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06/11/2008 - 06:04

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Circular: “Só não somos completamente ruins porque sabemos que somos ruins. Essa é a grande qualidade brasileira, nosso único motivo de orgulho – o fato de sabermos que não temos motivo algum de ter orgulho e que, comparando com as demonstrações de patriotismo repulsivo e babaquinha dos outros países, somos até um pouquinho cool.

Repare como os outros países acham erótico ver mulheres peladas enroladas na bandeira deles. Nós broxaríamos. Aquele losango amarelo nos causa um esgar de sabedoria antipatriótica que os outros países são incapazes de alcançar.

Eu sei, alguns de nós são cheios de patriotismo babaquinha: quando vêem um time africano jogando bem dizem que eles têm um futebol quase como o brasileiro (quase, quase, mas têm ainda muito que aprender); ou entram em fóruns de discussão e xingam alguém de entreguista e puxa-saco dos americanos (gente, temos que valorizar o que é nosso. Viva Pagu! Viva Mestre Pastinha!). Essas pessoas são os verdadeiros inimigos do país, por atacar o que o país tem de melhor: o hábito de se achar uma titica.

Essas pessoas existem e fazem barulho, mas são poucas. Somos uma nação de pessoas incapazes de não zombar daquele filme sobre a independência, com Tarcísio Meira. E enquanto tivermos alguma sanidade continuaremos zombando de todos os filmes sobre a nossa independência, mesmo que não tenham Tarcísio Meira.

Os americanos não, cometem a gafe de fazer filmes patrióticos um atrás do outro. Ah, eles têm razão de se sentirem orgulhosos. Cinismo no caso deles pegaria mal; só um americano idiota pode ser um americano cínico. Mas deviam ter o gosto de conter um pouco o orgulho, mostrá-lo um pouco menos – só por bom gosto mesmo. Deviam ter uma atitude mais leve em relação ao sucesso do próprio país: algo mais perto de um fleumático ‘Well done! Good form, good form.’ Não são capazes, e vivem constrangendo o mundo com seu orgulho justificado mas fundamentalmente boçal. E o resto do mundo corresponde sendo igualmente grotesco: o chauvinismo francês competindo com o chauvinismo argentino, etc.” (Alexandre Soares Silva, num post de 2004).

Autor: - Categoria(s): circular Tags: ,
17/10/2008 - 06:40

“A casta secreta dos homens de bom gosto”

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Um ótimo post de Alexandre Soares Silva, lá no blog dele: “A casta secreta dos homens de bom gosto”. Recomendo. Vale reproduzir um trecho aqui (abaixo). Na época em que eu trabalhava na revista Bravo, os ensaios dele que publicamos — uns 10, em 2006 e 2007, sempre muito bem escritos — tinham a capacidade de provocar nos leitores reflexões inteligentes. Segue um trecho:

“Me ocorre algo que não é possível provar, que em cada geração os homens mais inteligentes não sentem a necessidade da fama, e que portanto permanecem secretos. Digamos assim, em cada geração há uma casta secreta de homens de bom gosto existindo ao mesmo tempo que a casta aparente.

Entre a casta aparente, uns poucos têm talento, e uma maioria são imbecis. Entre os imbecis estão a maior parte dos escritores e jornalistas conhecidos de cada época, por mais respeitados que sejam. Eles não se dedicam de fato à vida da mente, mas enganam durante algum tempo, e talvez a eles mesmos; ou talvez até se dediquem à vida da mente, mas imbecilmente, que é o que podem fazer com a mente que eles têm.

Entre a casta secreta estão só as pessoas que genuinamente se dedicam à vida da mente, mas que nasceram sem a necessidade de tornar o próprio nome famoso. Alguns deles publicam um livro, mas não fazem nenhum esforço para promovê-lo, ou para publicar um segundo; outros publicam dois ou três, mas só espalham entre amigos; outros escrevem um ou outro artigo para jornal, talvez um jornal de associação profissional ou algo igualmente obscuro; outros escrevem cartas, ou livros que deixam na gaveta.

