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28/10/2008 - 05:50

“A nível de detestável”

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Fuçando no meu baú de textos, achei este aqui, de Sérgio Augusto de Andrade. Foi publicado na Bravo, em 2002, com o título “A nível de detestável”. Compartilho com os leitores:

“A nível de detestável

“Um estereótipo é pior que o câncer.

No século 19, os franceses transformaram o combate ao clichê num sistema e numa obsessão: Flaubert catalogou as frases feitas, Léon Bloy os lugares-comuns; Rémy de Gourmont e Marcel Schwob tentaram descobrir seu antídoto; Villiers de L’Isle-Adam imortalizou os vícios do jargão com seu Tribulat Bonhomet e Henri Monnier com seu memorável Joseph Prudhomme. Por toda a França, atacar o senso comum era o dever de honra de todo intelectual: o estereótipo passava a representar simbolicamente o triunfo detestável do mundo burguês. Quase 100 anos depois, essa fascinação nacional continuava viva nas páginas sempre superestimadas de Roland Barthes e sua descrição do estereótipo como a figura máxima da ideologia – descrição cujo estilo lembrava perigosamente, muitas vezes, o próprio estilo dos clichês que criticava. É explicável: o estereótipo é sempre uma armadilha.

O curioso em sua história é que tudo que soava anteriormente patrimônio exclusivo da burguesia acabou se transferindo, com menos turbulência que se esperava, para o vocabulário supostamente mais moderno da crítica. Hoje, não se distingue mais nada: todo mundo é viciado em clichês. Quem governa o mundo não é nem o amor nem o poder; é o Conselheiro Acácio.

O estereótipo representa um estágio muito específico na linguagem – um estágio cuja altura a gíria nunca alcança e o provérbio sempre ultrapassa. Bem ou mal, a gíria sempre ostenta uma vitalidade essencial que a torna impermeável à cristalização; todo provérbio, ao contrário, já parece nascer cristalizado: suas imagens são como o esqueleto de certos peixes, gravado para sempre na pedra. O estereótipo só sobrevive no limbo.

Quando H. L. Mencken identificou a fonte de todo lugar-comum no medo do desconhecido, devia ter levado até o fim sua analogia implícita com a idéia clássica do medo do desconhecido como fonte também de toda religião. Se o mesmo medo pode criar os deuses e os clichês, a verdadeira raiz da inteligência só pode ser a heresia.

Enumerar nossos estereótipos mais comuns, por isso, deveria ser um hábito tão freqüente quanto ir ao médico – na verdade, controlar a proliferação de cada clichê é um problema de saúde pública.

Afinal, muito mais que a natureza, nossa linguagem tem se deteriorado com espantosa rapidez: deveria existir outra espécie de ecologia que pudesse aguçar nossa atenção com a crítica das palavras e moderar um pouco os excessos de nossos clichês.

Como não existe, todo estereótipo continua se proliferando como uma praga resistente e se mantendo vivo como um vírus teimoso. Os exemplos são infinitos; 25 já são clássicos. As pessoas falam tanto.

1.“Orgânico” – Muita gente se esforça muito tentando imaginar um mundo sem injustiças; eu sempre me esforcei muito tentando imaginar um crítico de artes plásticas que não se deslumbrasse diante de uma forma “orgânica”. Aplicável a conchas, dunas, desenhos de crianças e Mira Schendel.

2. “Compor” – Embora sempre soe tecnicamente refinado falar em “compor” personagens, nenhuma pessoa séria leva a expressão a sério. Nenhuma pessoa despreocupada leva a expressão a sério. Um dia perguntaram a Jack Palance como ele havia “composto” o personagem de Fidel Castro no filme Che. “Com um charuto”, ele respondeu.

3. “Exercer a cidadania” – Um furor unânime: todo mundo, de repente, resolveu exercer sua cidadania. Quem assiste à TV adora exercer sua cidadania enquanto telespectador; quem sai para viajar adora exercer sua cidadania enquanto turista; quem freqüenta fast-food adora exercer sua cidadania enquanto consumidor. Sempre com muita consciência.

4. “Vou dar um retorno” – É evidente que ninguém vai dar nada nem retornar de lugar nenhum. Perguntar, no entanto, “retorno de onde?” é responder a um clichê com outro.

5. “Style” – Aportuguesado ou não, é sempre de uma vulgaridade imbatível. Aplica-se em geral a pessoas, vozes e adereços.

6. “Transparência” – Todo mundo exige, todo mundo pede, todo mundo reclama, todo mundo se orgulha de possuir. Ninguém percebe que é uma qualidade para vidraceiros e que seu uso já passou, há muito tempo, dos limites.

