Arquivo de ‘circular’ Categoria
20/08/2008 - 06:11h
Circular: “Uma tendência aparentemente unânime parece redirecionar todo o estilo novo a uma espécie ordenada de variações de gêneros que flutuam entre o kitsch e o eletrônico em modalidades que vão da bossa nova ao funk: confinada a desfiles de moda, raves ou lounges em ilhas sugestivas, a música moderna é um mantra de muzaks. Suas referências são como um sonho digital que faz com Percy Faith, Mantovani, o período de Ray Conniff na Columbia, os Boston Pops e a Mystic Moods Orchestra um looping infinito em que o que era a lassidão de uma estética de cocktail passa a ser reinterpretado como a sensualidade anestesiada de uma disposição alucinadamente cool. É uma música que confunde deliberadamente o fundo e a figura tentando criar um hiato diabólico entre o som e sua experiência direta: se todo envolvimento pessoal ou afetivo insinuado pelo muzak clássico devesse ser filtrado por mecanismos que reduzissem cada insinuação a uma sugestão quase secreta, hoje todos pretendem assumir como um princípio estabelecido o fato de que qualquer envolvimento não é só antiestético; é imoral. A música moderna pretende transformar o mundo todo numa sala de estar.” (Sérgio Augusto de Andrade)
Enviado por Ricardo Lombardi
19/08/2008 - 06:03h
Circular: “Se és capaz de manter a calma
quando todos à tua volta perdem a cabeça
e te jogam a culpa
Se confias em ti quando todos duvidam
e és capaz de relevar o descrédito alheio
e, mesmo enganado, não lanças mão da falsidade
e, mesmo odiado, não disseminas o ódio
e não pareces bom demais, nem pretensioso
Se consegues sonhar sem te embriagares com os sonhos
se consegues pensar sem tornar os pensamentos tua meta
Se sabes lidar com o Triunfo e o Fracasso
sem te deixares dominar por esses dois impostores
Se suportas ouvir a verdade que disseste
deturpada pelos patifes para enganar os tolos
e ao presenciar o colapso das coisas que te são mais caras
te inclinas para reconstruí-las
sem qualquer ferramenta além das tuas próprias mãos
Se és capaz de juntar todas as tuas coisas
e arriscá-las num simples lance de cara-ou-coroa
e, perdendo, recomeçar tudo de novo
sem jamais lamentar as perdas
Se consegues forçar teu coração, teus nervos e teus tendões
a trabalhar para além do ponto de exaustão
e a resistir quando já nada mais te resta
senão tua Vontade que ordena: “Firmes!”
Se és capaz de não te corromperes no meio da plebe
e de não perderes a naturalidade junto aos poderosos
Se nem inimigos nem amigos queridos conseguem te ferir
Se todos te cortejam
mas ninguém em demasia
Se preenches cada minuto fugaz
com sessenta segundos de vida vivida
A Terra é tua, com tudo aquilo que há nela
e – o que é mais importante –
tu serás um homem, meu filho!
(Rudyard Kipling, “If”, 1910)
Enviado por Ricardo Lombardi
18/08/2008 - 06:07h
Circular: “O que um homem vê bêbado nas outras mulheres, vê sóbrio em Greta Garbo. Ela é uma mulher apreendida com toda a claridade pulsante de quem tomou mescalina. Observá-la é obter uma percepção direta, limpa de algo que, como uma flor ou uma dobra de seda, é ela mesma de um modo extasiante, não assertivo e lindo. Nada se intromete entre ela e o observador, exceto as neuroses deste: a contribuição dela é calma e receptividade, um repouso absorvente que, em geral, nas mulheres, coexiste apenas com a máxima vaidade. Arrebatada pelo êxtase de existir, ela dá a cada espectador o que ele precisa: sua generosidade é inesgotável. A maioria das atrizes em atividade vive apenas para olhar para os homens, mas Garbo olha para flores, nuvens e móveis com a mesma compaixão admirada, como Eva na manhã da criação, e mais bem escalada do que o sr. Huxley no papel de Adão. A fama, ao separá-la de uma multidão de experiências que tomamos como certas, aumentou, em vez de diminuir, dua capacidade de maravilhar-se.” (Kenneth Tynan, “Sight and Sound: abril de 1954; “Curtains”, 1961)
Enviado por Ricardo Lombardi
15/08/2008 - 06:10h
Circular: “(…) Muitos são os que viajam, com as facilidades existentes neste início do século XXI. Até por causa delas, no entanto, poucos são aqueles que, com a singularidade do olhar e o talento da palavra, conseguem transformar uma viagem exterior (como a de Marco Polo) em uma jornada interior (como a de Dante Alighieri). Isto é necessário para se produzir boas narrativas de viagem. Nelas podem se combinar, livremente, elementos característicos de diversos tipos de textos: ensaio, crônica, carta, reportagem, autobiografia, romance, observação de costumes e relato de aventura. Podemos identificar nesse gênero inúmeros fatores de fabulação, como o alto grau de envolvimento existencial do narrador; os condicionamentos psicológicos, logísticos e ambientais da sua jornada; a multiplicidade dos temas abordados; e também a indulgente expectativa do leitor em relação a eventos ocorridos em terras distantes. Tais componentes são necessários para que aconteça, por assim dizer, uma operação alquímica. Trata-se de transformar um deslocamento no espaço, acessível a qualquer um, em um deslocamento no tempo, coisa para poucos. E aqui cabe uma frase de Descartes: ‘Viajar é como falar com homens de outros séculos’.” (Renato Modernell, “Narrativas de Viagem e Jornalismo Literário“).
Enviado por Ricardo Lombardi
14/08/2008 - 18:21h
Circular: “1 BOSSA NOVA: durante muito tempo fui contra. Fui contra, simplesmente, porque era muito bonita, muito bonita demais para mim que não vivo em Ipanema, não tenho carro e sou um mitólogo trágico. Dentro de minha terminologia nietzcheana, bossa nova é muito apolínea, muito doce, muito rococó, muito boazinha, muito açúcar, muito keep-smiling, muito música de estudante sem vivência, muito letra de menino comportado, muito cristianismo, muito boa vontade. Enfim, bossa nova é o anti-eu e o que faço. (Jorge Mautner, “Bilhete do Kaos”; dica do Antonio)
Enviado por Ricardo Lombardi
14/08/2008 - 06:09h
Circular: “O medo diante da loba - Quer estragar sua filha e a vida dos futuros genros? Libere Virginia Woolf ou Clarice Lispector logo na pré-adolescência. Aí teremos moças misteriosas, labirínticas, metalingüísticas, uns diabos arredias e estranhas diante do amor. Capazes de tudo. TPMs elípticas, menstruações de incomunicabilidades sem fim, coitados desses pobres e suas caras de maridos.” (Xico Sá, via Sulfúrica).
Enviado por Ricardo Lombardi
13/08/2008 - 06:07h
Circular: “‘É uma estupidez não ter esperança’, pensou. ‘Além disso acho que é um pecado perder a esperança. Mas não devo pensar em pecados. Já tenho muitos problemas para começar a pensar em pecados. Para dizer a verdade também não compreendo bem o que são os pecados.’
‘Não os compreendo nem sei bem se acredito neles. Talvez fosse um pecado ter matado o peixe. Suponho que sim, embora a carne fosse para me conservar a vida e para alimentar muita gente. Mas então tudo é pecado. Não pense no pecado, meu velho. É demasiado tarde para isso e há pessoas cujo ofício é esse. Deixe que sejam eles a pensar nos pecados. Você nasceu para ser um pescador tal como o peixe nasceu para se peixe. São Pedro era pescador assim como o era o pai do grande DiMaggio.’
Mas o velho gostava de pensar em todas as coisas que o cercavam e como não tinha nada para ler, nem sequer possuía um aparelho de rádio, pensava muito e continuava a pensar nos pecados. ‘Mas você não matou o peixe apenas para conservar-se vivo e o vender para alimento’, pensou ele. ‘Matou-o por orgulho e porque é um pescador. Amava o peixe quando estava vivo, afinal ainda o ama morto. Se o ama, com certeza que não foi pecado matá-lo. Ou será ainda pior?’
– Mas você pensa demais, velho – disse.
(Reflexões do personagem Santiago, o pescador, no livro “O Velho e o Mar”, de Ernest Hemingway. Do arquivo de Renato Modernell)
Enviado por Ricardo Lombardi
12/08/2008 - 06:12h
Circular: “Entre o número considerável de qualidades que nos distinguem do resto do mundo, tudo no Brasil é sexy: temos uma tradição única na beleza.
O desprendimento de nosso andar é sexy. Nossa pele escura é sexy. As curvas de nossa arquitetura e de nosso corpo são sexy. Nossas cidades: sexy. Tudo que nos reveste – o pano-da-costa, o linho alvo, a saia de cores vivas –; tudo é sexy. Nossa língua é sexy: nos Pedros que viram Pepês; nas Manuelas que viram Manus, nos Antonios que viram Toms; nos Zecas, nas Dedés, nas Tetês; na suculenta herança africana do cafuné, do mulambo, da canga ou do quindim; nos nomes de frutas, de rios, de estrelas, de árvores: o marmelo, o Subaé, as Três Marias, o jatobá. Nossa bandeira – um escândalo sexy. Nosso sorriso, nosso transe, nosso gesto: que cultura, em qualquer um dos mundos, pode se orgulhar de um vigor sempre tão feliz? É tudo tão sexy no Brasil.
Nossa arte soube responder a esse impulso inquieto com a intensidade que todo impulso fundador merece – seja no cinema, no teatro ou em nossa poesia, nossos sonhos são sempre sexy: nossa vocação é a doçura.