Minha idéia é que essas cartas, esses livros que ficaram na gaveta, essas conversas que os membros da casta secreta tiveram uns com os outros, são em cada geração a verdadeira vida civilizada existente, e não as obras-primas visíveis e conhecidas – ou pelo menos não só elas. (…)”

Para ilustra este post, a obra “Family Lamp“, do Atelier Van Lieshout.

Autor: - Categoria(s): cultura Tags: ,
07/08/2008 - 06:14

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Circular: “Li em algum lugar que não se pode basear uma crítica no ‘mero gosto pessoal’. Mas por que não? De onde vem esse tipo de crença tão austera, tão adultinha?

As pessoas que escrevem para jornais e revistas vão ficando tão sérias — afinal é a profissão delas, algo relacionado com salário e aluguel, sindicatos e dívidas no cartão de crédito — que esquecem um pouco o que elas mesmas gostavam de ler quando eram só leitores. Eu sei porque ainda ganho tão pouco dinheiro escrevendo que o dinheiro e sua seriedade horrenda não tiveram tempo de deformar minhas lembranças.

Pessoas normais, depois de ter visto um filme, querem saber o que outras pessoas acharam. Sim, a ‘mera opinião pessoal’. Você nunca saiu do cinema perguntando à sua amiga se ela gostou do filme? Ou acha que fazer crítica é algo assim tão mais elevado e complexo do que um amigo na saída do cinema dizendo para o outro o que achou do filme?

Como leitor, se me perguntarem, crítica é isso: sua opinião pessoal, bem escrita. Não precisa nem ser particularmente inteligente, nem justa, nem madura, nem isenta, e nem bem pensada. Todos esses adjetivos são mencionados por gente pomposa como necessários a uma boa crítica, mas eu sentado neste sofá, lendo esta revista aqui, enfaticamente não concordo. Ela só tem de ser bem escrita. Seria bom se a sua opinião coincidisse com a minha, mas nem isso é realmente necessário.

Me diga se gostou ou não! Literatura, pintura, música e cinema não são ciências, ó Newton dos animês, Pasteur dos versos livres, Madame Curie do cinema do Irã, que lê romances com um avental branco no espírito, todo manchado de Derrida. Nunca entendi pessoas que estudam romances ao invés de simplesmente lerem. Dê uma frase de Nabokov para uma besta e ela não lê, ela estuda. Mexendo os lábios, fazendo tabelinhas. Essa é a minha definição de filisteu: quem, podendo ler, estuda. E essa é a minha definição de cavalheiro: quem, podendo estudar, lê.

Se estamos falando de arte, o prazer não deveria estar muito longe. Então me diga logo se se divertiu ou não, nos termos os mais divertidos possíveis. Você lê uma crítica sobre Kafka e percebe que o crítico quer dar a impressão de ter sido sublimemente iluminado sobre questões envolvendo a identidade humana, a trajetória dos homens na terra, o absurdo da existência, o destino trágico da Europa — todas reações apropriadas, sem dúvida, se você pertence ao tipo de leitor para mim repulsivo que aprende coisas com romances. Mas o tom com que o crítico diz isso não nos deixa perceber que ele jamais tenha caído no sofá excitado pela perspectiva de ler mais um capítulo de A Metamorfose, ou que seu pulso tenha se acelerado um pouquinho — e que além de ter compreendido o processo de leitura, ele tenha simplesmente gostado dele.

Amor viril

E isso me leva a outra coisa que nunca entendo em críticos: por que eles nunca dizem que amam alguma coisa? É ser simplório demais, é isso? Há críticos que veneram Kafka, sem dúvida; que o chamam de ‘figura seminal’, que comparam qualquer coisa no mundo com ele e que pensam nele o tempo todo — mas qual a dificuldade em dizer, digamos, que olham o rosto dele com amor quando o vêem numa fotografia? Muitos me dão a impressão que olham o rosto dele como eu olhava a folha ainda não preenchida da lição de casa num domingo à noite.

