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08/08/2008 - 06:12

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Circular: “Iludido por um tipo de fetichismo — o fetichismo da informação — que costuma ser tão hipnótico quanto aquele que certos românticos costumam alimentar por saltos altos, todo jornal parece acreditar não só que seu primeiro dever é informar mas também que a informação está sempre ligada ao que é novo, imediato, e que se renova. É uma convicção atordoante — cujo único, dúbio mérito é reduzir o mundo a um alucinado gerador de ruído.

Meu jornal ideal — seja na mídia, como se diz hoje em dia, que for — é diferente. Meu sonho seria receber diariamente algum jornal que, esgotado e vencido pela marcha das notícias, decidisse repetir e se concentrar sobre um fato único, de preferência escolhido ao acaso (ninguém nunca sabe, afinal, o que é realmente importante). Dia após dia, alguma luz nova e discreta seria jogada mais uma vez sobre o mesmo fato — descrito e redescrito alternadamente por cartógrafos, sociólogos, matemáticos, críticos de literatura, geógrafos, músicos, teólogos, médicos, filólogos, arquitetos, químicos, historiadores e, quem sabe, até jornalistas. Não se precisa de mais que um único fato para se conseguir uma cobertura virtualmente eterna. E já que os acontecimentos entediam, é possível que um único acontecimento, elevado à categoria de uma obsessão planetária, acabe excitando. Multiplicar o novo pode ser uma ação em último caso vazia e, além disso, um pouco inútil — nada provavelmente é tão estimulante quanto repetir o mesmo.” (Sérgio Augusto de Andrade, em “A chatice das notícias”).

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