Mas nenhuma arte soube exprimir melhor tudo o que temos de sexy quanto nossa música. A música popular do Brasil é a voz instintiva do nosso desejo. (…) O que é mais sexy, afinal, que João Gilberto? Ou, naturalmente, que Dorival Caymmi – para quem a própria definição de sexy parece ter regularmente que prestar contas? Sempre preocupado com as relações entre a cultura e o corpo, Nietzsche escreveu, sem saber, boa parte de sua obra elogiando o Brasil enquanto pensava estar comentando Bizet: o Brasil foi o único país do mundo a incorporar e irradiar com uma vitalidade sempre renovada todas as lições do que Euclides da Cunha descreveu como ‘a linha fulgurante do trópico’ – e essa lição nos veio embalada pela música. Toda nossa antropologia, por isso, deveria começar com um atabaque e terminar com um banquinho e um violão.” (Sérgio Augusto de Andrade em “A cultura sexy do Brasil”).
Enviado por Ricardo Lombardi
11/08/2008 - 06:17h
Circular: “Um amigo malicioso jura ter visto na estréia de um espetáculo moderníssimo, no saudoso Carlton Dance Festival, um jornalista influente perguntar com alguma ansiedade a sua editora, sentada na fileira em frente: ‘Nós estamos gostando?’. A história fazia parte do folclore das redações, nos anos 90. Acreditava-se, ingenuamente, que o mecanismo de copiar-impor opinião era a caricatura perfeita daqueles dois. Mas a piada nada tinha de exclusiva, dura até hoje e funciona bem em todos os territórios porque reproduz uma situação universal. Com olhos mais cínicos — ou apenas mais bem treinados —, pergunta-se hoje, casualmente, ‘nós somos a favor?’. Seja de transgênicos, de Paulo Coelho, de Big Brother ou de qualquer desses temas que dividem opiniões. É a senha para indicar que se pretende adotar, por conveniência, uma postura, ou melhor, impostura, que facilite a vida naquela circunstância. Gostar errado pode arranhar a imagem e reavivar atritos desnecessários.
O que parecia uma ‘inside joke’, ou brincadeira de turma, desdobrou-se em muitas versões: além do absurdo ‘estamos gostando?’, pergunta-se se temos licença para gostar, se somos contra ou a favor de alguma causa ou, mais explicitamente, se devemos gostar de alguma coisa. Qualquer que seja o enunciado, a brincadeira é saudável. Deixa aparentes as pequenas ditaduras do bom gosto e a complementar subserviência. (…)” (Marta Góes)
Enviado por Ricardo Lombardi
08/08/2008 - 06:12h
Circular: “Iludido por um tipo de fetichismo — o fetichismo da informação — que costuma ser tão hipnótico quanto aquele que certos românticos costumam alimentar por saltos altos, todo jornal parece acreditar não só que seu primeiro dever é informar mas também que a informação está sempre ligada ao que é novo, imediato, e que se renova. É uma convicção atordoante — cujo único, dúbio mérito é reduzir o mundo a um alucinado gerador de ruído.
Meu jornal ideal — seja na mídia, como se diz hoje em dia, que for — é diferente. Meu sonho seria receber diariamente algum jornal que, esgotado e vencido pela marcha das notícias, decidisse repetir e se concentrar sobre um fato único, de preferência escolhido ao acaso (ninguém nunca sabe, afinal, o que é realmente importante). Dia após dia, alguma luz nova e discreta seria jogada mais uma vez sobre o mesmo fato — descrito e redescrito alternadamente por cartógrafos, sociólogos, matemáticos, críticos de literatura, geógrafos, músicos, teólogos, médicos, filólogos, arquitetos, químicos, historiadores e, quem sabe, até jornalistas. Não se precisa de mais que um único fato para se conseguir uma cobertura virtualmente eterna. E já que os acontecimentos entediam, é possível que um único acontecimento, elevado à categoria de uma obsessão planetária, acabe excitando. Multiplicar o novo pode ser uma ação em último caso vazia e, além disso, um pouco inútil — nada provavelmente é tão estimulante quanto repetir o mesmo.” (Sérgio Augusto de Andrade, em “A chatice das notícias”).
Enviado por Ricardo Lombardi
07/08/2008 - 06:14h
Circular: “Li em algum lugar que não se pode basear uma crítica no ‘mero gosto pessoal’. Mas por que não? De onde vem esse tipo de crença tão austera, tão adultinha?
As pessoas que escrevem para jornais e revistas vão ficando tão sérias — afinal é a profissão delas, algo relacionado com salário e aluguel, sindicatos e dívidas no cartão de crédito — que esquecem um pouco o que elas mesmas gostavam de ler quando eram só leitores. Eu sei porque ainda ganho tão pouco dinheiro escrevendo que o dinheiro e sua seriedade horrenda não tiveram tempo de deformar minhas lembranças.
Pessoas normais, depois de ter visto um filme, querem saber o que outras pessoas acharam. Sim, a ‘mera opinião pessoal’. Você nunca saiu do cinema perguntando à sua amiga se ela gostou do filme? Ou acha que fazer crítica é algo assim tão mais elevado e complexo do que um amigo na saída do cinema dizendo para o outro o que achou do filme?
Como leitor, se me perguntarem, crítica é isso: sua opinião pessoal, bem escrita. Não precisa nem ser particularmente inteligente, nem justa, nem madura, nem isenta, e nem bem pensada. Todos esses adjetivos são mencionados por gente pomposa como necessários a uma boa crítica, mas eu sentado neste sofá, lendo esta revista aqui, enfaticamente não concordo. Ela só tem de ser bem escrita. Seria bom se a sua opinião coincidisse com a minha, mas nem isso é realmente necessário.
Me diga se gostou ou não! Literatura, pintura, música e cinema não são ciências, ó Newton dos animês, Pasteur dos versos livres, Madame Curie do cinema do Irã, que lê romances com um avental branco no espírito, todo manchado de Derrida. Nunca entendi pessoas que estudam romances ao invés de simplesmente lerem. Dê uma frase de Nabokov para uma besta e ela não lê, ela estuda. Mexendo os lábios, fazendo tabelinhas. Essa é a minha definição de filisteu: quem, podendo ler, estuda. E essa é a minha definição de cavalheiro: quem, podendo estudar, lê.
Se estamos falando de arte, o prazer não deveria estar muito longe. Então me diga logo se se divertiu ou não, nos termos os mais divertidos possíveis. Você lê uma crítica sobre Kafka e percebe que o crítico quer dar a impressão de ter sido sublimemente iluminado sobre questões envolvendo a identidade humana, a trajetória dos homens na terra, o absurdo da existência, o destino trágico da Europa — todas reações apropriadas, sem dúvida, se você pertence ao tipo de leitor para mim repulsivo que aprende coisas com romances. Mas o tom com que o crítico diz isso não nos deixa perceber que ele jamais tenha caído no sofá excitado pela perspectiva de ler mais um capítulo de A Metamorfose, ou que seu pulso tenha se acelerado um pouquinho — e que além de ter compreendido o processo de leitura, ele tenha simplesmente gostado dele.
Amor viril
E isso me leva a outra coisa que nunca entendo em críticos: por que eles nunca dizem que amam alguma coisa? É ser simplório demais, é isso? Há críticos que veneram Kafka, sem dúvida; que o chamam de ‘figura seminal’, que comparam qualquer coisa no mundo com ele e que pensam nele o tempo todo — mas qual a dificuldade em dizer, digamos, que olham o rosto dele com amor quando o vêem numa fotografia? Muitos me dão a impressão que olham o rosto dele como eu olhava a folha ainda não preenchida da lição de casa num domingo à noite.
O roteirista e cineasta David Mamet, uns anos atrás, escreveu isto no The New York Times sobre um personagem menor do autor inglês Patrick O’Brian: ‘Não vou dizer que chorei por causa da morte dele, mas também não vou dizer que não chorei’. Acho isso muito bom. É a única forma de crítica que eu quero ler: não necessariamente um crítico que chore sempre, claro (Santo Agostinho também chorou pela morte de Dido, caso você esteja achando essa confissão inapelavelmente lowbrow), mas que tenha uma reação humana qualquer. Mas por que foi preciso que um autor de teatro dissesse isso, e não um crítico?
Da minha parte eu amo o rosto de C. S. Lewis (virilmente, virilmente) e o de Chesterton (há algo de errado em quem não ama Chesterton), e Borges, pelo qual sinto vontade de voltar no tempo para lhe dar uma mesada que o deixasse livre de trabalhar, e Fernando Pessoa (idem). Walt Whitman, claro, que desavergonhadamente pede para ser amado. A lista é grande, como também a dos personagens que amei: Emília, Dom Quixote, Pedro Bezúkov, Tom Ripley, Philip Marlowe, Emma Woodehouse, Sherlock Holmes, Aslan, etc.
E também a lista dos livros que me deixaram feliz; o relacionamento entre leitura e felicidade é outra coisa que poucos críticos mencionam, como se eles não tivessem a memória de certas tardes lendo Stevenson ou M. R. James. Se a minha estante desabasse agora e eu morresse soterrado pelas Obras Completas de George Eliot (honestamente preferia que outro autor me matasse), o que me passaria pela cabeça como os melhores momentos da minha vida seriam algumas tardes lendo certos livros e vendo certos filmes, das quais conservo também a memória do tempo lá fora, da companhia que tinha à minha volta e do cachorro dormindo no tapete. Na verdade não há nada de que eu gostasse de falar tanto quanto de cada uma dessas tardes, e é por isso que eu não entendo o motivo dos críticos nunca falarem disso.