O roteirista e cineasta David Mamet, uns anos atrás, escreveu isto no The New York Times sobre um personagem menor do autor inglês Patrick O’Brian: ‘Não vou dizer que chorei por causa da morte dele, mas também não vou dizer que não chorei’. Acho isso muito bom. É a única forma de crítica que eu quero ler: não necessariamente um crítico que chore sempre, claro (Santo Agostinho também chorou pela morte de Dido, caso você esteja achando essa confissão inapelavelmente lowbrow), mas que tenha uma reação humana qualquer. Mas por que foi preciso que um autor de teatro dissesse isso, e não um crítico?

Da minha parte eu amo o rosto de C. S. Lewis (virilmente, virilmente) e o de Chesterton (há algo de errado em quem não ama Chesterton), e Borges, pelo qual sinto vontade de voltar no tempo para lhe dar uma mesada que o deixasse livre de trabalhar, e Fernando Pessoa (idem). Walt Whitman, claro, que desavergonhadamente pede para ser amado. A lista é grande, como também a dos personagens que amei: Emília, Dom Quixote, Pedro Bezúkov, Tom Ripley, Philip Marlowe, Emma Woodehouse, Sherlock Holmes, Aslan, etc.

E também a lista dos livros que me deixaram feliz; o relacionamento entre leitura e felicidade é outra coisa que poucos críticos mencionam, como se eles não tivessem a memória de certas tardes lendo Stevenson ou M. R. James. Se a minha estante desabasse agora e eu morresse soterrado pelas Obras Completas de George Eliot (honestamente preferia que outro autor me matasse), o que me passaria pela cabeça como os melhores momentos da minha vida seriam algumas tardes lendo certos livros e vendo certos filmes, das quais conservo também a memória do tempo lá fora, da companhia que tinha à minha volta e do cachorro dormindo no tapete. Na verdade não há nada de que eu gostasse de falar tanto quanto de cada uma dessas tardes, e é por isso que eu não entendo o motivo dos críticos nunca falarem disso.

Quantas vezes amigos meus não me disseram que interromperam a leitura de algum romance para dar um abraço no livro? Para falar a verdade só duas, mas eu mesmo beijei a capa do Exploits and Adventures of Brigadier Gerard de Conan Doyle na semana passada. E qual o ponto de comparar Goethe com o que quer que seja, se você não ama Goethe nem o que quer que seja?

No shopping e no sofá

Sou eu a única pessoa que quer saber alguma coisa das condições físicas em que o livro foi lido? Se num sofá, o crítico de meia? Se numa rede, descalço, comendo uva? Sou eu a única pessoa que quer ver uma personalidade por trás do texto, tendo um tom de voz um pouco mais próximo do de uma pessoa normal? Lendo crítica de cinema, às vezes queria que o crítico dissesse que viu o filme no shopping tal, na companhia da namorada que dormiu no meio. Que depois passearam pelo shopping e viram equipamento de cozinha numa loja, enquanto discutiam o filme. Mas críticos não podem ir ver filmes no shopping com a namorada, a arte de Tarkowski não resistiria a tamanha burguesice.

Mas eu compreendo. Quando alguém escreve que passou um dia de chuva ‘enrolado num cobertor, tomando chocolate e lendo ***’, geralmente é seguro apostar que a frase termina com ‘Agatha Christie’ e não ‘James Joyce’. Mencionar a felicidade de passar uma tarde lendo é um hábito quase exclusivo de senhoras gordinhas que lêem livros de crimes solucionados por gatos. Críticos não querem ser confundidos com essas pessoas, compreensivelmente; então vão para o oposto completo e deixam de fazer tudo que elas fazem. Não amam mais personagens, não choram pela morte deles, e nem sequer gostam mais de ler. Tudo isso é simplório demais. Tudo isso é para a senhora gordinha.

