A.C.)

“Nós deveremos ser lembrados na história como a mais cruel, e portanto a menos sábia, geração de homens que jamais agitou a Terra: a mais cruel em proporção à sua sensibilidade, a menos sábia em proporção à sua ciência. Nenhum povo, entendendo a dor, tanto a infligiu; nenhum povo, entendendo os fatos, tão pouco agiu com base neles.” (John Ruskin, 1872).

(Via “O Livro das Citações”).

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09/03/2009 - 06:09

“Por que proclamar a tristeza inútil diante das coisas que secretamente e melhor compreendo?”

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Circular: “Por que hei de agradar o rude sofrimento e mais rude torná-lo, na desesperança? Por que proclamar a tristeza inútil diante das coisas que secretamente e melhor compreendo? Não falarei do desamparo que finamente aperta os dedos na garganta. Não citarei o sentimento peculiar aos que têm propensão para o desengano e, mais do que nunca, ao crepúsculo, sentem-se traídos e ultrajados sem motivo. Não mais me referirei a estados de alma que nada contêm além de um vazio cinzento e interminável, um abismo de sombra e de abstrato, onde a tristeza rumina o seu cadáver.

Todos os gestos seriam inúteis. Nada salva e tudo nos perde e atraiçoa. O temor sustenta minhas interrogações e de repente me sinto só, perdidamente só e anterior a todos, como se ninguém mais houvesse. Tudo desaparece na refração das águas da memória. Vejo as imagens deformadas, mas que persistem, fantasmas íntimos. Rio e já não entendo; choro e me dilacero lentamente no tempo em que tudo está pesadamente mergulhado. Não grito porque o hábito se forma e o pudor defende. Conheço e entendo. Algumas vezes adivinho, mas não devasso. O que sabe deve calar-se para não ferir. Se digo, as palavras nada significam senão 0 prazer de proferi-las e achá-las bem achAdas, não para que exprimam, mas simples jogo colorido que diverte. Não proporei normas, nem direi o que abomino. Deu-nos Deus a palavra para melhor silenciar. No inarticulado, me descubro um homem, com um nome, certos hábitos, fisionomia, alguns cacoetes e muitas possibilidades. Mas sobretudo vivendo por conta própria. Foi um ato irresponsável confiar-me a mim mesmo. Meu destino gira nos meus dedos. Não me pertenço e nem me encontro. O tormento da lembrança, como cãibra, paralisa os gestos e sobrepõe ao que é o que já foi. Calculadamente percorro o caminho da fatalidade, onde os abismos espreitam e aguardam a imagem quebrada, e cem vezes traída.”

(Otto Lara Resende em “Balanço”).

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06/03/2009 - 06:07

“Exageros de mãe”

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Circular: “Já te disse mais de mil vezes que não quero ver você descalço. Nunca vi uma criança tão suja em toda a minha vida. Quando teu pai chegar você vai morrer de tanto apanhar. Oh, meu Deus do céu, esse menino me deixa completamente maluca. Estou aqui há mais de um século esperando e o senhor não vem tomar banho. Se você fizer isso outra vez nunca mais me sai de casa. Pois é, não come nada: é por isso que está aí com o esqueleto à mostra. Se te pegar outra vez mexendo no açucareiro, te corto a mão. Oh, meu Deus, eu sou a mulher mais infeliz do mundo. Não chora desse jeito que você vai acordar o prédio inteiro. Você pensa que seu pai só trabalha pra você chupar Chica-Bon? Mas, furou de novo o sapato: você acha que seu pai é dono de sapataria, pra lhe dar um sapato novo todo dia? Onde é que você se sujou dessa maneira: acabei de lhe botar essa roupa não faz cinco minutos! Passei a noite toda acordada com o choro dele. Eu juro que um dia eu largo isso tudo e nunca ninguém mais me vê. Não se passa um dia que eu não tenha que dizer a mesma coisa. Não quero mais ver você brincando com esses moleques, esta é a última vez que estou lhe avisando.”

(Millôr Fernandes em “10 em humor”). Para ilustrar o post, “Universal Gym”, trabalho de Thomas Hirschhorn.