Quantas vezes amigos meus não me disseram que interromperam a leitura de algum romance para dar um abraço no livro? Para falar a verdade só duas, mas eu mesmo beijei a capa do Exploits and Adventures of Brigadier Gerard de Conan Doyle na semana passada. E qual o ponto de comparar Goethe com o que quer que seja, se você não ama Goethe nem o que quer que seja?
No shopping e no sofá
Sou eu a única pessoa que quer saber alguma coisa das condições físicas em que o livro foi lido? Se num sofá, o crítico de meia? Se numa rede, descalço, comendo uva? Sou eu a única pessoa que quer ver uma personalidade por trás do texto, tendo um tom de voz um pouco mais próximo do de uma pessoa normal? Lendo crítica de cinema, às vezes queria que o crítico dissesse que viu o filme no shopping tal, na companhia da namorada que dormiu no meio. Que depois passearam pelo shopping e viram equipamento de cozinha numa loja, enquanto discutiam o filme. Mas críticos não podem ir ver filmes no shopping com a namorada, a arte de Tarkowski não resistiria a tamanha burguesice.
Mas eu compreendo. Quando alguém escreve que passou um dia de chuva ‘enrolado num cobertor, tomando chocolate e lendo ***’, geralmente é seguro apostar que a frase termina com ‘Agatha Christie’ e não ‘James Joyce’. Mencionar a felicidade de passar uma tarde lendo é um hábito quase exclusivo de senhoras gordinhas que lêem livros de crimes solucionados por gatos. Críticos não querem ser confundidos com essas pessoas, compreensivelmente; então vão para o oposto completo e deixam de fazer tudo que elas fazem. Não amam mais personagens, não choram pela morte deles, e nem sequer gostam mais de ler. Tudo isso é simplório demais. Tudo isso é para a senhora gordinha.
Se perceberem que a senhora gordinha respira, deixam de respirar. Mas olha, se apenas ela aprendesse a escrever melhor, e gostasse de uns livros melhorzinhos, eu juro que só lia a senhora gordinha. Ela pode escrever mal, mas não pior do que metade dos críticos que leio; e, ao contrário deles, ela encontrou o Método Perfeito. (Alexandre Soares Silva, “Gostou ou não?”, texto publicado originalmente na revista Bravo em setembro de 2006).
Enviado por Ricardo Lombardi
06/08/2008 - 06:11h
Circular: “O orkut ficou chato e passa a morrer de fininho, de causa natural, de applets, de comprimidos que fazem sumir 4kgs em quatro dias, de gatinhas levianas e loucas por putaria, de promoções fantásticas, de perfis desinteressantes em seu espírito e em seu caráter, todos afogados no mar de spams que um dia Colombo velejou através do Atlântico.
Deve-se evitar qualquer julgamento de valor em uma sociedade caracterizada por constante mudança e fluidez, mas é preciso assinalar que acabei de descobrir que o número de usuários do orkut caiu 34% na América Latina (de 23,2 milhões para 15,2 milhões). Via de regra, o desdobramento natural de tudo que envolve cordialidade constante e palavras de apreço é, eis a verdade, o desapego. Não se vive num mundo integrado, nem é provável que se viva num futuro próximo. Afinal, quatro anos não são quatro meses e é dito que os anões nasceram dos vermes que roíam o cadáver do gigante Ymir; ou seja, organizações podem ser modificadas e até mesmo alteradas pela reorganização de deus componentes - e é bom que assim permaneça.” (Cláudia Castelo Branco, lá no blog dela, o commons based peer production)
Enviado por Ricardo Lombardi
05/08/2008 - 06:14h
Circular: “(…) Desde que eu me entendo por gente, a 11.507 é primeira lei que surge ameaçando levar todo mundo pra cadeia. Rico, pobre, peão, deputado, acrobata amador ou poeta neo-concretista: dirigiu e bebeu, o pau comeu. Claro, todas as outras leis também deveriam ser para todos. Mas não são. A 11.507, a julgar pelas fotos dos motoristas assoprando o bafômetro, é ampla, geral e irrestrita. Uma associação de bares e restaurantes está ameaçando entrar com ação na justiça, para garantir o direito inalienável de seus clientes atropelarem pedestres e chocarem-se contra Kombis escolares na contra-mão. Maravilha. A Kopenhagen e a Johsons, quem sabe, também vão fazer a mesma coisa. Enquanto isso não acontece, no entanto, sugiro outra alteração na 11.705, para que ela não seja assim tão contrária à nossa natureza, à nossa cultura: cadeia diferenciada, dependendo da bebida que tiver sido ingerida pelo motorista.
Da penalidade
Uísque doze anos - O doutor vai para aquela casona bonita da Polícia Federal, no bairro paulistano de Higienópolis, que já hospedou Lalau e Rocha Matos. (Vão precisar comprar mais algumas mansões decadentes se a coisa começar a ficar preta pra turma do Black Label, mas tudo bem, para essas coisas nunca falta $$$).
Chope em bar carioca - A galera vai para celas especiais nas delegacias comuns. (Vão precisar fazer mais celas especiais pra acomodar todo o pessoal de óculos com armação de acrílico preto, mas tudo bem, algumas ONGs vão pressionar, a imprensa apoiará e o governo vai acabar cedendo).
Serra Malte, Original e Boêmia de garrafa – Os amantes da tradição são mandados para Ilha Grande, a masmorra mais cool de nossa história, que abrigou até Graciliano Ramos. (O presídio precisa de uma reforma, mas o pessoal da cerveja de garrafa pode trabalhar nisso, com materiais recicláveis e energia solar).
Schincariol de garrafa ou pinga 51 — Mete o vagabundo no xilindró e acabou. (Vão precisar fazer mais xilindrós, porque os que existem hoje já estão superlotados, mas isso pode esperar, como sempre, porque ninguém que a gente conhece vai pra lá, mesmo).
Campari, Sangue de Boi e Smirnoff Ice, campo de concentração no Acre, pra aprender a beber direito. Não tem conversa. (Nem piadinha entre parênteses).” (Antonio Prata, lá no blog dele).
Enviado por Ricardo Lombardi
04/08/2008 - 06:11h
Circular: “O adágio Ex oriente lux, expressão latina que significa ‘a luz vem do Oriente’, comporta dois significados. O mais imediato diz respeito à luz do Sol: é lá que ela nasce, nos países do ‘Levante’, e depois aos poucos se projeta sobre esta parte do planeta onde vivemos, dissipando a escuridão e embriaguez do sono. O outro significado dessa expressão, conhecida dos antigos romanos, é mais sutil. Está ligado não aos raios solares, mas à sabedoria necessária no percurso da existência humana.
Sempre que o mundo ocidental entrou em crise, ou se viu diante de dilemas e incertezas, de algum modo se voltou para o Oriente – em busca de orientação, como a própria palavra já indica. Foi assim com os sábios gregos; com o general macedônio Alexandre; com as caravanas medievais ao tempo de Marco Polo; com os navegadores ibéricos; com artistas europeus do século 19; com o psicólogo suíço Carl Gustav Jung, adepto do I Ching; com o escritor Herman Hesse, cuja ficção está permeada da filosofia oriental; com os Beatles, que foram à Índia e usaram cítaras; e assim também com os expoentes da contracultura, na década de 1960.
O Oriente, como um velho senhor que pouco sai de casa, ou um guru silencioso, sempre esperou que o Ocidente fosse até ele, em busca de verdades milenares que funcionam como faróis em meio ao oceano. O Oriente esperava, não se movia; e daqui partiam os peregrinos, as caravelas, os poetas e os visionários, para trazer especiarias espirituais e pérolas filosóficas buriladas pelo tempo. Traziam e as aplicavam aqui e ali, em pequena escala, numa sociedade dominada pela febre da produção e da velocidade.” (Renato Modernell, em “Budismo e Educação no Brasil“).
Enviado por Ricardo Lombardi
01/08/2008 - 06:23h
Circular: “Seja qual for o tipo de enfoque adotado por uma empresa jornalística, a questão da lealdade é fundamental, e geralmente é ignorada ou mal compreendida. A razão de sua importância está justamente no fato de que a imprensa ficou impopular. Quando analisamos esse declínio na confiança pública em relação à imprensa, passamos ao largo do fato de que essa crise de credibilidade tem a ver com motivação. Como cidadãos, não esperamos perfeição dos nossos jornalistas - nem mesmo que conheçam bem ortografia. O problema é mais complexo.
Os jornalistas gostam de pensar que são os representantes do público, cobrindo a sociedade em todos seus níveis, no interesse geral. Acontece, porém, que mais e mais o público não acredita nos jornalistas. As pessoas vêem sensacionalismo, exploração, e sentem que os profissionais de imprensa querem mesmo é faturar, ficar famosos, ou, pior ainda, mostrar uma alegria maldosa com a desgraça alheia. Para reconciliar os leitores com as notícias, e através destas com um mundo mais amplo, o jornalismo deve restabelecer a lealdade aos cidadãos que a indústria editorial ajudou, de forma equivocada, a subverter.
Ainda assim, feitas as contas, isso não será suficiente. Verdade e lealdade para com a população são só os primeiros dois passos para fazer o jornalismo funcionar. O próximo elemento é tão ou mais importante: que método usam os jornalistas para se aproximar da verdade e como transmitem esse método aos cidadãos?” (Bill Kovach e Tom Rosenstiel, “Os Elementos do Jornalismo”, páginas 108 e 109).
