30/10/2009 - 06:11h
As cinzas do amigo

Circular: “Seguro o pote com as duas mãos de novo, dando uma olhadinha dentro, e digo: – Venham, venham. – Se juntam todos pra tirar mais um punhado. Não sobrou muito mais do que o suficiente pra uma rodada pra quatro homens. Mergulham a mão de novo, um por um. Mergulho de sorteio. E eu mergulho e todos nós jogamos outra vez, um ralo de rastro de branco, como fumaça, antes de se ir, e algumas gaivotas se precipitam vindas de não sei onde e numa guinada se agastam de novo, como que foram ludibriadas. Então eu sei que não tem bastante pra uma outra divisão, outra rodada completa, de modo que eu mesmo começo a escavar o resto, parece que eles não se importam. Escavo e escavo como um animal cavando a toca, e no fim eu sei que vou ter que erguer o pote e bater como a gente bate quando chega ao fundo de uma caixa de cornflakes. Um punhado, dois punhados, tem só dois punhados. Digo: – Adeus, Jack. – O céu e o mar e o vento se misturam, mas acho que não faria nenhuma diferença se não estivessem misturados (…). O rosto do Vic e do Vincey parecem bolhas brancas, mas o do Lenny parece uma luz de farol, e do outro lado da água dá para ver as luzes de Margate. Dá para ficar no fim do PÃer de Margate e olhar pra Dreamland. Depois jogo o último punhado e as gaivotas voltam atrás de uma segunda oportunidade e eu estendo o pote, sacudindo, como se devesse jogar ele dentro do mar também, uma mensagem numa garrafa, Jack Arthur Dodds, salve nossas almas, e as cinzas que carreguei nas minhas mãos, que eram o Jack que uma vez esteve vivo, são carregadas pelo vento, são rodopiadas pra longe pelo vento até as cinzas se transformarem no vento e o vento se transformar no Jack de que nós somos feitos.â€
“Últimos pedidos”, de Graham Swift. Trecho pescado no blog do Michel Laub. Para ilustrar, trabalho de Dirk Bell (Revelation Big Sun).
Enviado por Ricardo Lombardi
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