Se perceberem que a senhora gordinha respira, deixam de respirar. Mas olha, se apenas ela aprendesse a escrever melhor, e gostasse de uns livros melhorzinhos, eu juro que só lia a senhora gordinha. Ela pode escrever mal, mas não pior do que metade dos críticos que leio; e, ao contrário deles, ela encontrou o Método Perfeito. (Alexandre Soares Silva, “Gostou ou não?”, texto publicado originalmente na revista Bravo em setembro de 2006).

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07/08/2008 - 06:14

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Circular: “Li em algum lugar que não se pode basear uma crítica no ‘mero gosto pessoal’. Mas por que não? De onde vem esse tipo de crença tão austera, tão adultinha?

As pessoas que escrevem para jornais e revistas vão ficando tão sérias — afinal é a profissão delas, algo relacionado com salário e aluguel, sindicatos e dívidas no cartão de crédito — que esquecem um pouco o que elas mesmas gostavam de ler quando eram só leitores. Eu sei porque ainda ganho tão pouco dinheiro escrevendo que o dinheiro e sua seriedade horrenda não tiveram tempo de deformar minhas lembranças.

Pessoas normais, depois de ter visto um filme, querem saber o que outras pessoas acharam. Sim, a ‘mera opinião pessoal’. Você nunca saiu do cinema perguntando à sua amiga se ela gostou do filme? Ou acha que fazer crítica é algo assim tão mais elevado e complexo do que um amigo na saída do cinema dizendo para o outro o que achou do filme?

Como leitor, se me perguntarem, crítica é isso: sua opinião pessoal, bem escrita. Não precisa nem ser particularmente inteligente, nem justa, nem madura, nem isenta, e nem bem pensada. Todos esses adjetivos são mencionados por gente pomposa como necessários a uma boa crítica, mas eu sentado neste sofá, lendo esta revista aqui, enfaticamente não concordo. Ela só tem de ser bem escrita. Seria bom se a sua opinião coincidisse com a minha, mas nem isso é realmente necessário.

Me diga se gostou ou não! Literatura, pintura, música e cinema não são ciências, ó Newton dos animês, Pasteur dos versos livres, Madame Curie do cinema do Irã, que lê romances com um avental branco no espírito, todo manchado de Derrida. Nunca entendi pessoas que estudam romances ao invés de simplesmente lerem. Dê uma frase de Nabokov para uma besta e ela não lê, ela estuda. Mexendo os lábios, fazendo tabelinhas. Essa é a minha definição de filisteu: quem, podendo ler, estuda. E essa é a minha definição de cavalheiro: quem, podendo estudar, lê.

Se estamos falando de arte, o prazer não deveria estar muito longe. Então me diga logo se se divertiu ou não, nos termos os mais divertidos possíveis. Você lê uma crítica sobre Kafka e percebe que o crítico quer dar a impressão de ter sido sublimemente iluminado sobre questões envolvendo a identidade humana, a trajetória dos homens na terra, o absurdo da existência, o destino trágico da Europa — todas reações apropriadas, sem dúvida, se você pertence ao tipo de leitor para mim repulsivo que aprende coisas com romances. Mas o tom com que o crítico diz isso não nos deixa perceber que ele jamais tenha caído no sofá excitado pela perspectiva de ler mais um capítulo de A Metamorfose, ou que seu pulso tenha se acelerado um pouquinho — e que além de ter compreendido o processo de leitura, ele tenha simplesmente gostado dele.

Amor viril

E isso me leva a outra coisa que nunca entendo em críticos: por que eles nunca dizem que amam alguma coisa? É ser simplório demais, é isso? Há críticos que veneram Kafka, sem dúvida; que o chamam de ‘figura seminal’, que comparam qualquer coisa no mundo com ele e que pensam nele o tempo todo — mas qual a dificuldade em dizer, digamos, que olham o rosto dele com amor quando o vêem numa fotografia? Muitos me dão a impressão que olham o rosto dele como eu olhava a folha ainda não preenchida da lição de casa num domingo à noite.