Enviado por Ricardo Lombardi
31/07/2008 - 06:09h
Circular: “Afundado na noite. Como alguém que às vezes baixa a cabeça para meditar, totalmente afundado na noite. Em torno as pessoas dormem. Uma pequena encenação, um inocente auto-engano de que dormem em casas, em casas firmes, sob o teto sólido, estirados ou encolhidos sobre colchões, em lençóis, sob cobertas, na realidade reuniram-se como outrora e mais tarde, em região deserta, um acampamento ao ar livre, um número incalculável de pessoas, um exército, um povo, sob o céu frio, na terra fria, estendidos onde antes estavam em pé, a testa premida sobre o braço, o rosto voltado para o chão, respirado tranquilamente. E você vigia, é um dos vigias, descobre o mais próximo pela agitação da madeira em brasa no monte de galhos secos ao seu lado. Por que você vigia? Alguém precisa vigiar, é o que dizem. Alguém precisa estar aí.” (Franz Kafka, “À Noite” em “Narrativas do Espólio”).
Enviado por Ricardo Lombardi
30/07/2008 - 06:20h
Circular: “Mas por que a crise no capitalismo, a mudança de patamar tecnológico, acarreta guerra?
Aqui a gente tem que teorizar, vamos tentar facilitar o máximo possível essa explicação. O que é o capitalismo? É um regime baseado nas mercadorias; as mercadorias têm um valor de uso, que é a utilidade delas — no caso do café, você tomar o café; no caso do óculos, enxergar — e tem o valor de troca, que é o que você paga para ter aquele objeto. O valor de troca da mercadoria, no capitalismo, está baseado no tempo de trabalho socialmente necessário para produzir aquela mercadoria, e a tecnologia nada mais é do que um meio de reduzir o tempo de trabalho vivo necessário para criar o valor adicional que a mercadoria tem. Então, com o desenvolvimento tecnológico, as mercadorias todas vão barateando, como aqui no Brasil: está tudo barato e ninguém pode comprar as coisas porque não tem dinheiro. Por quê? Havendo a concorrência, as empresas brigam para levar cada vez menos tempo de trabalho vivo, que é o que cria a mais-valia, até que chega um ponto em que isso tende quase a zero, daí o que você pode fazer? Você acaba com o capitalismo ou, se quer manter o capitalismo, tem que destruir tudo, destruir as mercadorias em geral para aumentar o tempo de trabalho necessário para produzir.
Logo depois da Segunda Guerra Mundial, houve uma reconstrução fantástica da Europa. Quando teve a guerra do Kosovo, a revista The Economist, britânica, se queixou — se queixou, não, deu vazão à queixa, não vamos acusá-la disso —, dizendo que os empresários ficaram decepcionados porque a destruição foi muito pequena, não ia ter muitos investimentos ali. E não é crueldade humana, é uma coisa quase automática, vai acontecendo sem você perceber, a não ser que estude muito, leia muito e ligue as coisas. E a gente se informa como? Pela mídia, pelo jornal, pela revista, pela televisão. E, também, não é que o jornal queira informar mal. Saiu um livro muito interessante, do Leão Serva, em que ele mostra que o jornalismo fatalmente tende à desinformação por duas razões: primeiro, porque compartimenta o que é uma coisa só — o mundo é uma coisa só e o jornal divide em partes para dar as notícias; segundo, porque o jornal cria um tempo dele, o tempo em que as pessoas vivem, não vê as coisas a longo prazo, dentro das grandes fases históricas. Não é uma questão de má vontade ou de deturpação deliberada, embora isso também exista, mas é da natureza do jornalismo.
Vamos supor que temos aqui um jornal, vamos ver: tem o Bin Laden, tem a preparação americana, tem o Tibete, na China, tem os guerrilheiros na Colômbia, a base de Alcântara na parte nacional etc. Agora, vamos supor que, em vez de um jornal, tenhamos um mapa do estado-maior da OTAN: vamos ter, no Kosovo, “estamos a favor desses contra aqueles”; na Chechênia, “estamos a favor dos mulçumanos contra os ortodoxos”; em Israel, “estamos a favor de Israel contra os palestinos, estamos dando um jeito de largar Israel sozinho na coisa, mas disfarçando muito para não ficar muito na cara”; no Tibete, “estamos com os tibetanos, contra os chineses”; na Índia, “somos mais a favor dos paquistaneses”; na Indonésia, “queremos destruir aquilo lá porque a gente tinha aquilo na mão, houve uma revolução, saiu do nosso controle, já conseguimos tirar o Timor Leste, que é uma causa bem simpática…”. Veja como é diferente a temporalidade do jornal que sai no dia-a-dia, ou mesmo da revista que sai mês a mês, da temporalidade do mapa estratégico da OTAN, que mostra, perfeitamente desenhado, o conflito mundial associado a essa crise do capitalismo. Por que eles não respondem ao atentado exigindo, levando a questão para o tribunal internacional — que, aliás, os Estados Unidos nem apóiam — e pedem a extradição do Bin Laden e, se o Afeganistão não der, aí sim eles vão capturá-lo? Por que já preparam a guerra antes? Porque o capitalismo precisa da guerra.(Renato Pompeu, em entrevista a Marina Amaral, publicada na “Caros Amigos”).
Enviado por Ricardo Lombardi
29/07/2008 - 06:23h
Circular: “Dicas para o pensamento criativo
Descobrir e espantar-se: Procure todos os dias encontrar algo que lhe cause admiração. Pessoas especialmente criativas conservam por toda vida espírito investigativo e curiosidade infantil. Diante disso, é importante questionar até os conhecimentos que parecem seguros. Anotando o que lhe pareceu inusitado e estranho, você poderá fortalecer sua percepção.
Motivação: Nem todo tema ou atividade entusiasmam as pessoas na mesma medida. No pensamento criativo a motivação precisa estar em ordem, já que é preciso fazer alguns esforços. A inspiração aparece sobretudo quando uma área prende muito a atenção. Fundamente o que realmente quer fazer. Assim que sentir uma centelha de interesse, siga a pista. E se algo não o motiva, melhor manter a distância.
Coragem e liberdade de pensamento: Rotina e formas de pensar estanques integram o time de arquiinimigos da criatividade. Frases como “Mas sempre fizemos assim…” acabam de vez com a motivação. Os princípios também podem tornar-se barreiras ao pensamento. A criatividade exige a coragem de suplantar proibições ao pensamento e de olhar mais de perto idéias que em princípio parecem despropositadas - isso tudo sob o signo do inconformismo.
Tranqüilidade e descontração: Embora pessoas criativas sejam freqüentemente ativas, raramente são agitadas. Reserve um pouco de tempo para sonhar acordado e refletir, aí podem vir as melhores idéias. Procure oportunidades para relaxar e aproveite-as de maneira consciente. Pressão é algo que bloqueia a atividade criativa. Quem está à procura de uma idéia e para encontrá-la martiriza o próprio cérebro logo acaba levando o próprio pensamento a um beco sem saída.” (Ulrich Kraft, “Em busca do gênio”, do arquivo de Renato Modernell)
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28/07/2008 - 06:10h
Circular: “Resta lembrar que a vida dos livros é vária como a dos homens. Uns morrem de vinte, outros de cinqüenta, outros de cem anos, ou de noventa e nove (…) Ora, esse prolongamento da vida, curto ou longo, é um pequeno retalho da glória. A imortalidade é que é de poucos.” (Machado de Assis, “A Semana”, 16/8/1896)
“Há muita coisa parasita, muita repetida, e muita que não valia a pena trazer da vida ao livro.” (Machado de Assis, “A Semana”, 27/12/1896)
“(…) o leitor, entretanto, não se refugia no livro, senão para escapar à vida.” (Machado de Assis, “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)
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25/07/2008 - 06:24h
Circular: “O senhor acha que o mundo herdado por seus filhos é…
Pior. Muito pior. Meu filho mais velho tem 43 anos, o mais novo fará 15 daqui a duas semanas. Quando eu tinha a idade deles, sexo era uma grande aventura. Estava lá à sua espera, era aberto, tudo o que se necessitava era ter um certo espírito empreendedor e não temer o fantasma de algum medo religioso no fundo do seu inconsciente. Havia a idéia de que um mundo melhor estava tomando forma, de que o pior já tinha passado. A Segunda Guerra tinha acabado havia pouco e tinha sido uma guerra ‘boa’, em que todo o país acreditara, sem a amarga divisão que aconteceria depois com a Guerra do Vietnã. Hoje meus filhos vivem num mundo em que os jovens se vêem obrigados a pagar pelo déficit que Ronald Reagan nos deixou e os 20 anos sem sentido em que a guerra fria foi espichada. Nós não derrotamos os soviéticos na guerra fria: nós os arruinamos economicamente. Foi um trabalho feio, sujo e desagradável. Também em contraste com a vida de meus filhos, cresci num mundo sem televisão. Isso foi maravilhoso, pois permitiu que minha mente se desenvolvesse sem limites, sem ser interrompida a cada sete minutos por comerciais. Parte dos problemas econômicos do mundo é causada pela inércia diante da televisão. Criadas diante da televisão, as gerações estão crescendo sem aprender a concentrar-se, porque a cada cinco ou dez minutos são interrompidas por um jab na cabeça. Essa é a razão por que as crianças de hoje mal podem ler, não sabem soletrar, não conseguem somar sem a ajuda de uma calculadora. Tudo isso resulta em adultos incapacitados para o trabalho. Televisão é uma doença que não tínhamos na nossa época. Há várias outras, como o esmagamento do espírito. Ele acontece quando se está andando por uma rua e a visão de um arranha-céu nos diz: ‘Sua vida vai ser um nada’. Não tínhamos isso. Charmosas, tristes, bonitas ou feias, as ruazinhas que tínhamos eram cheias de personalidade e vida. Cresci em ruas assim, onde os vizinhos tinham rosto e nome. Por tudo isso posso dizer que a minha vida foi, de longe, muito melhor que a dos meus filhos.” (Norman Mailer, em entrevista ao jornal O Globo, publicada em 20 de março de 1983).
