Arquivo de ‘circular’ Categoria
18/11/2009 - 04:37h
“Agir sem agir”

“Ninguém nunca encontra a felicidade, a não ser quando cessa de procurá-la. A minha felicidade maior consiste, exatamente, em não fazer nada, absolutamente, que seja calculado para obter a felicidade. (…) Eis como resumo isso:
O céu nada faz: seu não-agir é sua serenidade.
A terra nada faz: seu não-agir é seu repouso.
Da união desses dois não-agires
procedem todas as ações,
todas as coisas são feitas.
Todos os seres em sua perfeição
nascem, portanto, do não-agir.
Daà se dizer:
‘O céu e a terra nada fazem.
Nada há, porém, que não façam’.
Onde estará o homem
capaz de alcançar este não-agir?”
Do filósofo chinês Chuang Tzu, um dos maiores pensadores do taoÃsmo (via blog do Armando Antenore). Para ilustrar o post, ” Cookie at Tin Pan Alley”, NYC, 1983, de Nan Goldin.
Enviado por Ricardo Lombardi
11/11/2009 - 06:05h
“No Brasil, somos também vigiados pelas nossas famÃlias, cujo princÃpio básico é evitar a solidão de seus membros”
Circular: “A maioria dos intelectuais brasileiros que conheço teve que lutar para ler um livro dentro de suas casas, independentemente de nÃvel social. (…) É que, no Brasil, somos também vigiados pelas nossas famÃlias, cujo princÃpio básico é evitar a solidão de seus membros. Qualquer tipo de isolamento ou individuação, seja porque a pessoa fala pouco ou porque fica dentro de seu quarto (quando o tem), é tomado como sintoma de que algo não está bem. Criamos nossos rebentos para serem sociáveis e dependentes dos mais velhos e exemplos para os mais novos. Olhamos mais vertical do que horizontalmente. Dessa jaula de carinhos e favores feita por relações perpétuas (pois nem a morte rompe com elas), não há escapatória. Nossas crianças não podem ficar sozinhas. A todo momento um adulto as excita, solicitando um olhar ou um sorriso. É enorme a carga social que despejamos uns nos outros. Disso resulta uma aversão à solidão que, no Brasil, é castigo. Na América, ensina-se como fazer amigos. No Brasil, precisamos do manual de como podemos nos livrar daqueles que, por amor, nos sufocam. É óbvio que uma pessoa assim socializada tenha dificuldades em ler e estudar, pois essas são atividades _como descobriram os monges e profetas_ que demandam um mÃnimo de isolamento e de autonomia, esses irmãos de um silêncio que é mandamento principal das bibliotecas e de todos os ambientes de leitura.”
Do antropólogo Roberto DaMatta, no artigo “Ficar sozinho no Brasil”. (Via blog do Armando Antenore).
Enviado por Ricardo Lombardi
04/11/2009 - 06:00h
“Toda atividade humana é assombrosamente complexa, não só a do gênio: mas nenhuma é um ‘milagre’”
Circular: “Porque pensamos bem de nós mesmos, mas não esperamos ser capazes de algum dia fazer um esboço de um quadro de Rafael ou a cena de um drama de Shakespeare, persuadimo-nos de que a capacidade para isso é algo sobremaneira maravilhoso, um acaso muito raro ou, se temos ainda sentimento religioso, uma graça dos céus. É assim que nossa vaidade, nosso amor-próprio, favorece o culto ao gênio: pois só quando é pensado como algo distante de nós, como um miraculum, o gênio não fere (mesmo Goethe, o homem sem inveja, chamava Shakespeare de sua estrela mais longÃnqua; o que nos faz lembrar aquele verso: “as estrelas, não as desejamos”). Mas, não considerando estes sussurros de nossa vaidade, a atividade do gênio não parece de modo algum essencialmente distinta da atividade do inventor mecânico, do sábio em astronomia ou história, do mestre na tática militar. Todas essas atividades se esclarecem quando imaginamos indivÃduos cujo pensamento atua numa só direção, que tudo utilizam como matéria-prima, que observam com zelo a sua vida interior e a dos outros, que em toda a parte enxergam modelos e estÃmulos, que jamais se cansam de combinar os meios de que dispõem. Também o gênio não faz outra coisa senão aprender antes a assentar pedras e depois construir, sempre buscando matéria-prima e sempre trabalhando. Toda atividade humana é assombrosamente complexa, não só a do gênio: mas nenhuma é um “milagre”. – De onde vem então a crença de que só no artista, no orador e no filósofo existe gênio? de que só eles têm “intuição” (com o que lhes atribuÃmos uma espécie de lente maravilhosa, com a qual vêem diretamente a “essência”!). Claramente, as pessoas falam de gênio apenas quando os efeitos do grande intelecto lhes agradam muito e também não desejam sentir inveja. Chamar alguém de “divino” significa dizer: “aqui não precisamos competir”. E além disso: tudo o que está vindo a ser é subestimado. Mas na obra do artista não se pode notar como ela veio a ser; esta é a vantagem dele, pois quando podemos presenciar o devir ficamos algo frios. A arte consumada da expressão rejeita todo pensamento sobre o devir; ela se impõe tiranicamente como perfeição atual. Por isso os artistas da expressão são vistos eminentemente como geniais, mas não os homens de ciência. Na verdade, aquela apreciação e esta subestimação não passam de uma infantilidade da razão.”
Friedrich Nietzsche, “Humano, Demasiado Humano” (Aforismo 162, pág. 124 da edição da Cia. das Letras). Via Márcio Guilherme.
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02/11/2009 - 07:00h
Por que este caminho e não outro?

