12/01/2009 - 06:05h
Retratos de um mundo ideal
Circular: “Que o álcool numa solução diluÃda em água, quando tomado pelo organismo humano, atua como depressor e não como estimulante, é hoje um clichê tão batido que até os fisiólogos mais avançados estão começando a tomar conhecimento dele. O leigo inteligente não recorre à garrafa quando tem compromissos importantes a resolver, sejam intelectuais ou manuais; ele deixa a primeira dose para depois do trabalho feito, quando deseja relaxar a tensão e reduzir a pressão de seu mau humor. O álcool, por assim dizer, nos desenreda. Ele levanta o toldo da sensação e nos torna menos sensÃveis aos estÃmulos externos e, particularmente, à queles que nos são desagradáveis. Ao pôr um freio em todas as qualidades que nos permitem tocar a vida e brilhar diante dos colegas — por exemplo, a combatividade, a agudeza, a diligência, a ambição –, o álcool liberta as qualidades que nos enternecem e fazem com que as pessoas gostem de nós: a afabilidade, a tolerância, a generosidade, o humor, a simpatia. Um homem com dois ou três drinques a bordo não será capaz de amputar a perna de alguém, pilotar um avião ou reger a missa em si menor de Bach, mas será imensamente mais competente para dar uma festa, admirar uma mulher bonita ou ouvir a missa em si menor de Bach. As coisas mais difÃceis e úteis do mundo, como extratir dentes ou descascar batatas, ficam melhores quando feitas por pessoas tão sóbrias quando os condenados à s vésperas da execução. Mas as coisas mais gostosas, inúteis e divertidas deveriam ficar a cargo daqueles já devidamente lubrificados. O Pithecanthropus erectus era abstêmio, mas os anjos sempre souberam o que lhes convinha à s cinco da tarde.
Tudo isto é tão óbvio que me espanto ao ver que nenhum utópico, até hoje, se propôs a abolir todas as lamentações do mundo pelo simples artifÃcio de manter toda a humanidade ligeiramente alta. Note bem, eu não disse bêbada; disse ligeiramente alta — e peço desculpas por não saber como descrever este estado numa frase menos indecorosa. O homem ligeiramente calibrado pelo álcool é capaz de pôr suas melhores qualidades para fora. Ele não é apenas imensamente mais amável do que o indivÃduo que vive a seco; é também imensamente mais decente. Reage a todas as situações de maneira expansiva, generosa e humana. Torna-se mais liberal, tolerante e agradável. É melhor cidadão, marido, pai e amigo. As iniciativas que tornam a vida humana insegura e desconfortável nunca são tomadas por este homem: ele não declara guerras, não rouba nem oprime ninguém. Todas as grandes vilanias da História foram perpretadas por homens sóbrios e, principalmente, por abstêmios. Mas todas as coisas belas, do Cântico dos Cânticos à tartaruga à Maryland, das nove sinfonias de Beethoven ao martÃni seco, foram concebidas por homens que, na hora certa, trocavam a água da bica por algo mais colorido e com outros ingredientes que não apenas hidrogênio e oxigênio.
Estou ciente, é claro, que manter toda a espécie humana neste paraÃso, ano após ano, apresentaria formidáveis dificuldades técnicas. Seria difÃcil calcular a dosagem diária de cada indivÃduo conforme exatamente suas necessidades particulares, e fazê-lo tomá-la precisamente na hora certa. Por um lado, haveria o constante perigo de que grandes minorias se tornassem ocasionalmente sóbrias e, com isso, começassem guerras, disputas ideológicas, reformas morais e outros aborrecimentos. Por outro lado, haveria o perigo de que outras minorias fossem levadas a uma real intoxicação e começassem a nos amolar com suas choraminguices xexelentas. Mas tais obstáculos técnicos não são, de forma alguma, insuperáveis. Talvez pudessem ser resolvidos abandonando-se a idéia da administração do álcool per ora e distribuindo-o mais democraticamente, apenas impregnando o ar com ele. (…)
Pode-se objetar que mesmo pequenas doses de álcool, se uma dose já estiver nos calcanhares da dose predecessora antes que os efeitos desta tenham desanuviado, poderiam ter um efeito deletério sobre a saúde fÃsica da espécie — que a taxa de mortalidade aumentaria e que categorias inteiras de seres humanos seriam exterminadas. A resposta é a de que não estou propondo aqui aumentar a longevidade de ninguém, mas aumentar seus prazeres. Suponhamos que a duração da vida seja reduzida em 20%. Minha resposta é a de que suas delÃcias crescerão em pelo menos 100 %. (…)
Que o homem civilizado médio de hoje é inferior ao civilizado médio de duas ou três gerações atrás é tão claro que dispensa explicações. Ele tem menos iniciativa e coragem; é menos criativo e heterogêneo; está mais para um coelho do que para um leão. Duras repressões tornaram-no o que ele é. Bem, ninguém com dois ou três drinques no fÃgado é um tirano. Poderá aparecer tolo, mas não cruel, talvez fique um pouco barulhento, mas será também tolerante, generoso e educado. Minha proposta restauraria o cristianismo no mundo. Salvaria a humanidade dos moralistas, dos pedantes e dos ferrabrases.”
(H.L. Mencken, 1924 em ” O Livro dos Insultos de H.L. Mencken”).
Enviado por Ricardo Lombardi
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2 Comentários para “Retratos de um mundo ideal”
02/06/2009 - 23:10h
MagnÃfico!
10/08/2009 - 22:08h
[...] até porque todo mundo estava pouco se fodendo pra Lei Seca e enchia a cara do mesmo jeito. Em outro divertidÃssimo texto, também escrito nesse perÃodo negro para os bebuns, () ele defendeu a teoria de que as pessoas [...]
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