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05/03/2009 - 06:07

“Me envolvi com Jack Kerouac”

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Circular: “Não me importo a mínima que você não tenha me ligado hoje. Na verdade, eu só ia gastar um pouco do meu tempo com você, porque quem eu realmente queria encontrar hoje era Jack Kerouac. Pouco importa como ele estivesse, o que eu sei é que ia encarar. Sei que todas as suas mulheres, ao menos aquelas a quem ele permitiu que se vissem como tal, tinham a esperança de salvá-lo. Eu não, o que eu quero é me perder com ele e por ele. Quero sentir a solidão gelada do azul profundo dos olhos dele e me aconchegar nele próprio, ficar bem quieta sentindo o cheiro da pele morena, até ele inventar uma desculpa, sem coragem de me encarar e sair assim meio de lado, como sempre faz. Ele dá uma desculpa, falando tão baixo, que nunca tenho certeza se está mesmo querendo dizer alguma coisa. Me dá vontade de dizer, o que você falou, Jack? Mas aí eu ia quebrar esse trato que parece que fizemos. Ele ia ficar sem graça e tão triste, que é o seu jeito de ficar bravo. Podia até ser que ele ficasse, mas só de corpo presente e isso eu não suporto, esse é o único fantasma do qual tenho medo.

Vai demorar uns dias, às vezes meses pra ele voltar. Ele vai cheirar outras fulanas como é de hábito. Mas, em alguma noite, vai sentir saudade e escrever de mim. Quando me descreveu lendo no sofá, nasceu um quadro lindo, que eu gostaria de poder ter pintado e pendurado ali, em cima dele mesmo.Eu estava de mocassim e de calças de veludo cotelê castor. Jack escreve de mim quando está longe. Imagino as pessoas deitadas em suas camas, numa poltrona de ônibus ou no sofá da sala lendo meu nome, lendo as coisas que ele fala de mim. É como ser amada no plural.

Jack me ama como ama outras coisas amadas. Amou por seis minutos uma garota mexicana, até que o irmão dela lhe disse o preço, então ele chorou. Na mesma noite estava tão bêbado que não lembra o nome da mulher que o beijou até altas horas, também não se lembra como chegou à hospedaria. Amou o Pico Desolation, não mais que Japhi, mas o amou em nome dele. Sei que pode parecer estranho o que vou dizer, mas ele é fiel, tem amor de menino pelas coisas e pelas pessoas. Tem essa coisa obstinada de caminhar pra casa e de fugir pro mundo, mas tem que ter uma casa plantada ali, de Gabrielle, ou a nossa, ou a minha, sei lá, às vezes eu não sei mais onde ele mora.

Você não vir não é nada, mas, quando Jack não está em casa, está na platéia de um cair da tarde enigmática de uma cidadezinha que já foi bela, ou se escondendo dos guardas para dormir no mato, em seu saco de dormir, depois de fazer a própria comida e tomar um vinho barato. Ele está olhando as pessoas, de fora para dentro e cruzando sua vida com a delas, está sacolejando num trem e tem um outro cara ali, vagabundo como ele, e eles conversam. É capaz de sair conversando com um amigo e voltar muitas horas depois, ainda conversando.

Ele é o cara, entre todas as pessoas que conheci, que chegou mais perto de estar vivo. Ele está vivo, embora quieto, muitas vezes chapado e, quase todas, bêbado. Mas algum tempo com ele — mesmo quando ele vem e não passa mais que dois dias — me faz sentir como uma princesa negra de New Orleans. É possível fazê-lo comer um pouco de comida caseira em uma noite sem bebida e saber que naquela noite Jack não estará no mundo. Todos os descompromissos de Jack estão cancelados e ele dorme, não no trem, mas ao meu lado,na cama; não na rebordosa da benzedrina, mas vencido pelo jantar e aquecido por dentro. Todos os amigos, os encontros, os livros, os poemas e os poetas, assim como os mapas, a meditação e o Tao vão esperar. O mundo fica lá fora e eu sei que parece bobagem, mas eu me encho de orgulho, de ser o único par de olhos pousado sobre esse homem, enquanto dorme.”

(Renata Machado, “Me envolvi com Jack Kerouac”, do arquivo do escritor Renato Modernell). A imagem eu tirei daqui, graças a uma dica do Bruno.