René Char, “O nu perdido e outros poemas” (Iluminuras).
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02/11/2009 - 06:32h
“O berço balança pairando sobre um abismo”
 Circular: “O berço balança pairando sobre um abismo, e o senso comum nos diz que nossa experiência não passa de uma breve fenda de luz entre duas eternidades de trevas. Embora as duas sejam gêmeas idênticas, o homem, em geral, encara com mais calma o abismo pré-natal do que aquele a que se destina (a cerca de quatro mil e quinhentas pulsações cardÃacas por hora). Conheço, porém, um jovem cronófobo que sentiu algo parecido com o pânico ao ver pela primeira vez filmes domésticos que haviam sido feitos algumas semanas antes do seu nascimento. Viu um mundo que praticamente não apresentava qualquer diferença – a mesma casa, as mesmas pessoas –, mas então percebeu que era um mundo onde ele não existia, e que ninguém deplorava a sua ausência. Viu de relance a sua mãe acenando de uma janela do segundo andar, e aquele gesto estranho o perturbou, como se fosse um adeus misterioso. Mas o que o deixou particularmente assustado foi a visão de um carrinho de bebê novo em folha na varanda, com o ar presunçoso e inoportuno de um ataúde; e também estava vazio, como se, naquele curso invertido dos acontecimentos, seus próprios ossos se tivessem desintegrado”.
Vladimir Nabokov, A Pessoa em Questão (Via Almir de Freitas).
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30/10/2009 - 06:11h
As cinzas do amigo

Circular: “Seguro o pote com as duas mãos de novo, dando uma olhadinha dentro, e digo: – Venham, venham. – Se juntam todos pra tirar mais um punhado. Não sobrou muito mais do que o suficiente pra uma rodada pra quatro homens. Mergulham a mão de novo, um por um. Mergulho de sorteio. E eu mergulho e todos nós jogamos outra vez, um ralo de rastro de branco, como fumaça, antes de se ir, e algumas gaivotas se precipitam vindas de não sei onde e numa guinada se agastam de novo, como que foram ludibriadas. Então eu sei que não tem bastante pra uma outra divisão, outra rodada completa, de modo que eu mesmo começo a escavar o resto, parece que eles não se importam. Escavo e escavo como um animal cavando a toca, e no fim eu sei que vou ter que erguer o pote e bater como a gente bate quando chega ao fundo de uma caixa de cornflakes. Um punhado, dois punhados, tem só dois punhados. Digo: – Adeus, Jack. – O céu e o mar e o vento se misturam, mas acho que não faria nenhuma diferença se não estivessem misturados (…). O rosto do Vic e do Vincey parecem bolhas brancas, mas o do Lenny parece uma luz de farol, e do outro lado da água dá para ver as luzes de Margate. Dá para ficar no fim do PÃer de Margate e olhar pra Dreamland. Depois jogo o último punhado e as gaivotas voltam atrás de uma segunda oportunidade e eu estendo o pote, sacudindo, como se devesse jogar ele dentro do mar também, uma mensagem numa garrafa, Jack Arthur Dodds, salve nossas almas, e as cinzas que carreguei nas minhas mãos, que eram o Jack que uma vez esteve vivo, são carregadas pelo vento, são rodopiadas pra longe pelo vento até as cinzas se transformarem no vento e o vento se transformar no Jack de que nós somos feitos.â€
“Últimos pedidos”, de Graham Swift. Trecho pescado no blog do Michel Laub. Para ilustrar, trabalho de Dirk Bell (Revelation Big Sun).
Enviado por Ricardo Lombardi
23/10/2009 - 14:56h
“Resoluções antecipadas de ano novo”, por Michel Laub

