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05/03/2009 - 06:07

“Me envolvi com Jack Kerouac”

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Circular: “Não me importo a mínima que você não tenha me ligado hoje. Na verdade, eu só ia gastar um pouco do meu tempo com você, porque quem eu realmente queria encontrar hoje era Jack Kerouac. Pouco importa como ele estivesse, o que eu sei é que ia encarar. Sei que todas as suas mulheres, ao menos aquelas a quem ele permitiu que se vissem como tal, tinham a esperança de salvá-lo. Eu não, o que eu quero é me perder com ele e por ele. Quero sentir a solidão gelada do azul profundo dos olhos dele e me aconchegar nele próprio, ficar bem quieta sentindo o cheiro da pele morena, até ele inventar uma desculpa, sem coragem de me encarar e sair assim meio de lado, como sempre faz. Ele dá uma desculpa, falando tão baixo, que nunca tenho certeza se está mesmo querendo dizer alguma coisa. Me dá vontade de dizer, o que você falou, Jack? Mas aí eu ia quebrar esse trato que parece que fizemos. Ele ia ficar sem graça e tão triste, que é o seu jeito de ficar bravo. Podia até ser que ele ficasse, mas só de corpo presente e isso eu não suporto, esse é o único fantasma do qual tenho medo.

Vai demorar uns dias, às vezes meses pra ele voltar. Ele vai cheirar outras fulanas como é de hábito. Mas, em alguma noite, vai sentir saudade e escrever de mim. Quando me descreveu lendo no sofá, nasceu um quadro lindo, que eu gostaria de poder ter pintado e pendurado ali, em cima dele mesmo.Eu estava de mocassim e de calças de veludo cotelê castor. Jack escreve de mim quando está longe. Imagino as pessoas deitadas em suas camas, numa poltrona de ônibus ou no sofá da sala lendo meu nome, lendo as coisas que ele fala de mim. É como ser amada no plural.

Jack me ama como ama outras coisas amadas. Amou por seis minutos uma garota mexicana, até que o irmão dela lhe disse o preço, então ele chorou. Na mesma noite estava tão bêbado que não lembra o nome da mulher que o beijou até altas horas, também não se lembra como chegou à hospedaria. Amou o Pico Desolation, não mais que Japhi, mas o amou em nome dele. Sei que pode parecer estranho o que vou dizer, mas ele é fiel, tem amor de menino pelas coisas e pelas pessoas. Tem essa coisa obstinada de caminhar pra casa e de fugir pro mundo, mas tem que ter uma casa plantada ali, de Gabrielle, ou a nossa, ou a minha, sei lá, às vezes eu não sei mais onde ele mora.

Você não vir não é nada, mas, quando Jack não está em casa, está na platéia de um cair da tarde enigmática de uma cidadezinha que já foi bela, ou se escondendo dos guardas para dormir no mato, em seu saco de dormir, depois de fazer a própria comida e tomar um vinho barato. Ele está olhando as pessoas, de fora para dentro e cruzando sua vida com a delas, está sacolejando num trem e tem um outro cara ali, vagabundo como ele, e eles conversam. É capaz de sair conversando com um amigo e voltar muitas horas depois, ainda conversando.

Ele é o cara, entre todas as pessoas que conheci, que chegou mais perto de estar vivo. Ele está vivo, embora quieto, muitas vezes chapado e, quase todas, bêbado. Mas algum tempo com ele — mesmo quando ele vem e não passa mais que dois dias — me faz sentir como uma princesa negra de New Orleans. É possível fazê-lo comer um pouco de comida caseira em uma noite sem bebida e saber que naquela noite Jack não estará no mundo. Todos os descompromissos de Jack estão cancelados e ele dorme, não no trem, mas ao meu lado,na cama; não na rebordosa da benzedrina, mas vencido pelo jantar e aquecido por dentro. Todos os amigos, os encontros, os livros, os poemas e os poetas, assim como os mapas, a meditação e o Tao vão esperar. O mundo fica lá fora e eu sei que parece bobagem, mas eu me encho de orgulho, de ser o único par de olhos pousado sobre esse homem, enquanto dorme.”

(Renata Machado, “Me envolvi com Jack Kerouac”, do arquivo do escritor Renato Modernell). A imagem eu tirei daqui, graças a uma dica do Bruno.

Autor: - Categoria(s): circular Tags:

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Sem comentários para ““Me envolvi com Jack Kerouac””

  1. Sheyla Amaral disse:

    Coincidência, comecei a ler “Cidade pequena, cidade grande” essa semana. Bom texto.

Os comentários do texto estão encerrados.

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