7. “Quem deseja?” – É claro também que alguém sempre pode redirecionar o eixo da pergunta respondendo “eu desejo a Britney Spears” – ou, de forma razoavelmente mais elaborada, comentar que todo homem sempre representa um inconsciente formado pelo desejo. As duas respostas já se tornaram um lugar-comum tão previsível quanto a insólita concisão da pergunta.

8. “Com certeza” – Um clássico de aceitação absoluta. Quer dizer “sim”.

9. “Estressado” – Todo mundo está. Qualquer motivo vale: reclamar de qualquer tipo de stress dá sempre a impressão de uma vida interior mais rica.

10. “Sensível” – Uma interpretação aceitável é sempre “sensível”; uma música bem escrita é sempre “sensível”; fotos em preto-e-branco de movimentos rurais, favelas, rebeliões, rostos suados, manifestações públicas ou crianças com fome são sempre sensíveis. O odioso cinema iraniano, um caso extremo de sensibilidade.

11. “Textura” – Não importa do que for, é sempre “sutil”.

12. “Energia” – Só quem acredita mesmo que deva existir uma energia positiva ou uma energia negativa que influencie qualquer decisão pode se dispor a perder o tempo repetindo uma idéia que deveria ser reservada às valorosas companhias metropolitanas que distribuem luz.

13. “A nível de” – Um exemplo cuja mera menção já deveria ser proibitiva.

14. “Deus? Não, eu acredito numa força superior” – A fórmula preferida de todos que querem parecer profundos e não se importam em soarem rasos. A única força superior em que deveriam acreditar deveria ser um segundo grau bem-feito.

15. “Surtar” – Um verbo cuja espantosa popularidade é efeito exclusivo da mania universal que leva todos a posarem de esgotados. Sua conjugação deveria se limitar a casos clínicos.

16. “Muito humano” – A maneira mais comum pela qual toda mula costuma se definir.

17. “Reler” – Pai do atual “repaginar”. Todo mundo, cedo ou tarde, sempre faz a “releitura” de algum filme, alguma ópera, alguma peça. Todo mundo sempre “repagina” algum bar.

18. “Perverso” – O jogo financeiro das grandes potências.

19. “Beleza interior” – Valorizar. Uma carta eternamente na manga de toda pessoa que desconfia um pouco de sua beleza exterior.

20. “Clean” – Um hit entre diretores de arte, decoradores de interior e lavanderias.

21. “Interessante” – Adjetivo que, por não significar absolutamente nada, é sempre usado por quem quer sugerir absolutamente tudo.

22. “Coisa de pele” – Versão epidérmica, em recorrência trivial, de qualquer metáfora envolvendo tudo que for “sensível”. Mais para coisa que para pele.

23. “Pois é, no final tudo acaba em pizza” – Fórmula cuja repetição é obrigatória para todos os que se julgam céticos, sarcásticos, experientes e que, em sua perpétua repetição, acreditam estarem assumindo a onisciência visionária de um Keynes combinada à mais inventiva ironia. É uma ironia que pode duvidar de muita coisa – menos do lugar-comum. Quase pior que “a nível de”.

24. “Preciso de uma posição” – Geralmente proferido com a urgência ameaçadora de um general organizando manobras no deserto, deveria ser exclusividade de quem estivesse conferindo na prática as sugestões físicas de um clássico da literatura hindu muito cultuado no Dia dos Namorados.

25. “Administrar” – Aparentemente pretendendo combinar Suzana Flag e a Fundação Getúlio Vargas, muita gente decidiu ser importante “administrar” sentimentos, situações ou o tempo. Uso especialmente freqüente em discussões entre casais.

Talvez existam casos em que a censura, mais que admitida, deveria ser obrigatória: é mais humano tolerar genocídios que estereótipos. Não existe vida intelectual possível sob o peso de tantos clichês. Bem mais que as baleias, deveríamos tentar salvar antes de tudo nossas palavras.”

Para ilustrar o post, trabalho do artista Carsten Holler.

Autor: - Categoria(s): cultura Tags:

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4 comentários para ““A nível de detestável””

  1. sheyla amaral disse:

    Um dicionário com mais de 228 mil verbetes e por incrível que pareça, falamos e repetimos sempre as mesmas palavras, diariamente.

  2. Andréia disse:

    Hehehe… esse é o meu preferido:
    “é complicado”.

  3. mondocanis disse:

    Como nossa vida seria muito mais complicada sem os clichês!!
    Três vivas ao Tarantino! rá

  4. eu adoro “as coisas vão melhorar” e ” quando vc menos esperar vai acontecer”

Os comentários do texto estão encerrados.

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