As resoluções antecipadas de ano novo do escritor e jornalista Michel Laub. Peguei lá no blog dele.
“1. Não ler nenhum artigo sobre lei Rouanet.
2. Não comparecer a nenhum debate sobre kindle e pirataria de livros.
3. Não ver filmes com os seguintes temas: situação dos imigrantes na França, incomunicabilidade, Cuba e Islã, classe média brasileira insensÃvel. De segunda guerra, só se Hitler morrer num incêndio.
4. Assistir a somente um filme de Steven Soderbergh.
5. Não assistir ao filme do Lula. Se for inevitável, não comentar. Se for inevitável, não mencionar Glória Pires dizendo “tu vai te chamar Luiz Inácioâ€.
6. Não ir a nenhum show de sambista da FFLCH, mulher de voz suave que canta bossa nova sorrindo, letrista que faz trocadilho com termos da internet, banda com mais de 50% dos integrantes usando bigode e camisa de lenhador.
7. Não ir a nenhum show em locais sem pia. Ou com pia, mas sem água corrente.
8. Não fazer nenhuma piada sobre: poetas, release de artes plásticas, bebida em vernissage, teatro popular ou do oprimido.
9. Resistir bravamente a: twitter, Máfia Wars, séries americanas, livros sobre futebol aproveitando o gancho da copa, pinball em casa.
10. Não encerrar nenhuma lista fazendo referência à própria lista – “não fazer mais resoluções antecipadas de ano novo†– ou remetendo ao item anterior – “pinball em casa: vai ser difÃcilâ€.”
Para ilustrar o post, trabalho de Mark Lombardi.
Enviado por Ricardo Lombardi
21/10/2009 - 06:29h
“Corro de burro quando foge”

Escreve o Armando Antenore, lá no blog dele:
“Criamos as lÃnguas sob a ilusão de que poderÃamos, pela palavra, dominar e esculpir a realidade.
Algo, no entanto, deu errado. Não só a realidade se opôs à nossa pretensão de domÃnio pleno como os próprios idiomas se revelaram incontroláveis, seguindo caminhos tortuosos que muitas vezes flertam com o nonsense. É o que demonstra o recém-lançado Dicionário de Expressões Coloquiais Brasileiras, do professor carioca Nélson Cunha Mello. Tão útil quanto saboroso, o livro publicado pela Leya esclarece a origem de inúmeros termos e frases que empregamos cotidianamente, não raro sem nos perguntar se de fato fazem sentido. Cinco exemplos:
* Por que, afinal, dizemos que um objeto exibe a estranhÃssima “cor de burro quando foge”? Alguém já viu um burro mudar de cor assim que sai em disparada? Cunha Mello explica que a expressão é uma corruptela e deriva, na verdade, de uma afirmação nada absurda: “corro de burro quando foge”.
Da mesma maneira,
* “enfiar o pé na jaca” advém de “enfiar o pé no jacá”, uma espécie de cesto;
* “estar com bicho-carpinteiro” descende de “estar com bicho pelo corpo inteiro”;
* “ir para cucuia” provém de “ir para o cemitério da Cacuia”, um bairro na Ilha do Governador (RJ) e
* “quem tem boca vai a Roma” decorre de “quem tem boca vaia Roma”.”
Para ilustrar, “My father with his list”, trabalho de Allan Sekula.
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20/10/2009 - 06:30h
Carne del diablo

