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13/03/2009 - 06:10

“Sobre mulheres e cidades”, por Renato Modernell

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Circular: “Reencontrei um colega de faculdade, que me expôs sua curiosa tese a respeito das mulheres. As feias, segundo ele, são mais prodigiosas na cama porque, para compensar a desvantagem, precisam ‘mostrar serviço’.

Lavo as mãos. Abstenho-me de discutir esse assunto aqui, nem tanto por sabê-lo temerário, mas porque não chegaremos a lugar algum. Provas e contraprovas, se existirem, não poderão ser trazidas a lume. Isso não me impede, em todo caso, de deslocar a tese do meu amigo para outro contexto.

Em vez de mulheres, pensemos em cidades. São Paulo é a mulher feia; e o Rio, claro, é a mulher bonita. Aliás, maravilhosa, diz a lenda. Aquela que não precisa mover uma palha para se justificar aos olhos do mundo, bastando para isso exercer seu doce balanço a caminho do mar.

Mesmo mentindo, devo argumentar que considero o Rio de Janeiro uma cidade comum, igual a qualquer outra. Em termos de padrão urbano, ela não faz jus ao cenário natural, este, sim, espetacular. Em contraste com o mar azul e as serras de veludo, aqueles densos espigões se tornam mais sinistros. Mas isso já são outros quinhentos. Fiquemos com a velha idéia de Cidade Maravilhosa. Todo clichê, em alguma medida, representa um consenso.

Não me excluo dele. Se ouço aqui Os Cariocas a interpretar Rio, de Menescal e Bôscoli, enquanto olho pela janela as torres e antenas da Paulista, ao menos durante 2 minutos e 23 segundos terei uma vontade irrefreável de me mudar para o Rio de Janeiro, vontade esta que cessará após breve visita à Internet. Mas devo admitir que uma cidade não é apenas a sua realidade. É também a sua mitologia. Como as mulheres, aliás.

São Paulo é horrorosa e arrebatadora. Estremecemos ao observar este oceano de cimento do alto do mirante do prédio do Banespa. Alguma coisa deve ter dado errado para que isto chegasse a ter o tamanho que tem. Viver em São Paulo é uma decisão que precisamos ratificar a cada dia.

Em dias de mau humor, ocorre-me que a Unesco deveria tombar esta cidade como patrimônio da humanidade, para finalidades didáticas. Estudantes de arquitetura e urbanismo do mundo inteiro seriam obrigados a estagiar aqui. Observariam como as coisas foram feitas e, pela vida afora, fariam sempre o contrário.

Ok, desculpem. Mau humor não resolve. Mais vale recordar uma boutade de Borges, dita (injustamente, creio) em relação à sua cidade: ‘Buenos Aires é terrivelmente feia. (…) Mas é preferível suportar sua feiúra de perto do que sofrer de saudade dela no exterior’. Entra como uma luva em São Paulo, pois não?
Muita gente assinaria embaixo. São os habitantes de São Paulo que conseguem criar roteiros por vias capilares. Andando a pé nas calçadas, libertados do volante do automóvel, que endurece o pescoço, podemos olhar para os lados e descobrir cafés escondidos, vielas, padarias, antiquários, um barbeiro que só fala japonês, lojas com tudo em vinil, uma discreta oficina de canetas.

O importante é não subir no mirante do Banespa, de onde se enxerga a cidade em 360 graus. Em vez disso, ao rés do chão, buscar essas surpresas mínimas que vicejam nas frestas da feiúra. ‘A vida não é maravilhosa, mas é cheia de pequenas maravilhas’. Esta frase de Guimarães Rosa, como aquela de Borges, também serve para esta cidade. 

Em São Paulo, a beleza precisa ser garimpada. No Rio, tudo se descortina fácil. Lá, suponho, o arquiteto tem a missão de fazer o ambiente externo se projetar, o quanto possível, no ambiente interno. A pessoa se sentirá feliz se for lembrada, a cada instante, de que está no Rio. Aqui, o desafio do arquiteto é nos fazer esquecer que estamos em São Paulo. A força da cidade reside nesse poder de transporte, que se assemelha ao do cinema.

Claro, nem todo mundo se dispõe a garimpar a beleza. Muitos a preferem sob pronta entrega, delivery. Neste caso, nada melhor do que a Baía da Guanabara. Aqui, é no corpo-a-corpo.
Pessoas de lugares distantes sentem um temor respeitoso por São Paulo. Não a criticam abertamente porque não pega bem desprezar um ambiente cosmopolita. Mas sabem, com Carlos Lyra, que feio não é bonito. As pessoas vêm a São Paulo por necessidade: uma reunião, um congresso, um transplante de medula. Nada disso dá samba.

Sendo tão feia, São Paulo só tem uma saída: mostrar serviço. Assim como disse meu amigo (talvez de modo estouvado) em relação às mulheres. Até agora não sei se ele estava falando sério.”

(Renato Modernell, em “Sobre mulheres e cidades”).

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