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24/07/2008 - 07:17h
O que dá para comprar com 5 dólares?
O que dá para comprar com 5 dólares? Essa é a pergunta que move o projeto colaborativo de um grupo de designers e de pesquisadores da Nokia, que está recolhendo participações mundo afora e postando tudo no Flickr. Para saber como participar, clique aqui. Para entender um pouco a idéia do projeto, aqui. No exemplo acima, da Itália, o fotógrafo flexibilizou a idéia e fotografou garrafas que custam 4,99 euros.
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24/07/2008 - 06:17h
Circular: “Um dos traços mais singulares do nosso universo secularizado é que nós nele permanentemente existimos por meio de projetos. Tudo se passa como se não pudéssemos viver sem nos fixarmos objetivos a alcançar. Não ignoramos, é claro, que nossas histórias individuais são, em grande parte, moldadas de fora, que elas mais nos escapam do que as dominamos, que “caímos” apaixonados mais do que escolhemos amar, e que os nossos sucessos ou fracassos profissionais dependem de nossa herança social e cultural, antes de passar por nossos talentos pessoais.” (Luc Ferry, “O Homem Deus”).
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23/07/2008 - 06:20h
Circular: “Já somos o esquecimento que seremos, a poeira elementar que nos ignora, que não foi Adão e que é agora todos os homens. Somos apenas duas datas: a do princípio e a do término. Não sou o insensato que se aferra ao mágico som de seu próprio nome. Penso com esperança naquele homem que não saberá o que fui sobre a terra. Abaixo do indiferente azul do céu, esta meditação é um consolo.” (Jorge Luis Borges)
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22/07/2008 - 06:23h
Circular: “E enquanto uma chora, outra ri; é a lei do mundo, meu rico senhor; é a perfeição universal. Tudo chorando seria monótono, tudo rindo cansativo; mas uma boa distribuição de lágrimas e polcas, soluços e sarabandas, acaba por trazer à alma do mundo a variedade necessária, e faz-se o equilíbrio da vida.” (Machado de Assis, “Quincas Borba”).
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21/07/2008 - 06:10h
Circular: “A classe média está realmente morrendo? Por quê?
São várias as razões. A classe média está saindo de cena porque não tem mais o papel político que tinha de conter os impulsos revolucionários da classe operária, e não está mais conseguindo se adaptar às mudanças impostas pela globalização. Nos últimos tempos, passamos de uma sociedade de produtores a uma sociedade de consumidores, onde a demanda é mais importanhte que a oferta, onde o consumidor tem o poder de influenciar e até de co-determinar aquilo que lhe é proposto. E a demanda, hoje, atingiu uma escala global: as empresas podem recuperar no Brasil ou na China as vendas que perderam na Alemanha ou na Itália. Ela também está se deslocando para os países emergentes, onde milhões de pessoas aumentaram consideravelmente sua capacidade de consumo. Mas devemos sempre lembrar que esse é um fenômeno ocidental. Muitos países, principalmente da Ásia, que só agora estão conhecendo a industrialização e o progresso econômico, nunca tiveram uma classe média como a européia.” (Massimo Gaggi, jornalista, em entrevista à revista Vida Simples).
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18/07/2008 - 06:10h
Circular: “Os acontecimentos parecem-se com os homens. São melindrosos, ambiciosos, impacientes, o mais pífio quer aparecer antes do mais idôneo, atropelam tudo, sem justiça nem modéstia…” (Machado de Assis, “A Semana”, 4/12/1892); “Acaso ou propósito? Custava-me a crer que fosse propósito, e o acaso vinha cheio de mistérios.” (Machado de Assis, “Uma noite”)
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17/07/2008 - 06:17h
Circular: “Que foi isso, de repente? Nada; dez anos se passaram. Não diga! Se somaram? Se esgarçaram? Onde estávamos? Onde estamos? E… aonde vamos? O tempo, em lugar nenhum e em silêncio, passa. É inegável — todos temos mais dez anos agora. Ainda bem — poderíamos ter menos dez. Tudo nos aconteceu. Amamos, disso temos certeza. E fomos amados — onde encontrar a certeza? Avançamos aqui materialmente, ali não, nos realizamos neste ponto, em outros queríamos mais, algumas coisas tivemos mais do que pretendíamos ou merecíamos — mas isso é difícil de reconhecer. Perdemos alguém — “Viver é perder amigos”. No meio do feio e do amargo, no tumulto e no desgaste, tivemos mil momentos diminutos de felicidade, no ar, no olhar, na palavra de afeto inesperado, que sei? Espera, eu sei. É a única lição que tenho a dar; a vida é pequena, leve e perto. Muito perto — é preciso estar atento.” (Millôr Fernandes, 1989).
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16/07/2008 - 06:10h
Circular: “Esse escape está se tornando cada vez mais difícil. Para onde formos é mais e mais o mesmo estéril mundo consumista. E sim, claro, o ópio é uma bela fuga. As pessoas falam de escapismo como se fosse ruim. Talvez assistir a TV ou ler maus livros possam, sim, ser escapismo tolo. Mas fugir de uma prisão… inferno, quem quer estar numa prisão? É nisso o que a moderna civilização está se tornando para todos nós, exceto para a aristocracia, que pode ser descrita como as pessoas que presidem a ilusão da democracia: uma prisão. Podem não haver barras de ferro, mas nossas almas e imaginações e desejos estão presos pelas forças da civilização, que, afinal, não é assim tão civilizada.” (Nick Toshes, em entrevista ao jornal “O Globo”).
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15/07/2008 - 06:12h
Circular: “Condomínios são os melhores. Condomínios costumavam ser sempre iguais e cheios de vizinhos enxeridos. Mas isso foi antes do divórcio, das drogas e do mal de Alzheimer. Larchmont, Lake Forest e Shaker Heights agora estão cheios de esposas solitárias e filhas desprotegidas. Praticamente todo mundo tem uma banheira de hidromassagem na área de lazer. (…) Condomínios têm todos os pecados e grande parte das inconveniências das grandes cidades, acrescentando-se ainda o fato de que você pode encontrar um lugar para estacionar e os ladrões são semiprofissionais. Em resumo, o abatedouro ideal para um homem solteiro é uma casa em um condomínio. Isso soa deprimente. E é deprimente. A vida é deprimente. E a solteirice, assim como estar vivo, é mais deprimente do que qualquer outra coisa, mas é a melhor alternativa.” (P. J. O’Rourke, “Guia do Solteiro”).
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14/07/2008 - 06:07h
Circular: “Cada hora, cada dia, a gente aprende uma qualidade nova de medo! (…) Esta vida é de cabeça-pra-baixo, ninguém pode medir suas pêrdas e colheitas. (…) O que é que uma pessoa é, assim por detrás dos buracos dos ouvidos e dos olhos? (…) Um bom entendedor, num bando, faz muita necessidade. (…) Somente com a alegria é que a gente realiza bem — mesmo até as tristes ações.” (João Guimarães Rosa, “Grande Sertão: veredas”, páginas 78, 131, 326, 365 e 382).
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11/07/2008 - 06:07h
Circular: “Via de regra a criatividade não sabe lidar com pressão. É por isso que muitos achados geniais nasceram também fora dos laboratórios - em situações que nada têm a ver com o trabalho. Arquimedes estava deitado na banheira quando lhe ocorreu a lei do empuxo e ele bradou seu famoso “Heureka!”. August Kekulé sonhava com serpentes que mordiam o próprio rabo. A grande descoberta ele fez no dia seguinte: a estrutura química do benzol tinha que ser aneliforme.
Lampejos intelectuais criativos ocorrem para a maioria das pessoas em situações nas quais elas estão justamente pensando em algo totalmente diverso: nas férias, no passeio de domingo ou antes de adormecer. Esse fenômeno tem uma explicação: desde que o cérebro tenha sido alimentado corretamente na fase de preparação, é notório que continua trabalhando em uma solução, mesmo quando nos afastamos do problema por algum tempo. Esse processo que antecede a descoberta inusitada se denomina incubação.” (Ulrich Kraft, “Em busca do gênio”, do arquivo de Renato Modernell).
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10/07/2008 - 06:06h
Circular: “Há muito tempo me desinteressei pelo futebol. Foi quando comecei a ver aqueles latagões, ganhando fortunas e tratados como odaliscas, não conseguirem dar um passe certo no meio do campo — sem qualquer pressão do adversário. Como artista plástico, tratado daquele jeito, eu morreria de vergonha se não pintasse uma capela Sistina por semana.” (Millôr Fernandes, 1984)
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09/07/2008 - 06:07h
Circular: “Há pessoas que só bebem em circunstâncias muito especiais. Mas consideram especiais todas as circunstâncias em que bebem.
Deve-se beber moderadamente, isto é, um pouco todos os dias. Isso não sendo possível, beber muito, sempre que der. Mas o abuso, como a moderação, tem que ser aprendido. O amador que abusa tende a ficar desabusado.” (Millôr Fernandes; verbete “Beber” de “Millôr Definitivo”).
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08/07/2008 - 06:10h
Circular: “Um homem apaixonado pelo céu andava o tempo todo de rosto para
cima, a contemplar as mutáveis configurações das nuvens e o
brilho distante das estrelas.
Nesse embevecimento, não viu uma trave contra a qual topou
violentamente com a testa. Um amigo zombou da sua distração,
dizendo que quem só quer ver estrelas acaba vendo as estrelas
que não quer.