O roteirista e cineasta David Mamet, uns anos atrás, escreveu isto no The New York Times sobre um personagem menor do autor inglês Patrick O’Brian: ‘Não vou dizer que chorei por causa da morte dele, mas também não vou dizer que não chorei’. Acho isso muito bom. É a única forma de crítica que eu quero ler: não necessariamente um crítico que chore sempre, claro (Santo Agostinho também chorou pela morte de Dido, caso você esteja achando essa confissão inapelavelmente lowbrow), mas que tenha uma reação humana qualquer. Mas por que foi preciso que um autor de teatro dissesse isso, e não um crítico?

Da minha parte eu amo o rosto de C. S. Lewis (virilmente, virilmente) e o de Chesterton (há algo de errado em quem não ama Chesterton), e Borges, pelo qual sinto vontade de voltar no tempo para lhe dar uma mesada que o deixasse livre de trabalhar, e Fernando Pessoa (idem). Walt Whitman, claro, que desavergonhadamente pede para ser amado. A lista é grande, como também a dos personagens que amei: Emília, Dom Quixote, Pedro Bezúkov, Tom Ripley, Philip Marlowe, Emma Woodehouse, Sherlock Holmes, Aslan, etc.

E também a lista dos livros que me deixaram feliz; o relacionamento entre leitura e felicidade é outra coisa que poucos críticos mencionam, como se eles não tivessem a memória de certas tardes lendo Stevenson ou M. R. James. Se a minha estante desabasse agora e eu morresse soterrado pelas Obras Completas de George Eliot (honestamente preferia que outro autor me matasse), o que me passaria pela cabeça como os melhores momentos da minha vida seriam algumas tardes lendo certos livros e vendo certos filmes, das quais conservo também a memória do tempo lá fora, da companhia que tinha à minha volta e do cachorro dormindo no tapete. Na verdade não há nada de que eu gostasse de falar tanto quanto de cada uma dessas tardes, e é por isso que eu não entendo o motivo dos críticos nunca falarem disso.

Quantas vezes amigos meus não me disseram que interromperam a leitura de algum romance para dar um abraço no livro? Para falar a verdade só duas, mas eu mesmo beijei a capa do Exploits and Adventures of Brigadier Gerard de Conan Doyle na semana passada. E qual o ponto de comparar Goethe com o que quer que seja, se você não ama Goethe nem o que quer que seja?

No shopping e no sofá

Sou eu a única pessoa que quer saber alguma coisa das condições físicas em que o livro foi lido? Se num sofá, o crítico de meia? Se numa rede, descalço, comendo uva? Sou eu a única pessoa que quer ver uma personalidade por trás do texto, tendo um tom de voz um pouco mais próximo do de uma pessoa normal? Lendo crítica de cinema, às vezes queria que o crítico dissesse que viu o filme no shopping tal, na companhia da namorada que dormiu no meio. Que depois passearam pelo shopping e viram equipamento de cozinha numa loja, enquanto discutiam o filme. Mas críticos não podem ir ver filmes no shopping com a namorada, a arte de Tarkowski não resistiria a tamanha burguesice.

Mas eu compreendo. Quando alguém escreve que passou um dia de chuva ‘enrolado num cobertor, tomando chocolate e lendo ***’, geralmente é seguro apostar que a frase termina com ‘Agatha Christie’ e não ‘James Joyce’. Mencionar a felicidade de passar uma tarde lendo é um hábito quase exclusivo de senhoras gordinhas que lêem livros de crimes solucionados por gatos. Críticos não querem ser confundidos com essas pessoas, compreensivelmente; então vão para o oposto completo e deixam de fazer tudo que elas fazem. Não amam mais personagens, não choram pela morte deles, e nem sequer gostam mais de ler. Tudo isso é simplório demais. Tudo isso é para a senhora gordinha.