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04/03/2009 - 06:11

“Ser adulto é saber manter-se em pé”

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Circular: “Nada como o Império Romano. Sua estatuária continua uma lição deliciosa e definitiva não sobre Roma, mas sobre nós. Afinal, pouco importa se todos aqueles imperadores, aqueles filósofos e aqueles soldados eram mais inteligentes ou mais ingênuos, melhores ou piores que nós. Eles eram maiores – e isso é tudo que pode importar. Suas estátuas mostravam homens que olhavam, ao mesmo tempo, para longe e para o alto. Exatamente o contrário de nós, que adoramos olhar para baixo – como sinal de reflexão – ou, o que é muito pior, para nós mesmos – como sinal de sabedoria. Os romanos olhavam para a frente. Para eles, as formas humanas retorcidas, fosse pela dor ou pelo desejo, de um Bernini ou um Rodin, não poderiam soar mais que como uma fantasia muito pouco saudável. A sabedoria era uma postura.

A postura são os ombros. Por toda parte se repete que a palavra grega que exprimia o que nós chamamos, com certa flexibilidade, de natureza, estava ligada a um verbo phýein, cujo sentido original definia o nascimento e o crescimento. Crescer implica invariavelmente um movimento para o alto, para cima: ser adulto é saber manter-se em pé. Nosso impulso mais profundamente natural não é para o amor ou o contrato social; é para o alto. Com os romanos, acabamos perdendo a única qualidade que talvez nos defina de vez como homens: o orgulho. Toda a arte bizantina parece um murmúrio velado lamentando essa perda.

O Renascimento substitui a postura pelo olhar: com a difusão sintomática de um gênero novo, a estátua eqüestre, a imponência pagã dos ombros foi transferida para o corpulento, afetado vigor da anatomia dos cavalos. Ficamos reduzidos a admirar patas: era nosso único modelo de bem-aventurada arrogância. Foi uma operação desastrosa – e que nos fez esquecer, com o tempo, que nossa natureza não é nossa alma, nem nossos sonhos, nem nosso inconsciente, nem nossa história. Nossa natureza é nossa postura. Nosso temperamento é definido, rigorosamente, por nossa coluna vertebral. Ombros esticados e nucas eretas são nossa única garantia contra o desespero: a coragem é uma forma de ginástica.

A postura, por isso, é muito mais importante que o olhar. Muito menos que janelas – como insiste, com retumbante estupidez, certo folclore recente -, os olhos não passam de espelhos opacos, vulgares e sem utilidade: em vez de nos permitirem vislumbrar os segredos dos outros, só nos fazem recair sobre nossa própria imagem, distorcida. O que costuma levar todos a suspirar, quando mencionam o olhar de alguém, é só uma armadilha romântica alimentada pela arte e pela fenomenologia que começou com o Barroco e terminou como o vício de estilo preferido do Actor’s Studio; o que começou com Las Meninas, de Velázquez, terminou nos doses de Montgomery Clift em Um Lugar ao Sol. Hipnotizados por tanta literatura, estamos condenados não mais a ver, mas a ouvir, por toda parte, os olhares de todos: como se fosse o elenco amador de alguma fábula barata que insiste em freqüentar, a contragosto, nossos piores sonhos, os olhares nos falam, nos comandam, nos insinuam e nos suplicam com a tagarelice compulsiva de um poeta histérico; não é por acaso que o olhar continue o fetiche predileto da psicanálise e do melodrama. Muito mais elegante que nosso Sturm und Drang cotidiano, o teatro clássico preferia transformar a tragédia num impasse a ser resolvido por gestos e máscaras, nunca por rostos. A suposta profundidade do olhar – como toda profundidade – é só outra ilusão. O profundo é a pele.

Nossa relação com os sentidos, historicamente, pode sofrer todo tipo de alteração; o tato permanece uma alegria e um mistério. Num capítulo inesquecível de um livro célebre por razões erradas, Maquiavel resumiu boa parte da melancolia de nossos hábitos com uma fórmula simples e preciosa: “a maioria dos homens julga mais pelos olhos que com as mãos”; e conclui – “tutti vedono e pochi toccano con mano”. É fácil ver o que os outros parecem; ninguém toca no que os outros são. A postura dos imperadores romanos promoveu a escultura à condição de única arte respeitável; o bronze, o mármore e a pedra foram por muito tempo a encarnação exclusiva e tangível do poder. Como o último e mais perfeito herdeiro do Império Romano, Maquiavel fez questão de deixar bem claro uma de suas mais fundas certezas: a sabedoria se conquista com as mãos, não com os olhos. Nossos músculos transformam o tato numa estética.

Por isso, se o olhar é um espelho sujo e oco, a postura são colunas. Sua força não é retórica, mas arquitetônica. Conciliar a verticalidade ao movimento foi um triunfo do corpo.