Espírito previdente, esse amigo vivia de olhos postos no chão,
atento a cada acidente do caminho. Por isso não pôde ter sequer
um vislumbre da maravilhosa fulguração do meteoro que um dia lhe
esmagou a cabeça.” (José Paulo Paes, “Altos e Baixos”)
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07/07/2008 - 06:06h
Circular: “A solução do problema da vida está em encontrar uma maneira de fazer o que é problemático desaparecer. O fato de a vida ser problemática significa que nossa vida não se ajusta à forma da vida. Portanto, devemos mudar nossa vida, e, quando ela se ajustar a essa forma, o que é problemático desaparecerá. Mas não temos a sensação de que alguém que não veja tal problema está cego para algo importante, para o que há de mais importante realmente? Não poderia dizer que ele está vivendo sem propósito - cego como uma toupeira; e, se fosse ao menos capaz de enxergar, enxergaria o problema? Ou talvez eu devesse dizer: aquele que vive corretamente não experimenta o problema como sofrimento, mas sim como alegria, isto é, como um halo brilhante em torno de sua vida, e não como um pano de fundo duvidoso. (Wittgenstein, citado em “A Filosofia do Tédio”, de Lars Svendsen)
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04/07/2008 - 06:24h
Circular: uma antologia
Só para variar, publico abaixo uma antologia de frases e trechos de livros que apareceram neste blog nos últimos meses:
“Aquele que se deixa prender sentimentalmente por criatura destituída de dotes físicos de encanto ou graça, acha-as dotada desses mesmos dotes que outros não lhe vêem. ‘Quem ama o feio bonito lhe parece‘” (Millôr Fernandes, “Provérbios prolixizados”, 1959)
“Depois que a tecnologia inventou o telefone, telégrafo, televisão, todos os meios de comunicação a longa distância, é que se descobriu que o problema da comunicação era o de perto.” (Millôr Fernandes)
“O casamento foi para ele uma espécie de passeio ao Corcovado. Ora, todos são de acordo que do Corcovado se goza uma vista magnífica, mas ninguém lembrou ainda a idéia de lá fundar uma cidade. Ninguém lá fica; sobe-se, goza-se, desce-se.” (Machado de Assis, “Qual dos dois?”, em “Histórias Românticas”).
“Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer.” (Graciliano Ramos)
“Mais um comentário sobre o filme de Antonioni. A Lei de Tynan sobre o Cinema Responsável: todos os filmes que tentem diagnosticar a sério os Problemas Humanos Contemporâneos são ruins. Só os filmes históricos, as comédias, as sátiras e os filmes de suspense prestam. Não sei porque é assim, mas é. (Nota: Cidadão Kane é em parte histórico e, em parte, uma sátira.)” (Kenneth Tynan, 16 de junho de 1975)
“Na rua, andando, sem almoço, sem vintém, parecia levar após si um exército. A causa não era outra mais do que o contraste entre a natureza e a situação, entre a alma e a vida. Esse Custódio nascera com a vocação da riqueza, sem a vocação do trabalho.” (Machado de Assis, “O Empréstimo”, em “Papéis Avulsos”).
“Toda família clássica sente-se na obrigação de ter um fracassado: uma família sem fracassado não é uma família de verdade, porque lhe falta um princípio que a conteste e lhe dê legitimidade. O tio tem quarenta anos e mora num conjugado de trinta metros quadrados: é como um quarto de criança, só que sem pais. A superfície ocupada pelo tio é inversamente proporcional à sua idade: quando ele tinha trinta anos, dispunha de um apartamento de cinqüenta metros quadrados. O tio deseja que sua mãe vá continuar entre os mortos sua paixão pelas doenças e sua tagarelice maçante. Não que dê para tirar assim da alma uma farpa dessas, mas o desaparecimento físico de uma pessoa proporciona com toda certeza vantagens definitivas. O tio acumulou tropeços gratificantes, que confortam a família em suas escolhas justas e nobres: desemprego, divórcio, falta de descendentes, concubinato com mulheres divorciadas, inserções fracassadas em lares monoparentais etc.” (Pierre Mérot em “Mamíferos”)
“Tantas vezes me mataram
tantas vezes já morri
e no entanto estou aqui
ressuscitando
Agradeço à desgraça
e àquele golpe de punhal
que me matou tão mal”
(trecho da canção argentina “La Cigarra”, de Maria Elena Walsh)
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04/07/2008 - 06:07h
Circular: “E assim é com nosso próprio passado. É trabalho vão tentar capturá-lo, todos os esforços de nosso intelecto são inúteis. O passado está escondido em algum lugar fora da esfera do intelecto, além do seu alcance, em algum objeto material (na sensação que esse objeto material nos daria) de que sequer suspeitamos. E depende do acaso que reencontraremos ou não esse objeto antes de morrer.” (Marcel Proust, “No caminho de Swann”).
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03/07/2008 - 06:07h
Circular: “Tem uma verdade que se carece de aprender, do encoberto, e que ninguém não ensina: o bêco para a liberdade se fazer. Sou um homem ignorante. Mas, me diga o senhor: a vida não é cousa terrível? Lengalenga. Fomos, fomos. (…) O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.” (Guimarães Rosa, “Grande Sertão: Veredas”, páginas 280 e 290)
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02/07/2008 - 06:07h
Circular: “O que demasia na gente é a força feia do sofrimento, própria, não é a qualidade do sofrente. (…) Esta vida está cheia de ocultos caminhos. Se o senhor souber, sabe; não sabendo, não me entenderá.” (Guimarães Rosa, “Grande Sertão: Veredas”, páginas 121 e 140)
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01/07/2008 - 06:07h
Circular: “Todos estão loucos, neste mundo? Porque a cabeça da gente é uma só, e as coisas que há e que estão para haver são demais de muitas, muito maiores diferentes, e a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça, para o total.” (Gumarães Rosa, “Grande Sertão: Veredas”)
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30/06/2008 - 06:07h
Circular: “Eu diria que a quantidade de tédio, se o tédio for mensurável, é muito maior hoje do que no passado. Porque as profissões antigas, pelo menos a maioria delas, eram impensáveis sem um envolvimento apaixonado: os camponeses apaixonados por sua terra; meu avô, o mágico de belas mesas; sapateiros que conheciam de cor os pés de cada aldeão; os madeireiros; os jardineiros; provavelmente até os soldados matavam com paixão naquela época. O significado da vida não era uma questão; estava lá com eles, muito naturalmente, em suas oficinas, em seus campos. Cada profissão havia criado sua própria mentalidade, sua própria maneira de ser. Um médico pensava de maneira diferente de um camponês, um soldado comportava-se diferente de um professor. Hoje somos todos semelhantes, todos unidos por nossa apatia compartilhada em relação ao nosso trabalho. Essa mesma apatia tornou-se uma paixão. A única grande paixão coletiva de nosso tempo.” (Milan Kundera em ” A identidade”, citado no livro “Filosofia do Tédio”, de Lars Svendsen)
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27/06/2008 - 06:03h
Circular: “Nenhum homem acredita piamente em nenhum outro homem. Pode-se acreditar piamente numa idéia, mas não num homem. No mais alto grau de confiança que ele pode despertar, haverá sempre o aroma da dúvida – uma sensação meio instintiva e meio lógica de que, no fim das contas, o vigarista deve ter um ás escondido na manga. Esta dúvida, como parece óbvio, é sempre mais do que justificada, porque ainda não nasceu o homem merecedor de confiança ilimitada – a sua traição, no máximo, espera apenas por uma tentação suficiente. O problema do mundo não é o de que os homens sejam muito suspeitos neste sentido, mas o de que tendem a ser confiantes demais – e de que ainda confiam demais em outros homens, mesmo depois de amargas experiências. Acredito que as mulheres sejam sabiamente menos sentimentais, tanto nisto como em outras coisas. Nenhuma mulher casada põe a mão no fogo por seu marido, nem age com se confiasse nele. A sua principal certeza assemelha-se à de um batedor de carteiras: a de que o guarda que o apanhou poderá ser subornado.” (Henry Mencken)
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26/06/2008 - 06:07h
Circular: “Que conselhos você daria para alguém que está começando no jornalismo?
Pompeu - 1) Abandonar imediatamente a profissão e escolher outra. 2) Se não for possível isso, procurar se estabelecer por conta própria na internet, com patrocínio próprio que não interfira na sua independência. 3) Se isso também não foi possível, procurar manter a dignidade profissional e preparar-se para uma vida de sacrifícios.” (Renato Pompeu, em entrevista a Ana Luiza Moulatlet)
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25/06/2008 - 06:07h
Circular: “Você pode imaginar o que é a velhice? É claro que não. Eu não podia. Nunca consegui. Não fazia idéia do que era. Não tinha nem mesmo uma imagem falsa - não tinha imagem nenhuma. E ninguém quer outra coisa. Ninguém quer encarar a velhice antes de ser obrigado a encará-la. Como é que tudo vai terminar? Em relação a isso, ser obtuso é de rigueur. Por motivos óbvios, é impossível imaginar uma etapa de vida posterior àquela em que estamos. Às vezes já chegamos na metade da fase seguinte quando nos damos conta de que já estamos nela. (…) É importante traçar uma distinção entre o morrer e a morte. O morrer não é um processo ininterrupto. Se a gente tem saúde e se sente bem, é um processo invisível.” (Philip Roth, “O Animal Agonizante”).