Se perceberem que a senhora gordinha respira, deixam de respirar. Mas olha, se apenas ela aprendesse a escrever melhor, e gostasse de uns livros melhorzinhos, eu juro que só lia a senhora gordinha. Ela pode escrever mal, mas não pior do que metade dos críticos que leio; e, ao contrário deles, ela encontrou o Método Perfeito. (Alexandre Soares Silva, “Gostou ou não?”, texto publicado originalmente na revista Bravo em setembro de 2006).

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As pessoas que escrevem para jornais e revistas vão ficando tão sérias — afinal é a profissão delas, algo relacionado com salário e aluguel, sindicatos e dívidas no cartão de crédito — que esquecem um pouco o que elas mesmas gostavam de ler quando eram só leitores. Eu sei porque ainda ganho tão pouco dinheiro escrevendo que o dinheiro e sua seriedade horrenda não tiveram tempo de deformar minhas lembranças.

Pessoas normais, depois de ter visto um filme, querem saber o que outras pessoas acharam. Sim, a ‘mera opinião pessoal’. Você nunca saiu do cinema perguntando à sua amiga se ela gostou do filme? Ou acha que fazer crítica é algo assim tão mais elevado e complexo do que um amigo na saída do cinema dizendo para o outro o que achou do filme?

Como leitor, se me perguntarem, crítica é isso: sua opinião pessoal, bem escrita. Não precisa nem ser particularmente inteligente, nem justa, nem madura, nem isenta, e nem bem pensada. Todos esses adjetivos são mencionados por gente pomposa como necessários a uma boa crítica, mas eu sentado neste sofá, lendo esta revista aqui, enfaticamente não concordo. Ela só tem de ser bem escrita. Seria bom se a sua opinião coincidisse com a minha, mas nem isso é realmente necessário.

Me diga se gostou ou não! Literatura, pintura, música e cinema não são ciências, ó Newton dos animês, Pasteur dos versos livres, Madame Curie do cinema do Irã, que lê romances com um avental branco no espírito, todo manchado de Derrida. Nunca entendi pessoas que estudam romances ao invés de simplesmente lerem. Dê uma frase de Nabokov para uma besta e ela não lê, ela estuda. Mexendo os lábios, fazendo tabelinhas. Essa é a minha definição de filisteu: quem, podendo ler, estuda. E essa é a minha definição de cavalheiro: quem, podendo estudar, lê.

Se estamos falando de arte, o prazer não deveria estar muito longe. Então me diga logo se se divertiu ou não, nos termos os mais divertidos possíveis. Você lê uma crítica sobre Kafka e percebe que o crítico quer dar a impressão de ter sido sublimemente iluminado sobre questões envolvendo a identidade humana, a trajetória dos homens na terra, o absurdo da existência, o destino trágico da Europa — todas reações apropriadas, sem dúvida, se você pertence ao tipo de leitor para mim repulsivo que aprende coisas com romances. Mas o tom com que o crítico diz isso não nos deixa perceber que ele jamais tenha caído no sofá excitado pela perspectiva de ler mais um capítulo de A Metamorfose, ou que seu pulso tenha se acelerado um pouquinho — e que além de ter compreendido o processo de leitura, ele tenha simplesmente gostado dele.

Amor viril

E isso me leva a outra coisa que nunca entendo em críticos: por que eles nunca dizem que amam alguma coisa? É ser simplório demais, é isso? Há críticos que veneram Kafka, sem dúvida; que o chamam de ‘figura seminal’, que comparam qualquer coisa no mundo com ele e que pensam nele o tempo todo — mas qual a dificuldade em dizer, digamos, que olham o rosto dele com amor quando o vêem numa fotografia? Muitos me dão a impressão que olham o rosto dele como eu olhava a folha ainda não preenchida da lição de casa num domingo à noite.

O roteirista e cineasta David Mamet, uns anos atrás, escreveu isto no The New York Times sobre um personagem menor do autor inglês Patrick O’Brian: ‘Não vou dizer que chorei por causa da morte dele, mas também não vou dizer que não chorei’. Acho isso muito bom. É a única forma de crítica que eu quero ler: não necessariamente um crítico que chore sempre, claro (Santo Agostinho também chorou pela morte de Dido, caso você esteja achando essa confissão inapelavelmente lowbrow), mas que tenha uma reação humana qualquer. Mas por que foi preciso que um autor de teatro dissesse isso, e não um crítico?

