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04/03/2009 - 06:11

“Ser adulto é saber manter-se em pé”

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Circular: “Nada como o Império Romano. Sua estatuária continua uma lição deliciosa e definitiva não sobre Roma, mas sobre nós. Afinal, pouco importa se todos aqueles imperadores, aqueles filósofos e aqueles soldados eram mais inteligentes ou mais ingênuos, melhores ou piores que nós. Eles eram maiores – e isso é tudo que pode importar. Suas estátuas mostravam homens que olhavam, ao mesmo tempo, para longe e para o alto. Exatamente o contrário de nós, que adoramos olhar para baixo – como sinal de reflexão – ou, o que é muito pior, para nós mesmos – como sinal de sabedoria. Os romanos olhavam para a frente. Para eles, as formas humanas retorcidas, fosse pela dor ou pelo desejo, de um Bernini ou um Rodin, não poderiam soar mais que como uma fantasia muito pouco saudável. A sabedoria era uma postura.

A postura são os ombros. Por toda parte se repete que a palavra grega que exprimia o que nós chamamos, com certa flexibilidade, de natureza, estava ligada a um verbo phýein, cujo sentido original definia o nascimento e o crescimento. Crescer implica invariavelmente um movimento para o alto, para cima: ser adulto é saber manter-se em pé. Nosso impulso mais profundamente natural não é para o amor ou o contrato social; é para o alto. Com os romanos, acabamos perdendo a única qualidade que talvez nos defina de vez como homens: o orgulho. Toda a arte bizantina parece um murmúrio velado lamentando essa perda.

O Renascimento substitui a postura pelo olhar: com a difusão sintomática de um gênero novo, a estátua eqüestre, a imponência pagã dos ombros foi transferida para o corpulento, afetado vigor da anatomia dos cavalos. Ficamos reduzidos a admirar patas: era nosso único modelo de bem-aventurada arrogância. Foi uma operação desastrosa – e que nos fez esquecer, com o tempo, que nossa natureza não é nossa alma, nem nossos sonhos, nem nosso inconsciente, nem nossa história. Nossa natureza é nossa postura. Nosso temperamento é definido, rigorosamente, por nossa coluna vertebral. Ombros esticados e nucas eretas são nossa única garantia contra o desespero: a coragem é uma forma de ginástica.

A postura, por isso, é muito mais importante que o olhar. Muito menos que janelas – como insiste, com retumbante estupidez, certo folclore recente -, os olhos não passam de espelhos opacos, vulgares e sem utilidade: em vez de nos permitirem vislumbrar os segredos dos outros, só nos fazem recair sobre nossa própria imagem, distorcida. O que costuma levar todos a suspirar, quando mencionam o olhar de alguém, é só uma armadilha romântica alimentada pela arte e pela fenomenologia que começou com o Barroco e terminou como o vício de estilo preferido do Actor’s Studio; o que começou com Las Meninas, de Velázquez, terminou nos doses de Montgomery Clift em Um Lugar ao Sol. Hipnotizados por tanta literatura, estamos condenados não mais a ver, mas a ouvir, por toda parte, os olhares de todos: como se fosse o elenco amador de alguma fábula barata que insiste em freqüentar, a contragosto, nossos piores sonhos, os olhares nos falam, nos comandam, nos insinuam e nos suplicam com a tagarelice compulsiva de um poeta histérico; não é por acaso que o olhar continue o fetiche predileto da psicanálise e do melodrama. Muito mais elegante que nosso Sturm und Drang cotidiano, o teatro clássico preferia transformar a tragédia num impasse a ser resolvido por gestos e máscaras, nunca por rostos. A suposta profundidade do olhar – como toda profundidade – é só outra ilusão. O profundo é a pele.

Nossa relação com os sentidos, historicamente, pode sofrer todo tipo de alteração; o tato permanece uma alegria e um mistério. Num capítulo inesquecível de um livro célebre por razões erradas, Maquiavel resumiu boa parte da melancolia de nossos hábitos com uma fórmula simples e preciosa: “a maioria dos homens julga mais pelos olhos que com as mãos”; e conclui – “tutti vedono e pochi toccano con mano”. É fácil ver o que os outros parecem; ninguém toca no que os outros são. A postura dos imperadores romanos promoveu a escultura à condição de única arte respeitável; o bronze, o mármore e a pedra foram por muito tempo a encarnação exclusiva e tangível do poder. Como o último e mais perfeito herdeiro do Império Romano, Maquiavel fez questão de deixar bem claro uma de suas mais fundas certezas: a sabedoria se conquista com as mãos, não com os olhos. Nossos músculos transformam o tato numa estética.

Por isso, se o olhar é um espelho sujo e oco, a postura são colunas. Sua força não é retórica, mas arquitetônica. Conciliar a verticalidade ao movimento foi um triunfo do corpo.

“Em toda minha vida, só encontrei uma ou duas pessoas que conhecessem a fundo a arte de se andar a pé”, escreveu Henry David Thoreau, que costumava andar muito, perto de um lago famoso. O mais fundamental de nossos atos, andar é um exercício que determina as linhas não de nossos caminhos, mas de nossos músculos. Na Idade Média, os mendigos que percorriam a Inglaterra pedindo esmolas alegando estar se dirigindo à Terra Santa costumavam ser chamados pelas crianças inglesas de “Sainte-Terrer”: “Aí vai outro Sainte-Terrer”, elas repetiam, rindo. A expressão deu origem ao verbo to saunter – perambular – e poucas etimologias podem sugerir uma moral tão perfeita: é bem provável que, no fundo, todo mundo que passeie sem rumo esteja, mesmo sem saber, procurando o Paraíso.

No primeiro livro da Eneida, quando, perto de Cartago, uma caçadora se transforma em deusa, é por seu andar que sua divindade se revela; no Mahabharata, um dos cinco sinais pelos quais se podem reconhecer os deuses, é justamente a habilidade de deslizar pela terra, sem tocá-la. Se andar pode revelar o sagrado, a conclusão é inevitável – o sublime é o palpável.

Que ninguém saiba nada sobre nada é um ponto mais que pacífico entre pessoas educadas; na lista infinita de tudo que me escapa olimpicamente à compreensão, ninguém ocupa lugar mais privilegiado que o Dr. Lacan. Nunca fui capaz de entender uma linha do que o Dr. Jacques Lacan escreveu, disse, sugeriu ou ensinou. Numa conferência sua no Instituto de Tecnologia de Massachussetts, entretanto, com uma platéia liderada pelo professor Chomsky, o Dr. Lacan, confesso, me surpreendeu. Perguntado sobre certos processos do pensamento, sua reposta foi extraordinariamente direta: “Todos nós acreditamos que pensamos com o cérebro”, ele disse. E completou: “Eu penso com meus pés”. Nesse momento, para meu espanto, eu o compreendi.

O Dr. Freud, afinal, nunca pensou com os pés. Wilhelm Reich ensaiou pensar com os olhos. E, no entanto, continuamos caminhando.”

(Sérgio Augusto de Andrade em “O verbo à flor da pele”, texto do baú de 1998).

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Sem comentários para ““Ser adulto é saber manter-se em pé””

  1. paulo de tarso disse:

    olá ricardo.

    leia o casaco de marx,roupa, memoria, dor. de STALLYBRASS, PETER. o livro inicialmente trata do casaco de karl marx. já é muito interessante. mas nos capitulos finais, ele inicia uma discussão sobre o caminhar, começando por édipo(que etimologicamente significa aquele cujo pé está ou foi machucado).
    é uma interessantíssima discussão sobre o caminhar. vc vai gostar.
    att paulo de tarso

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