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24/06/2008 - 06:05h
Circular: “Uma das melhores coisas da solteirice é que ninguém espera que sejamos hospitaleiros. Nós somos obviamente egoístas. Caso contrário estaríamos casados e levando crianças para a escola. Além disso, a sociedade é um mercado livre e nós somos raras commodities. Toda anfitriã norte-americana vira a agenda do avesso em busca de convidados descompromissados. Desde que nossa aparência não assuste os gatos, somos sempre convidados. Em retribuição, tudo o que temos de fazer é manter nossos dedos longe das alianças de casamento. Levar nossas vidas de zangões felizes. Toda a colméia da civilização está ocupada nos alimentando e divertindo.” (P. J. O’Rourke, “Guia do Solteiro”).
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23/06/2008 - 06:03h
Circular: “A experiência original é aquela que ainda não foi interpretada para você, assim você tem de construir sua vida por si mesmo. Você pode encará-la ou não, e não precisa afastar-se demais do caminho conhecido para se ver em situações muito difíceis. A coragem de enfrentar julgamentos e trazer todo um novo conjunto de possibilidades para o campo da experiência interpretável, para serem experimentadas por outras pessoas – é essa a façanha do herói.” (Joseph Campbell, “O Poder do Mito”).
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20/06/2008 - 06:06h
Circular: “Não sei que caos é este a que se referem nossos articulistas políticos, e que, segundo eles, já se aproxima. Engano: há muito estamos nele. O Brasil é um prodigioso produto do caos, uma rosa parda de insolvência e de confusão. A verdade é que já nos acostumamos com isso, não dói mais, como certas doenças malignas. ” (Lúcio Cardoso, “Diário Completo”, 1949)
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19/06/2008 - 06:05h
Circular: “Para quem escreve memórias, onde acaba a lembrança? Onde começa a ficção? Talvez sejam inseparáveis. Os fatos da realidade são como pedra, tijolo - argamassados, virados parede, casa, pelo saibro, pela cal, pelo reboco da verossimilhança - manipulados pela imaginação criadora.” (Pedro Nava, “Balão Cativo”)
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18/06/2008 - 06:07h
Circular: “Os hábitos e as idiossincrasias mais desagradáveis do homem, como a trapaça, a covardia e a falta de respeito, são produzidos pela sua adaptação incompleta a uma civilização complicada. É o resultado do conflito entre os nossos instintos e a nossa cultura.” (Sigmund Freud, no livro “A Arte da Entrevista”, uma antologia organizada por Fábio Altman).
Enviado por Ricardo Lombardi
17/06/2008 - 06:05h
Circular: “‘O jornalista é um apaixonado pela profissão, um ser vaidoso que põe todos os demais assuntos, inclusive a vida familiar, em segundo plano.’ A conclusão é da antropóloga e jornalista Isabel Siqueira Travancas, na sua tese O mundo do jornalista, de 230 páginas. Com base em 52 depoimentos, ela apurou que os jornalistas se queixam de trabalhar muito e ganhar pouco. Mas persistem no ofício, pelo prestígio, pela ausência de rotina e pelo fascínio de lidar com com conceitos humanos.” (Renato Modernell em “Os Jornalistas - O Romance do Carrossel”).
Enviado por Ricardo Lombardi
16/06/2008 - 06:07h
Circular: “Todos os homens, em algum momento da vida, se sentem sós. E mais: todos os homens estão sós. Viver é nos separar do que fomos para nos internar no que vamos ser, futuro estranho sempre (…) Unido ao mundo que o rodeia, o feto é vida pura e em bruto, fluir ignorante de si mesmo. Ao nascer, rompemos os laços que nos unem à vida que vivemos no útero, onde não há pausa entre desejo e satisfação. Viver se expressa como separação e ruptura, desamparo, entrada num ambiente hostil e estranho. À medida que crescemos, essa primitiva sensação se torna sentimento de solidão. (…) Expulsos do claustro materno, iniciamos um angustiante salto literalmente mortal, que só termina quando caímos na morte. (…) Se tudo (consciência de si, tempo, razão, costumes, hábitos) tende a fazer de nós os expulsos da vida, tudo também nos empuxa a voltar, a descender ao seio em que fomos amamentados.” (Octavio Paz em “O Labirinto da Solidão”).
Enviado por Ricardo Lombardi
13/06/2008 - 06:07h
Circular: (…) 422 - Temos de ver que, muito mais que tão somente algum simples esporte,/ Os jogos de bola espetáculos dramáticos é que são, de grande porte./ Se trata de um tipo, porém muito especial, de teatro,/ Em que se defrontam, não personalidades em roteiro pré-datado,/ Mas instituições, em disputa de imprevisto destino e fado./ Na verdade, o desenrolar de cada jogo-peça/ A cada momento por parte do ator é determinado. /Portanto, é arte de grande valor, de alto quilate.
423 - Essas instituições, que no jogo-espetáculo se enfrentam,/ Não são os times, os clubes; algo mais alto representam./ Pode ser, como já foi o Corinthians, a classe trabalhadora,/ Ou, como o São Paulo, a oligarquia aristocrática,/ Ou, como o Palmeiras, a classe média democrática./ Ou, como na Europa, o Roma, Milan, Manchester,/ Schalke e Barcelona,/ Uma cidade, um bairro, uma região, de gente antigona./ Porém isso, na verdade, águas estão ficando passadas.
424 - Com a derrota do socialismo e com o avanço neoliberal,/ Os jovens da classe trabalhadora perderam essa identidade./ São indivíduos, que no máximo se reúnem apenas em tribos./ Assim, para eles, torcer para algo transcendente ao time/ Sentido não mais tem, como se esse algo não mais exista./ Por isso, quando a torcida não se torna em fúria racista, / O torcedor não mais vê a derrota como lição de vida:/ O time não é mais símbolo, é uma realidade só em si contida. (…) (Renato Pompeu em “As/Os Brasilíadas - Prosa Rimada, Botequim de Idéias)
Enviado por Ricardo Lombardi
12/06/2008 - 06:07h
Circular: “Sou uma pessoa de tendências intuitivas, não sou pessoa de muito raciocínio. Comporto-me como minha intuição me sugere, desde a maneira de dar uma aula. Posso ter preparado a aula e, ao chegar à sala, mudar completamente, porque na hora surgiu outra idéia, e vou atrás daquela no momento, que me fascina mais. Sendo assim, não gosto muito de separar as coisas da vida. Acho que tudo é uma coisa só. A vida não se separa em ciência, em atividade política, em atividade filosófica, ou outras coisas. A vida é uma coisa só, naturalmente toda marcada pela personalidade da pessoa. Cada pessoa tem a sua personalidade intuitiva. Tenho muita dificuldade em preparar um texto para uma conferência, uma aula, e, sempre que o faço, acabo mudando as coisas e falo muito do que estou sentindo no momento. Assim, acho que não só sou mais verdadeiro comigo mesmo, como também, sendo mais verdadeiro, facilito o contato com as outras pessoas. Quando a gente se prepara muito, deixa de ser verdadeiro consigo mesmo, fica meio fingido, e dificulta o contato com outras pessoas. Uma aula muito bem preparada, escrita, completa, é uma aula ruim, porque é uma coisa morta, não tem a vivacidade de coisa que está sendo criada no momento em que se diz. Evidentemente, não invento o que dou na aula, mas procuro sempre inventar formulações novas. Dessa forma, se estabelece um contato melhor entre o professor e o aluno. (Mário Schenberg em “Voar Também é com os Homens – O Pensamento de Mário Schenberg”, de José Luiz Goldfarb. Do arquivo de Renato Modernell)
Enviado por Ricardo Lombardi
11/06/2008 - 06:07h
Circular: “E agora essa alegria ambígua, a alquimia: o crepúsculo de domingo celebra a passagem do vinho ao vinagre, processo secreto que me faz dissipar quem sou e reencarnar quem fui. Não sei quanto me resta. Só sei que estarás aqui quando eu, incógnito como cheguei, já tiver partido. Qual será o último filme, a última pizza? Só os duvidosos deuses enxergam o número de série de cada objeto e de cada gesto. No domingo, eles se divertem jogando bingo. Somos as pedrinhas saindo do saco escuro.” (Renato Modernell em “Os Jornalistas - O Romance do Carrossel”)
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10/06/2008 - 06:04h
Circular: “O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno em que vivemos cada dia, que formamos estando juntos. Há duas maneiras de não sofrer. Uma é fácil à maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte dele até deixar de percebê-lo. A outra é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço.” (Marco Polo em “As Cidades Invisíveis”, de Italo Calvino, citado por Renato Modernell em “Os Jornalistas - O Romance do Carrosel”).