Circular: “Eu como Spam americano. Muito tempo depois, guardo as latas abertas com uma chave para transformá-las em navios de guerra que pinto cuidadosamente de cinza. A pasta rosa que essas latas contêm, envolta em gelatina, meio com gosto de sabão, me enche de felicidade. Seu cheiro de carne fresca, a fina pelÃcula de gordura que o patê deixa em minha lÃngua, que me forra o fundo da garganta. Para os outros, mais tarde, para aqueles que não conheceram a fome, esse patê deve ser sinônimo de horror, de comida de pobre. Vinte e cinco anos depois reencontrei-o no México, em Belize, nas lojinhas de Chetumal, de Felipe Carrillo Puerto, de Orange Walk. Por lá ele se chama carne del diablo, carne do diabo. É o mesmo Spam, em sua lata azul ornada com uma imagem que mostra o patê em fatias sobre uma folha de alface.”
J. M. G. Le Clézio, “Refrão da Fome” (Via blog do Almir de Freitas).
Enviado por Ricardo Lombardi
05/10/2009 - 06:19h
Robert Crumb: “O futuro vai ter muito mais aparelhos eletrônicos para fiscalização”
“O que acho das utopias? Na verdade, penso mais nas distopias, num mundo que se transforma em pesadelo. Por exemplo: no futuro, é bem possÃvel que todas as medidas de segurança que temos hoje e de que não gostamos, como quando viajamos de avião e precisamos ser revistados, tirar os sapatos, essas coisas, creio que esse tipo de segurança só vai aumentar. As pessoas vão ver com nostalgia os tempos atuais como um tempo de segurança muito branda. Quem sabe? Acho que o futuro vai ter muito mais aparelhos eletrônicos para fiscalização. As pessoas podem até decidir implantar algo no corpo, um chip eletrônico para determinados tipos de revista de segurança. Então se você tem um chip, ele abre automaticamente as portas para você. Vai começar com os ricos. Eles vão achar vantajoso ter esse chip: o implante diz quem eles são e por que estão fazendo isso, não precisam ser interrogados, enquanto as pessoas comuns ainda precisariam ser interrogadas e humilhadas. O chip vai ser uma vantagem, então todo mundo vai querer um.”
Robert Crumb, em entrevista a Hans Ulrich Obrist (Via blog do Armando Antenore).
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05/10/2009 - 06:11h
“Por que uns podem ter bombas atômicas, enquanto outros não podem?”

“Sou partidário da abolição de todas as armas nucleares, mas não entendo por que o Irã e a Coreia do Norte não podem ter bombas atômicas, enquanto os Estados Unidos, Rússia, Grã-Bretanha, França, China, Israel, Ãndia e Paquistão podem. A alegação de que o Irã e a Coreia do Norte têm regimes irresponsáveis não me parece clara. Afinal, o único paÃs irresponsável o bastante para ter lançado bombas atômicas, entre todos os seus detentores, foram os Estados Unidos e não me consta que os EUA tenham sido punidos por sua irresponsabilidade nuclear”.
Renato Pompeu, lá no novo blog dele.
Enviado por Ricardo Lombardi
28/09/2009 - 06:27h
“Não entendeu? Entre aqui.”

Foto tirada por Marcos Nogueira em Portugal, na cidade do Porto. Via Facebook.
Enviado por Ricardo Lombardi
14/09/2009 - 06:55h
“As 100 palavras mais engraçadas da lÃngua”, por Max Nunes
Enviado por Ricardo Lombardi
08/09/2009 - 07:17h
“A revolução não é saudável para a cabeça e os pescoços dos envolvidos, sejam heróis, sejam bandidos”
Enviado por Ricardo Lombardi
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24/08/2009 - 06:20h
“Fenomenologia da humildade”
Enviado por Ricardo Lombardi
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