“Em toda minha vida, só encontrei uma ou duas pessoas que conhecessem a fundo a arte de se andar a pé”, escreveu Henry David Thoreau, que costumava andar muito, perto de um lago famoso. O mais fundamental de nossos atos, andar é um exercício que determina as linhas não de nossos caminhos, mas de nossos músculos. Na Idade Média, os mendigos que percorriam a Inglaterra pedindo esmolas alegando estar se dirigindo à Terra Santa costumavam ser chamados pelas crianças inglesas de “Sainte-Terrer”: “Aí vai outro Sainte-Terrer”, elas repetiam, rindo. A expressão deu origem ao verbo to saunter – perambular – e poucas etimologias podem sugerir uma moral tão perfeita: é bem provável que, no fundo, todo mundo que passeie sem rumo esteja, mesmo sem saber, procurando o Paraíso.

No primeiro livro da Eneida, quando, perto de Cartago, uma caçadora se transforma em deusa, é por seu andar que sua divindade se revela; no Mahabharata, um dos cinco sinais pelos quais se podem reconhecer os deuses, é justamente a habilidade de deslizar pela terra, sem tocá-la. Se andar pode revelar o sagrado, a conclusão é inevitável – o sublime é o palpável.

Que ninguém saiba nada sobre nada é um ponto mais que pacífico entre pessoas educadas; na lista infinita de tudo que me escapa olimpicamente à compreensão, ninguém ocupa lugar mais privilegiado que o Dr. Lacan. Nunca fui capaz de entender uma linha do que o Dr. Jacques Lacan escreveu, disse, sugeriu ou ensinou. Numa conferência sua no Instituto de Tecnologia de Massachussetts, entretanto, com uma platéia liderada pelo professor Chomsky, o Dr. Lacan, confesso, me surpreendeu. Perguntado sobre certos processos do pensamento, sua reposta foi extraordinariamente direta: “Todos nós acreditamos que pensamos com o cérebro”, ele disse. E completou: “Eu penso com meus pés”. Nesse momento, para meu espanto, eu o compreendi.

O Dr. Freud, afinal, nunca pensou com os pés. Wilhelm Reich ensaiou pensar com os olhos. E, no entanto, continuamos caminhando.”

(Sérgio Augusto de Andrade em “O verbo à flor da pele”, texto do baú de 1998).

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03/03/2009 - 06:07

“Julgar-se é levar-se a sério demais”

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Circular: “À humildade às vezes falta simplicidade, por causa dessa duplicação de si para si que ela supõe. Julgar-se é levar-se a sério demais. O simples não se questiona tanto assim sobre si mesmo. Porque se aceita como é? Já seria dizer demais. Ele não se aceita nem se recusa. Não se interroga, não se contempla, não se considera. Não se louva nem se despreza. Ele é o que é, simplesmente, sem desvios, sem afetação, ou antes — pois ser lhe parece uma palavra grandiosa demais para tão pequena existência –, faz o que faz, como todos nós, mas não vê nisso matéria para discursos, para comentários, nem mesmo para reflexão. Ele é como os passarinhos de nossa floresta, leve e silencioso sempre, mesmo quando canta, mesmo quando pousa. O real basta ao real, e essa simplicidade é o próprio real. Assim é o simples: um indivíduo real, reduzido à sua expressão mais simples. O canto? O canto, às vezes; o silêncio, mais frequentemente; a vida, sempre. O simples vive como respira, sem maiores esforços nem glória, sem maiores efeitos nem vergonha. A simplicidade não é uma virtude que se some à existência. É a própria existência, enquanto nada a ela se soma. Por isso é a mais leve das virtudes, a mais transparente e a mais rara. É  o contrário da literatura: é a vida sem frases e sem mentiras, sem exagero, sem grandiloquência. É a vida insignificante, a verdadeira vida.

A simplicidade é o contrário da duplicidade, da complexidade, da pretensão. Por isso é tão difícil. Não é sempre dupla a consciência, que só é consciência de alguma coisa? Não é sempre complexo o real, que só é real pelo entrelaçamento em si das causas e das funções? Não é sempre pretensioso todo homem, assim que se esforça para pensar? Que outra simplicidade além da tolice? da inconsciência? do nada?

O homem simples pode não fazer essas indagações. O que não as anula, nem nos basta para resolvê-las. Simplicidade não é simploriedade. (…)”

(André Comte-Sponville, “Pequeno Tratado das Grandes Virtudes”). Para ilustrar, trabalho de Piero Manzoni (“Base magica — scultura vivente”).

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