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09/06/2008 - 06:07h
Circular: ” (…) a primeira entrevista da amizade é o oposto da primeira entrevista do amor; nesta a mudez é a grande eloquência; naquela inspira-se e ganha-se a confiança, pela exposição franca dos sentimentos e das idéias.” (Machado de Assis em “A mulher de preto”)
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08/06/2008 - 20:35h
Circular: “Num país inteiramente desmoralizado, quando o cidadão ouve dizer, ‘Não cobiçarás a mulher do próximo’, acha que o estão autorizando a cobiçar todas as outras.” (Millôr Fernandes)
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06/06/2008 - 06:02h
Circular: “Vernon fazia amor com a esposa três vezes e meia por semana, e isso estava muito bem. Por algum motivo, fazer amor sempre tinha essa média. Normalmente - se bem que nunca invariavelmente - eles faziam amor uma vez a cada duas noites. Por outro lado, sabia-se que Vernon podia fazer amor com a esposa sete noite consecutivas; nas sete noite seguintes, não faziam amor - ou talvez viessem a fazer uma vez só, mas nesse caso só fariam amor duas vezes na semana seguinte, mas quatro vezes depois disso - ou talvez só três vezes, e nesse caso fariam amor quatro vezes na semana seguinte, mas só duas na semana subseqüente - ou talvez uma vez só. E assim por diante. Vernon não sabia por quê, mas fazer amor sempre dava essa média; parecia invariável. De vez em quando - e por acaso isso era de admirar? - Vernon descobria que tinha vontade de que a semana tivesse apenas seis dias, ou nada menos que oito dias, para tornar esses cálculos (que tinham sempre um efeito aprazivelmente fortificante para o espírito) mais fáceis de manejar”. (Martin Amis em “Quero calcular quantas vezes”, do livro “Água Pesada e outros contos”)
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05/06/2008 - 06:04h
Circular: “As companheiras do homem, mesmo que mostrem respeito por seus méritos ou autoridade, sempre o vêem secretamente como um jumento, e com uma sensação próxima da piedade. O que ele diz ou faz, por mais brilhante, raramente as engana; elas vêem o homem como ele é por dentro e o consideram um sujeito oco e patético. Neste fato, talvez resida uma das melhores provas da inteligência feminina. As características desta assim chamada intuição são simplesmente uma aguda e acurada percepção da realidade, uma imunidade natural ao encantamento emocional e uma incansável capacidade para distinguir claramente entre a aparência e a substância. A aparência do homem, no círculo familiar comum, é a de um magnífico herói, um semideus. A substância é a de um pobre coitado. (…) Intuição? Uma ova! As mulheres são as supremas realistas da espécie. Aparentemente ilógicas, elas detêm uma superlógica rara e sutil (…)” (”A Mente Feminina”, de H.L. Mencken, 1918; em “O Livro dos Insultos de H.L Mencken”)
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04/06/2008 - 06:02h
Circular: “Passei uns dias em uma cidade cuja população é a de não mais de dois ou três quarteirões de São Paulo. Fiquei na casa de um casal de amigos. Eles têm um único filho, de quatro anos.
Numa manhã chuvosa apareceu uma van com nove colegas de escola para brincar com ele. Nas férias costumam fazer esse rodízio, um dia na casa de cada um. Grande idéia, pensei. Pena que não a tivessem tido naquelas nossas tardes de inverno do sul. A professora, que veio na van, esclareceu:
- Todos esses também são filhos únicos.
- Os nove?
Sim, nove. Dez com o anfitrião. Eu sabia que a tendência ao filho único é um vento que sopra da China, varre a Europa e chega às capitais brasileiras. Conheço muita gente que só tem um, como eu, aliás (ou assim espero, pois não conto com lobistas para me custear os gastos nos bastidores). Mas cala-te, boca! Basta dizer que, até ver a van chegar, eu não imaginava que um modelo minimalista de família estivesse em voga também no interior do país. Limitei-me ao espanto. Já não tenho o receio de antes em relação ao filho único. No passado, ele enfrentava duas formas de solidão. Uma em casa, por não ter aliados no desafio de fazer face ao mundo dos adultos. Outra, fora, por ser visto como exceção à regra. Este último desconforto já não existe, uma vez que o filho único deixou de ser avis rara. Quanto à solidão doméstica, bem, de repente pode chegar uma van com nove crianças. No tempo das galochas, tínhamos de ficar sozinhos em casa vendo pingos de chuva escorrer no vidro da janela.
Ser filho único tem vantagens e desvantagens. Não cabe lastimar nem enaltecer. Porém o fenômeno se torna inquietante se o associamos à tendência atual de os jovens saírem de casa cada vez mais tarde. Há nisso um fator econômico e outro cultural: para eles, hoje, morar sozinho é menos importante do que foi para nós. Recusam um ritual de passagem. Isto, sim, me preocupa. Surge um modo de convivência familiar muito diferente do que tivemos até hoje. Vislumbro um homem adulto, com nome ‘no mercado’, que continua comendo à noite o prato de comida que um de seus pais, idoso, foi esquentar no microondas. Dessa vez, a van não vai chegar.” (Renato Modernell em “A Era do Filho Único”).
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03/06/2008 - 06:02h
Circular: “(…) Minha admiração pelos homens que passam os dias inteiros na praia. São homens honrados. Não fazem negócios escusos, não emprestam dinheiro a 4% nem ganham comissões nas empreitadas do governo. Ficam na praia, que é de graça, expostos às graças do sol, adquirindo a pigmentação necessária a essa vida úmida dos trópicos. Gosto mais dessa gente, dessa humanidade que não ajuda mas também não atrapalha. Gosto mais desses que dos outros, os que acordam às 6 e partem, às 7, magros e pálidos, para a chamada zona bancária. Aquele escritor, cujo nome é o mesmo do cachorro de Jacinto de Thormes, dizia em Júlio César que não gosta de homens magros. Pensam muito. Chegam a muitas conclusões. Gosta (o escritor, não o cachorro) dos homens luzidios. E são estes, os da praia de Copacabana, que passam óleo nas costas, nos braços, no rosto e nos maus pensamentos.” (Antônio Maria, no “Última Hora”, em 6 de janeiro de 1961)
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02/06/2008 - 06:01h
Circular: “Qual é a importância do estilo?
Estilo? O estilo é como um abraço. Se eu tivesse de escolher um estilo, eu acho que um homem que escreve melhor que eu é William Burroughs. Acho que ele vai permanecer por muito tempo depois de mim porque ele é mais intenso. Ele tem uma qualidade que eu não tenho. Quero dizer, escrevo frases que abraçam as pessoas. Mas ele escreve frases que esfaqueiam as pessoas e você nunca esquece o homem que te esfaqueia. Você pode esquecer um abraço” (Norman Mailer, em entrevista a Eve Auchincloss e Nancy Lynch, em “A Arte da Entrevista”, organização de Fábio Altman)
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30/05/2008 - 06:02h
Circular: “Não se deve estar nunca satisfeito com o que se faz. Nunca está tão bom quanto seria possível. Sempre sonhe e mire acima daquilo que você sabe que pode fazer. Não se preocupe apenas em ser melhor que os seus contemporâneos ou predecessores. Tente ser melhor do que você mesmo. Um artista é uma criatura arrastada por demônios. Não sabe por que o escolheram e normalmente está ocupado demais para se perguntar isso. É totalmente amoral, pois irá roubar, mendigar, pedir emprestado ou furtar de quem quer que seja para ver seu trabalho realizado (…) A única responsabilidade do escritor é para com sua arte. Será inteiramente desapiedado se for um bom escritor. Tem um sonho. Isso o angustia tanto que ele tem que se livrar dele. Não tem paz até então. O resto vai por água abaixo: honra, orgulho, decência, segurança, felicidade, tudo, para que o livro seja escrito. Se um escritor tiver que roubar a sua mãe, não hesitará; a ‘Ode a uma urna grega’ (de John Keats, 1795-1821) vale mais do que qualquer punhado de velhas”.
(William Faulkner, em entrevista à revista “Paris Review”, 1956). Via Gymnopedies, do Jonas Lopes.
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29/05/2008 - 06:04h
Circular: “O boteco é ressoante como uma concha marinha. Todas as vozes brasileiras passam por ele.” (Nelson Rodrigues)
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28/05/2008 - 06:02h
Circular: “Hoje, nosso problema não é captar ou armazenar coisas (isso, a informática resolve) mas de filtrar o acervo. O vinil ocupa lugar, atrapalha. Mas esses discos antigos, riscados, nos propõem o nobre desafio de selecionar o que de fato importa, ou quem sabe ousar o gesto radical de jogá-los todos no lixo. Já o iPod, que tudo pode, me embriaga com a possibilidade de sair catando tudo e jogar lá dentro, sem jamais separar o joio do trigo. Com tantos megabaites no bolso, não preciso me perguntar se ainda gosto daquela música da qual tanto gostava; que partes de mim permaneceram ou ficaram para trás. Porém a turma do vinil sabe que viajar mais leve, sem tranqueiras, é tão saudável quanto controlar o peso do próprio corpo.” (Renato Modernell, “O iPod e a imensidão digital”)
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27/05/2008 - 06:03h
Circular: “Parece que há duas sortes de vocação, as que têm língua e as que não têm. As primeiras realizam-se; as últimas representam uma luta constante e estéril entre o impulso interior e a ausência de um modo de comunicação com os homens.” (Machado de Assis, “Cantigas de esponsais”, em “Histórias sem data”)
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26/05/2008 - 06:03h
Circular: “A mais tola das virtudes é a idade. Que significa ter quinze, dezessete, dezoito ou vinte anos? Há pulhas, há imbecis, há santos, há gênios de todas as idades.” (Nelson Rodrigues)
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23/05/2008 - 06:03h
Enviado por Ricardo Lombardi
22/05/2008 - 06:10h
Circular: “Nesta história de tremor de terra, que é uma mudança de domicílio, não raro acontece encontrarmos velhas coisas perdidas, objetos que mal reconhecemos quando, súbito, os recuperamos; velhos livros que um dia lemos apaixonadamente e que hoje mal lembramos o que contêm, esquecidos de tudo que nos disseram e ensinaram outrora. O tempo, que sepulta incansável todas as coisas e desfaz no passado os maiores acontecimentos, empenha-se não apenas em liquidar, mas também em esconder tudo.” (Augusto Frederico Schmidt, “Saudades de mim mesmo - Uma antologia de prosa”)
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21/05/2008 - 06:04h
Circular: “No que me diz respeito, estou muito satisfeito em saber que o eterno absurdo de viver terminará um dia. Nossa vida se resume a uma série de obrigações, uma luta sem fim entre o ego e o seu ambiente. O desejo de um prolongamento excessivo da vida me parece absurdo.” (Sigmund Freud, em entrevista a George Sylvester Viereck, em “A Arte da Entrevista”, organizada por Fábio Altman)
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