Da minha parte eu amo o rosto de C. S. Lewis (virilmente, virilmente) e o de Chesterton (há algo de errado em quem não ama Chesterton), e Borges, pelo qual sinto vontade de voltar no tempo para lhe dar uma mesada que o deixasse livre de trabalhar, e Fernando Pessoa (idem). Walt Whitman, claro, que desavergonhadamente pede para ser amado. A lista é grande, como também a dos personagens que amei: Emília, Dom Quixote, Pedro Bezúkov, Tom Ripley, Philip Marlowe, Emma Woodehouse, Sherlock Holmes, Aslan, etc.

E também a lista dos livros que me deixaram feliz; o relacionamento entre leitura e felicidade é outra coisa que poucos críticos mencionam, como se eles não tivessem a memória de certas tardes lendo Stevenson ou M. R. James. Se a minha estante desabasse agora e eu morresse soterrado pelas Obras Completas de George Eliot (honestamente preferia que outro autor me matasse), o que me passaria pela cabeça como os melhores momentos da minha vida seriam algumas tardes lendo certos livros e vendo certos filmes, das quais conservo também a memória do tempo lá fora, da companhia que tinha à minha volta e do cachorro dormindo no tapete. Na verdade não há nada de que eu gostasse de falar tanto quanto de cada uma dessas tardes, e é por isso que eu não entendo o motivo dos críticos nunca falarem disso.

Quantas vezes amigos meus não me disseram que interromperam a leitura de algum romance para dar um abraço no livro? Para falar a verdade só duas, mas eu mesmo beijei a capa do Exploits and Adventures of Brigadier Gerard de Conan Doyle na semana passada. E qual o ponto de comparar Goethe com o que quer que seja, se você não ama Goethe nem o que quer que seja?

No shopping e no sofá

Sou eu a única pessoa que quer saber alguma coisa das condições físicas em que o livro foi lido? Se num sofá, o crítico de meia? Se numa rede, descalço, comendo uva? Sou eu a única pessoa que quer ver uma personalidade por trás do texto, tendo um tom de voz um pouco mais próximo do de uma pessoa normal? Lendo crítica de cinema, às vezes queria que o crítico dissesse que viu o filme no shopping tal, na companhia da namorada que dormiu no meio. Que depois passearam pelo shopping e viram equipamento de cozinha numa loja, enquanto discutiam o filme. Mas críticos não podem ir ver filmes no shopping com a namorada, a arte de Tarkowski não resistiria a tamanha burguesice.

Mas eu compreendo. Quando alguém escreve que passou um dia de chuva ‘enrolado num cobertor, tomando chocolate e lendo ***’, geralmente é seguro apostar que a frase termina com ‘Agatha Christie’ e não ‘James Joyce’. Mencionar a felicidade de passar uma tarde lendo é um hábito quase exclusivo de senhoras gordinhas que lêem livros de crimes solucionados por gatos. Críticos não querem ser confundidos com essas pessoas, compreensivelmente; então vão para o oposto completo e deixam de fazer tudo que elas fazem. Não amam mais personagens, não choram pela morte deles, e nem sequer gostam mais de ler. Tudo isso é simplório demais. Tudo isso é para a senhora gordinha.

Se perceberem que a senhora gordinha respira, deixam de respirar. Mas olha, se apenas ela aprendesse a escrever melhor, e gostasse de uns livros melhorzinhos, eu juro que só lia a senhora gordinha. Ela pode escrever mal, mas não pior do que metade dos críticos que leio; e, ao contrário deles, ela encontrou o Método Perfeito. (Alexandre Soares Silva, “Gostou ou não?”, texto publicado originalmente na revista Bravo em setembro de 2006).

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