02/11/2009 - 06:32h
“O berço balança pairando sobre um abismo”
 Circular: “O berço balança pairando sobre um abismo, e o senso comum nos diz que nossa experiência não passa de uma breve fenda de luz entre duas eternidades de trevas. Embora as duas sejam gêmeas idênticas, o homem, em geral, encara com mais calma o abismo pré-natal do que aquele a que se destina (a cerca de quatro mil e quinhentas pulsações cardÃacas por hora). Conheço, porém, um jovem cronófobo que sentiu algo parecido com o pânico ao ver pela primeira vez filmes domésticos que haviam sido feitos algumas semanas antes do seu nascimento. Viu um mundo que praticamente não apresentava qualquer diferença – a mesma casa, as mesmas pessoas –, mas então percebeu que era um mundo onde ele não existia, e que ninguém deplorava a sua ausência. Viu de relance a sua mãe acenando de uma janela do segundo andar, e aquele gesto estranho o perturbou, como se fosse um adeus misterioso. Mas o que o deixou particularmente assustado foi a visão de um carrinho de bebê novo em folha na varanda, com o ar presunçoso e inoportuno de um ataúde; e também estava vazio, como se, naquele curso invertido dos acontecimentos, seus próprios ossos se tivessem desintegrado”.
Vladimir Nabokov, A Pessoa em Questão (Via Almir de Freitas).
Enviado por Ricardo Lombardi
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2 Comentários para ““O berço balança pairando sobre um abismo””
03/11/2009 - 08:49h
Maravilhoso!
03/11/2009 - 13:50h
Sempre passava os olhos por Lolita e não lia, até que na semana passada resolvi ler. Não satisfeita, parti pra cima de Machenka: Nabokov é fantástico.
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