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Desculpe a Poeira

20/10/2009 - 06:30h

Carne del diablo

leclezio

Circular: “Eu como Spam americano. Muito tempo depois, guardo as latas abertas com uma chave para transformá-las em navios de guerra que pinto cuidadosamente de cinza. A pasta rosa que essas latas contêm, envolta em gelatina, meio com gosto de sabão, me enche de felicidade. Seu cheiro de carne fresca, a fina película de gordura que o patê deixa em minha língua, que me forra o fundo da garganta. Para os outros, mais tarde, para aqueles que não conheceram a fome, esse patê deve ser sinônimo de horror, de comida de pobre. Vinte e cinco anos depois reencontrei-o no México, em Belize, nas lojinhas de Chetumal, de Felipe Carrillo Puerto, de Orange Walk. Por lá ele se chama carne del diablo, carne do diabo. É o mesmo Spam, em sua lata azul ornada com uma imagem que mostra o patê em fatias sobre uma folha de alface.”

J. M. G. Le Clézio, “Refrão da Fome” (Via blog do Almir de Freitas).

Enviado por Ricardo Lombardi

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Sobre o autor

Ricardo Lombardi

Jornalista (ex-Estadão, Jornal da Tarde, Último Segundo, America Online, Bravo!, etc; atualmente edita a revista VIP). lombardi@desculpeapoeira.com

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